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“Marx continua a ser imprescindível para pensar uma alternativa ao capitalismo”

Em entrevista ao Esquerda.net, Marcello Musto fala de um Marx diferente do esquematismo dogmático. Um Marx literal, descoberto nos últimos escritos que mostram um pensador que está para além da caricatura economicista e eurocêntrica. Esta quinta-feira, às 21  horas, apresenta em Lisboa o seu livro “O velho Marx”.
Marcello Musto
Marcello Musto. Foto Esquerda.net.

Marcello Musto nasceu em 1976 na Itália. É doutorado em Filosofia pela Universidade de Nápoles e pela Universidade de Nice e professor no Departamento de Sociologia da Universidade de York. Especialista no pensamento de Karl Marx, organizou e escreveu vários livros sobre este autor e também sobre a Iª Internacional.

Em português tem publicados O velho Marx – uma biografia de seus últimos anos (1881-1883) e Trabalhadores, uni-vos! – Antologia política da 1ª Internacional, ambos publicados pela editora brasileira Boitempo.

É precisamento este primeiro livro que vai apresentar esta quinta-feira, às 21 horas na sede do Bloco na Rua da Palma, em Lisboa.

Porque é que nos devemos interessar hoje pelo pensamento de Marx?

Depois de 1989, tivemos duas décadas de silêncio sobre Marx. Mas, em 2008, voltou o interesse internacional sobre Marx. Este interesse foi sobretudo pela crítica da economia política e foi global. Com exceção de algumas partes do mundo como, por exemplo, o leste da Europa nos países que tinham pertencido ao chamado “bloco socialista”.

Marx regressou às grandes universidades como as dos Estados Unidos. Mais ou menos todos os países da Europa, da América Latina, da América do Norte têm um Fórum Marx, um congresso internacional que se faz a cada ano ou dois. Em 2017, 2018, foram ainda mais importantes pelo 150º aniversário do Capital e pelo bicentenário de Marx.

O que julgo que é interessante agora é diferente: é regressar ao Marx político. Porque nesse regresso a Marx que aconteceu depois de 2008 parece-me que tinha voltado a ideia de Joseph Schumpeter de que o pensamento político de Marx é débil, é dogmático, mas a crítica da economia política é interessante.

As pessoas diziam que Marx era um autor branco, europeu, eurocêntrico, que não serve para hoje.

Penso que o que se pode passar nos próximos anos é voltar à teoria política de Marx e analisar novamente, com novos textos e com uma cultura política diferente, temas que têm uma forte atualidade ou que podem ser muito interessantes para nós hoje. Por exemplo, quando houve este fenómeno de voltar a Marx em muitos países, sobretudo nos Estados Unidos, a crítica contra Marx era que este era um autor que escreveu e pensou quase apenas o conflito entre capital e trabalho e por isso as pessoas diziam que Marx era um autor branco, europeu, eurocêntrico, que não serve para hoje.

No último trabalho que publiquei em português, tentei demonstrar como, na realidade, o Marx dos últimos anos é um Marx que é muito mais amplo do que as pessoas geralmente identificam com Marx. Agora passámos a ter uma ideia de Marx bastante diferente. Marx escreveu muitíssimo sobre as questões que têm forte atualidade. A questão ecológica, por exemplo, é um tema que nos ajuda a pensar o socialismo não como um desenvolvimento das forças produtivas como foi na União Soviética do século XX. Mas também nos riscos muito fortes não apenas para os trabalhadores, exploração, alienação etc. mas também para o planeta, para as questões ambientais.

Marx também foi um autor que pensou muitíssimo o tema da desigualdade entre o norte e o sul do mundo. Nesta década entre o fim da Internacional, 1872, e o ano em que Marx morreu, em 1883, temos muitos estudos em que Marx se preocupa com a realidade da Argélia e critica os colonialistas franceses, em que analisa novamente com mais instrumentos políticos e teóricos a Índia e toma uma posição muito forte, muito clara, contra o colonialismo inglês, em que se preocupa com a invasão espanhola do México, em que estuda a Indonésia, o Egito. É um Marx muito mais global.

