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Mário Cordeiro: “Não há emoji que chegue aos calcanhares das relações cara a cara”

O pediatra mais lido do país lançou um livro sobre o impacto da espiral trituradora do ritmo de vida moderno na vida dos pais apressados e dos filhos stressados. Nesta entrevista, fala da escola, dos tempos livres e da tecnologia ao alcance das crianças. E conclui que “a escola precisa de uma revolução cultural” Entrevista de Joana Campos a Mário Cordeiro, publicada na revista Esquerda.
Mário Cordeiro
Fotografia de Paula Nunes

As pessoas hoje têm um cuidado enorme nos estímulos que dão aos filhos. Há brinquedos para bebés com mais de três meses, com mais de seis meses, para cada idade, com muita especificidade. O facto de os estímulos serem tão dirigidos não limita também as brincadeiras das crianças? 

Há, realmente, uma parafernália de brinquedos para todas as idades e mais alguma. Se não é mau atender-se aos diferentes graus de desenvolvimento de uma criança, a verdade é que escasseiam os brinquedos “toscos”, não num sentido pejorativo da palavra, que possam ser usados nas diversas idades do modo que a criança deseja, fazendo uso da sua criatividade, oportunidade, imaginação e fantasia. 

Tomemos como exemplo os legos. Quando eram compostos por quadrados ou retângulos e pouco mais, de vários tamanhos e cores, uma criança podia construir um barco, um avião, uma pessoa ou, até, imaginar, como eu fazia em criança, equipas de futebol, em que cada jogador tinha um quadrado em baixo, que era da cor dos calções da equipa, e outro em cima, que era da cor da camisola. Depois construía umas balizas e jogava, quer só, quer com os meus amigos. 

É preciso este tipo de jogos, que estimulem a criatividade e deixem a pessoa, neste caso a criança, inventar, fazer, trocar as regras e inventar outras, para depois entender que será mais útil e prático fazer de determinada maneira, mas podendo sempre mudar e reinventar o jogo