Marx pensava que a emancipação das mulheres tem de ser um elemento fundamental da sociedade socialista.

E isto é claro também pelo que está no Capital. Agora que temos todos os manuscritos do Capital pode-se ler que Marx o queria completar, estava convencido de que poderia pelo menos fazer o segundo volume do Capital, mas também queria ampliar o ponto de vista. Não ter apenas a Inglaterra e a Europa como centro de análise, porque faltavam os documentos sobre outras partes do mundo, mas também analisar o capitalismo nos Estados Unidos depois da guerra civil de 61-65 e as alterações dramáticas que estavam a acontecer na sociedade russa a seguir ao fim da servidão em 1861, por exemplo.

Também é um Marx que se ocupa da questão de género, que fala da emancipação das mulheres e que diz que isto tem de ser um elemento fundamental da sociedade socialista. E que na nova sociedade o nível de emancipação se pode medir através do nível de emancipação da mulher, o que é um velho tema de Fourier e dos socialistas utópicos franceses.

Há ainda várias outras questões. Mas a questão mais importante para mim politicamente para repensar o socialismo é a ideia da liberdade do indivíduo. Há muitos documentos de Marx que estudam esta questão. Claro, não são livros, não são artigos publicados, são documentos fragmentários que um velho que estava muito cansado deixou.

Estes documentos não têm de ser considerados como uma Bíblia como foram anteriormente. Eu não penso que a esquerda hoje em Portugal, em 2019, tem de organizar uma política ecológica pensando no que Marx escreveu nestes manuscritos. Mas é muito interessante voltar a este Marx hoje, que penso que é a tarefa de uma nova geração, de investigadores e militantes.

O que tenho visto muito nos últimos dois anos, em todas estas conferências internacionais, é que pela primeira vez nas últimas décadas há um grande interesse das novas gerações por Marx. Depois de três décadas de pós-modernismo e de crítica de fragmentos da sociedade, há uma necessidade de voltar a fazer um discurso crítico sobre o capitalismo, também porque a crise económica que voltou em 2008 tornou-se rapidamente numa crise social e também numa crise de sistema político. Como sabemos muito bem na Europa. Em alguns países, há novos partidos que foram criados, organizados em poucas semanas ou meses, e que conseguiram tornar-se muito importantes. Ou noutras partes há uma rejeição da política muito forte.

Hoje há um novo debate sobre o pós-capitalismo. Penso que é interessante utilizar Marx neste debate e ver o que o tesouro que é a tradição socialista, que foi deixada de lado depois de 1989, nos pode oferecer para além de Marx. Há que analisar os problemas que existiam, as derrotas, as razões críticas e que reconsiderar positivamente muitas questões não apenas teóricas mas também de organização política que diferentes socialismos, marxistas ou não marxistas, nos podem oferecer. Para dar apenas um exemplo. Hoje fala-se muito de mutualismo que é uma velha questão que se falava no tempo de Marx mas sem se saber na verdade o que era este mutualismo.

Estão a surgir textos de Marx que desconhecíamos, acha que Marx ainda nos consegue surpreender?

A edição crítica retomou-se em 1998. Com a edição crítica podemos entrar na cabeça de Marx. E o que me interessa agora em Marx é que muitos dos novos textos, publicaram-se mais de 25 novos volumes, quase trinta, e a maioria dos textos que eram inéditos, mostram-nos um Marx que faz perguntas. Perguntas para si próprio: para onde ir, como seguir... É um Marx muito auto-crítico. Marx é nesse aspeto um bom mestre para os mais jovens. Mas é um autor que foi caraterizado pelo marxismo-leninismo do século XX como dogmático, esquemático, economicista, etc.

Aquilo de gosto muito é mostrar as perguntas de Marx porque também podemos aprender a partir das suas perguntas.

Marx nunca foi dogmático, foi modificando partes importantes do primeiro livro do Capital depois de o ter publicado.

A segunda questão é se nos consegue surpreender. Eu penso que sim. E vou a dar este exemplo do último Marx. Sempre se escreveu que Marx, depois da Internacional, morreu praticamente. Nos últimos dez anos não fez muitas coisas. Agora que temos as notas de Marx, os manuscritos, os cadernos, que mostram a direção que ele estava a seguir e queria continuar a seguir, apesar de não ter tido mais tempo, mais energia, mais saúde, vemos que não apenas Marx continuou as suas investigações, quando antes se dizia que ele as tinha parado, mas também que as ampliou a novas questões temáticas, novos países e também novas disciplinas.

Ou seja, sempre tínhamos considerado que Marx tinha chegado ao final da sua vida sem energia devido à vida terrível que tinha tido. Mas na verdade Marx não apenas continuou a investigação mas também a aumentou de forma quantitativa e qualitativa muito interessante. O problema é que esta investigação não terminou. Marx estava a lutar de forma fortíssima para completar o segundo livro do Capital ou para mudar algumas coisas interessantes do primeiro livro do Capital.

Dizemos sempre que não devemos ler Marx de forma dogmática mas Marx também nunca o foi. Marx foi modificando partes importantes do primeiro livro do Capital depois poucos anos de o ter publicado, quando estava a fazer a tradução francesa.

Um exemplo que eu apresento sempre é o que Marx diz: a minha crítica do capitalismo e a minha representação do capitalismo diz respeito à Inglaterra e eu penso na Europa Ocidental mas isso não pode ser um passe-partout, um esquema histórico, da Filosofia da História, que tem de acontecer em todas as partes do mundo, em todos os períodos e épocas históricas. E Gramsci entendeu-o e por isso estava a lutar tão fortemente contra o manual de materialismo histórico de Bukharin. São duas opções que agora sabemos que o próprio Marx conhecia e a sua crítica contra os primeiros marxistas dogmáticos valia não só na sua altura mas também para o futuro.

O que nos diria mais para nos apresentar a este velho Marx desconhecido de que fala no seu livro?

É um autor muito preocupado em analisar as formas, as formações pré-capitalistas. Penso que Marx analisa com muito mais rigor e com muitas mais fontes e materiais que agora tem como é possível para um modo de produção converter-se noutra coisa. Marx está muito atento ao estudo da etnografia, antropologia. Olha para as formas comunitárias, pré-capitalistas e para o debate sobre se estas se podem converter em algo comunista sem passar pelo sofrimento terrível do capitalismo.

Muitos marxistas dizem que isto não é possível. Não sabem que Marx escreveu claramente que isto é possível e que não se tem de passar pelo esquema: modo de produção asiático, feudal, capitalista e socialista como ele escreveu no famoso prefácio de 1859.

É um Marx que analisa muito a história de forma crítica. E essa é a razão pela qual prefere estudar e analisar mais e não publicar os materiais que já tem prontos.

É um Marx que também analisa as diferenças no capitalismo, as suas variantes. Porque há um capitalismo diferente que se vai desenvolver nos Estados Unidos e isto também dá uma imagem muito diferente do Marx dogmático que geralmente se representa.

Marx quase morre a terminar uma cronologia histórica dos eventos mais importantes, não apenas dos eventos económicos mas também dos políticos. E não apenas dos da Europa mas também de outras partes como por exemplo o Médio Oriente. Isso significa que Marx se preocupa em analisar eventos políticos, ideológicos, como por exemplo a função do Estado, que têm um peso e uma força no momento económico e que vão modificá-lo e que vão fazer com que o capitalismo que se encontra hoje é um capitalismo diferente do que se pode passar daqui a vinte anos.

Alguma desta reflexão, por exemplo sobre a comuna rural russa, a obshchina, que Marx estudou com tanto interesse, está a analisar-se com muito interesse na América Latina. Álvaro García Linera, o ex-vice-Presidente da Bolívia, publicou outra vez estes documentos agora com novos manuscritos para mostrar como a forma comunitária pode ser útil. Ou, pelo menos, para utilizar o antidogmatismo de Marx contra o dogmatismo dos partidos comunistas da Terceira Internacional.

Esta é a caracterização do último Marx: abrir-se a novas questões, ter uma perspetiva cada vez mais internacional e internacionalista, agora que lhe era possível estudar e ter vínculos mais fortes com o movimento operário internacional que estava a nascer lentamente também na Argentina, na Índia, na Rússia.

Marx morre antes da formação da maior parte dos partido políticos. Apenas existia o partido na Alemanha. Foi Engels que chegou a participar na IIª Internacional que foi a Internacional dos partidos políticos. Mas Marx sabia que havia outros companheiros, outros intelectuais críticos e militantes que seguiriam o trabalho que ele tinha deixou aberto.

Dá a conhecer um Marx que é um intelectual militante. Mas, por vezes fala-se num Marx dos académicos e num Marx dos militantes. Há mesmo esta separação? Que diálogos é que são possíveis entre estes dois universos?

Penso que é necessário fazer esse diálogo. Para o fazer teriam de acontecer duas coisas. A primeira é que os académicos têm de voltar é à função do intelectual crítico e militante. O intelectual hoje é pouco crítico. E isso encontra-se muito, por exemplo, nas análises sobre o que se passou na América Latina nos últimos anos: ou era uma defesa completa, total, dos governos da esquerda moderada, o PT de Lula, Kirchner na Argentina, o Chile, ou outras experiências, ou era uma defesa absoluta, dogmática, do “socialismo do século XXI” que também é uma definição da qual não gosto porque não significa nada. Ou seja, significa que não tivemos a força de voltar a analisar criticamente o socialismo passado e de dizer que socialismos queremos.

Intelectual militante significa que depois de 30 anos de desertificação não se pode ir a uma reunião política e ficar frustrado porque a maioria dos camaradas, sobretudo os mais jovens, têm de ser alfabetizados como se fazia no tempo de Marx. E, na verdade, nos últimos anos, houve pouquíssimas experiências desse tipo.

Sou de 76. E penso que sou sortudo em comparação aos que hoje têm vinte porque, pelo menos, vi o último episódio da história deste movimento operário do século XX.

Os partidos não podem apenas seguir a atualidade. Têm de investir na formação política.

Ou seja, também há que trabalhar nos partidos políticos. Não apenas na intelectualidade. E os partidos não podem pensar exclusivamente em seguir a atualidade política e fazê-lo de forma polémica, superficial. Têm de investir muito num processo de formação. E isto também nos movimentos sociais.

Quando falo em formação política não falo apenas em história do socialismo. Mas falo também de uma perspetiva internacional que é o que falta mais hoje na comparação com o passado. Ou seja, hoje em dia é muito difícil ter coletivos políticos ou redes sociais, ou grupos locais de partidos, nas quais nas reuniões políticas não se fale apenas no que se está a passar na autarquia ou no que os autarcas estão a fazer mas se fale também, como se fazia antes, das questões internacionais que têm um caráter de enorme formação política e são muito úteis para os jovens.

O mesmo vale para os sindicatos. Neste momento estou a fazer um curso de formação para todos os secretários gerais sindicais das regiões de Itália. Porque eles não têm nada. E desde há vinte anos que não têm nada. Não obstante, Itália era um país com uma formação incrível. A escola de Frattocchie do Partido Comunista e a escola da CGIL eram muito famosas. Podias gostar ou não, podias considerar moderadas demais ou não, mas era uma maneira de pensar a política e de fazer formação para os quadros. Não só para os quadros mais jovens mas também para os trabalhadores que se alfabetizaram e conseguiram níveis de formação importantíssimos.

Por último, nos movimentos sociais. Estes não podem pensar ocupar-se exclusivamente de uma questão, por exemplo o mercado bio ou a reciclagem, que são importantes e um trabalho que tem de ser organizado contra a ideia dogmática do partido comunista do passado.

Estes três mundos, que deveriam ser o mesmo mundo, devem encontrar-se e abrir-se mais, esforçar-se mais para o encontro, penso também que vão precisar de fazer um esforço para a pluralidade que é muito importante. Opiniões diferentes e competências diferentes têm de encontrar-se e têm de trabalhar juntas porque, em muitos países, estamos em condição de “ano zero”. O caso de Itália, lamentavelmente, é um caso emblemático neste sentido.

Há quem diga que a investigação sobre Marx está condenada a decair, há quem fale numa nova idade de ouro com novos investigadores e novas investigações, qual é a sua avaliação sobre o estado da investigação sobre Marx e sobre o marxismo?

Faço uma avaliação positiva se fizer uma comparação com os últimos vinte anos. Se virmos o número de publicações sobre Marx em diferentes países e em diferentes idiomas e também reedições dos livros de Marx em países como França, Espanha, Itália, já para falar só na Europa, é um número ridículo. Na segunda parte dos anos 80 e em todos os anos 90 há uma derrocada total.

Agora há um ciclo de expansão, um ciclo positivo, e muitas editoras prestigiadas pedem mais contribuições. O que está a faltar é renovar o Marx que se lê em comparação com o que atualmente sabemos dele.

O Marx que se lê hoje na maioria dos países, nos manuais, nos textos que circulam mais é o Marx do Manifesto do Partido Comunista, da Ideologia Alemã, dos Manuscritos Económico-Filosóficos de 1844, que é o texto que mais circulou em muitos países. Este Marx é interessante, fascinante, mas não tem nada a ver com a elaboração de Marx que foi feita com o Capital, como teórico, e depois do Capital na Internacional, com a Comuna de Paris ou com a análise e a interação com muitas partes do mundo, que é feito pelo Marx das últimas décadas.

A tarefa que tem uma nova geração de intelectuais críticos e militantes é de tentar renovar este Marx e permitir que uma outra nova geração o leia de forma diferente, que não é a forma do manual ortodoxo do marxismo-leninismo.

Também é preciso mostrar como Marx ainda tem muito para dizer sobre as temáticas que são interessantíssimas para nós. E também a crítica da política de Marx, agora estou a pensar na crítica dos outros socialismos, socialismo de Estado de Lassale, socialismo de mercado de Proudhon e muitos mais, é útil para revisitar criticamente o socialismo do século XX. O que não significa que vamos aplicar Marx mas que podemos entender uma ideia clara de anticapitalismo que ainda pode ser útil para nós, repensando as alternativas que é o que temos de fazer hoje na nossa sociedade.

Escreveu sobre a Iª Internacional: a história que nos é contada sobre esta é, muitas vezes, a história de como o sectarismo destruiu tudo. Há alguma razão de esperança na história da Iª Internacional ou é só a história de um fracasso?

Essa é a história de um chefe, Karl Marx, que organizou tudo. E certamente que Marx teve o papel mais importante da Internacional. E também é interessante relacionar a sua obra com a Internacional porque a maior parte dos estudos sobre Marx, biográficos, políticos, de teoria crítica, não consideram o Marx da Internacional que é o Marx da elaboração política mais importante com a exceção desses últimos textos, que são difíceis, apenas conhecemos a Crítica do Programa de Gotha que é de 1875 como texto em forma organizada mas que não foi publicado para não fazer um rombo no partido alemão.

Mas na Iª Internacional, há um protagonismo muito forte dos trabalhadores. E esta é extraordinária porque por ela passam pela primeira vez questões que serão emblemáticas na história do movimento operário. É a primeira que se fala na necessidade da fundação do partido político. É a primeira vez que se toma a decisão de ter a greve como instrumento fundamental de luta. A maioria das componentes da Iª Internacional eram contra a greve como por exemplo os anarquistas proudhonianos que eram muito maioritários em França e fala-se da coletivação das terras que é um tema que depois vai ser também importante no sul, no México, no Brasil... isto será analisado e escrito por Marx nestes congressos e foi aprovado em 1868/69.

Este protagonismo operário foi importante para Marx. Porque Marx não aprendeu apenas através dos livros. Também aprendeu a partir das condições concretas, como por exemplo da Comuna de Paris de 1871, de onde tirou a ideia de que não há que esperar que todas as condições políticas estejam perfeitas para começar a revolução. E foram os populistas russos que convenceram Marx que há que organizar o que se pode enquanto este desconfiava dos marxistas russos que esperam a revolução na Suíça, apenas a escrever artigos nos jornais.

Mas também é útil para nós olhar para a Iª Internacional como uma organização feita por humanos e não por divinos. Escrevia-se que a Iª Internacional era uma organização de milhões de trabalhadores e sentimo-nos muito fracos hoje quando sabemos o quão difícil é organizar um partido ou até um grupo. Contudo, a Iª Internacional era uma organização que tinha muitos problemas em organizar os trabalhadores nas fábricas, por exemplo nas grandes fábricas do norte da Inglaterra, e que tinha uma maioria de militantes que eram artesões porque estes eram os mais educados, eram aqueles que já se tinham resgatado e emancipado um pouco mais e tinham tido um pouco de tempo para aprender política.

A Iª Internacional tinha muitos problemas com os trabalhadores desqualificados. E esse é um problema enorme que temos hoje. Pensamos que no passado tudo era perfeito, tudo era lindo porque estava Marx a organizar tudo. Mas era muito difícil organizar a solidariedade internacional.

A Iª Internacional cresce construindo política, militância e aceitando que há diferentes culturas que têm de trabalhar juntas porque assim têm mais força.

Marx quase forçou a maioria dos dirigentes ingleses a colocar um operário irlandês como presidente da Internacional durante um certo período. Isso, para eles, era algo terrível. Mas Marx explicou claramente já nos anos 1860 (aqui não temos de esperar pelo último Marx) que o segredo da burguesia inglesa era dividir os operários, os pobres, o povo, entre irlandeses e ingleses, ou entre franceses e alemães. E há uma mensagem de internacionalismo que é muito forte como teoria e como organização prática.

E também penso que esta Iª Internacional é muito útil para nós hoje porque, lamentavelmente, temos um nível de desorganização política que não podemos fazer comparações com a IIIª Internacional que é muito estadual nem com a IIª que é uma Internacional de partidos políticos muito fortes.

A Iª Internacional é uma Internacional que vive e cresce construindo política, construindo militância. E também aceitando que há diferentes culturas que têm de trabalhar juntas porque assim têm mais força. Depois, claro, que há momentos e ruturas políticas como isto da participação no momento político que dividiu a internacional com a cisão dos anarquistas.

Penso que o momento atual de possível divisão é sobre este tema dos trabalhadores migrantes e também se utiliza Marx de uma forma muito abusiva quando se fala do "exército de reserva industrial" como se Marx estivesse a dizer que esses trabalhadores são maus porque vão baixar o nosso salário.

Pelo contrário, Marx preocupou-se com a imigração muito claramente. É outro tema que emerge neste último período. Claro que não escreveu nenhum artigo sobre isto. Até porque não era jornalista nesta altura. Estava nessa altura a lutar para completar o Capital. Mas quando o último Marx contribui para escrever o programa do Partido Socialista Operário Francês e pela primeira supera a importância de Proudhon em França, neste programa está escrito que os trabalhadores emigrantes tinham de ter o mesmo salário dos trabalhadores autóctones.

Estas ideias para nós são interessantes. Não apenas do ponto de vista historiográfico mas também pela prática política.

Desde o momento em que a Internacional começou essa formação de partidos até hoje muito mudou: a forma-partido ainda faz sentido?

A forma-partido é um tema imprescindível da experiência da Iª Internacional. Penso que a forma da organização política é imprescindível hoje também. Mas uma organização política tem de aprender que não pode utilizar as categorias do vanguardismo leninista do século XX ou as leituras dogmáticas dos partidos comunistas na América Latina que consideram o camponês como um pequeno-burguês quando o camponês para Marx é um sujeito eminentemente revolucionário porque pode trabalhar de uma forma distinta.

Temos de tentar abrir os partidos a uma participação política o mais ampla possível.

Também temos de fazer uma análise das formas políticas mas sem organização política a esquerda fica extremamente débil. Continuo a pensar que precisamos de formas de organização política que têm de ser muito democráticas. Temos de tentar abri-las de uma forma a uma participação política o mais ampla possível, sobretudo das novas gerações.

Então hoje qual o papel de um partido anticapitalista? E o que pode ser um partido marxista ou para que é o marxismo pode servir a um partido?

Há um tema muito interessante que é o dos primeiros partidos que se organizaram e que precisavam de fazer um programa político, que é o que falta hoje igualmente na maioria dos partidos da esquerda, um programa político claro mas também um programa político com compromissos. Porque estes são úteis e sobretudo ajudam o partido, a nova organização, a falar às massas populares.

Marx entendia isso. E nunca é sectário. Mas sabe que também tem de desempenhar o papel do intelectual crítico. E ele está muito interessado em falar da sociedade anticapitalista e demonstrar que é possível mudar, e é necessário se queres fazer uma sociedade de emancipação social e não só política, mudar radicalmente a sociedade capitalista.

Onde haja exploração, Marx vai mostrá-lo claramente.

E Marx não é suficiente. Precisamos de outras coisas. Também de outros socialismos do século XIX. Não apenas revisitar criticamente as experiências do século XX. O tema do mercado, ou o tema da planificação, o tema do modelo de desenvolvimento, ou da ecologia, são questões que necessitam muitas considerações, muitos autores e muitas experiências práticas.

Mas temos consciência que Marx oferece-nos sempre um olhar distinto sobre o modo de produção capitalista. Onde haja exploração, Marx vai mostrá-lo claramente. Onde haja possibilidades de construir uma sociedade plenamente emancipada, Marx vai mostrá-lo claramente.

E muito mais que outros socialistas, que outros socialistas como Bakunine, Proudhon, Lassalle, ou outras grandes figuras do século XIX.

Marx tentou escrever uma crítica do modo de produção capitalista não apenas no seu contexto histórico mas também como tendência, como crise de um modo de produção. E esta é a razão pela qual sempre o voltamos a utilizar, com dificuldades, com alterações, com necessidade de atualizações. Mas Marx continua a ser um autor imprescindível para pensar a alternativa ao capitalismo hoje.

Se as redes internacionais são fracas, se os partidos de esquerda estão em crise, o que fazer? Como construir esse programa?

As condições para mim são muito desfavoráveis. Não apenas na Europa mas também na América Latina. E a situação é ainda mais complicada na Ásia.

Portugal tem uma situação diferente. Temos ainda de ver como o Bloco vai aprender com as experiências dos partidos da assim chamada esquerda radical nos anos 90 e no começo do século XXI que estiveram em coligações políticas com os partidos socialistas, sociais-democratas ou democráticos e que foram identificados com estes partidos e foram completamente obliterados quando estes partidos não fizeram uma política de reformismo básico.

Para voltar à tua questão, penso que é necessário revisitar a história e a derrota histórica do socialismo que foi deixada de lado e não foi analisada. E hoje temos, quando temos forças políticas que estão numa tendência positiva ou não se preocupam em elaborar uma plataforma política ou têm uma plataforma política que é uma plataforma de social-democracia clássica dos anos 60 e 70.

Para mim foi muito interessante o que foi feito pela France Insoumise (e apenas neste sentido particular) porque pelo menos organizou um esforço de participação coletiva e foi identificada a necessidade de ter um programa político e de abrir esse programa a temáticas como a da ecologia, que tem de ser um tema central da esquerda anticapitalista hoje.

Se não se faz isto ou se continua nas instituições e apenas por lá ou a esquerda não vai a repensar questões que têm de ser repensadas também pelas alterações do capitalismo e da política.

Ainda há outra questão a repensar também. Eu não falo apenas da teoria mas também das formas da participação política. O Syriza era um partido que tinha 35% dos votos, ganhou as eleições com este nível de sucesso eleitoral mas era um partido que tinha 17 mil militantes quando Tsipras foi eleito. Se fizermos a comparação com o que acontecia nos anos 60 e 70 há uma distância enorme.

Como vamos reorganizar a forma política hoje, a participação política é um tema que tem de ser completamente repensado. Mas repensado utilizando a história do socialismo, revisitando criticamente os princípios do século XIX e as experiências políticas do século XX. Se abandonarmos isto vamos organizar definições muito simples mas que serão muito vazias.

Entrevista de Carlos Carujo

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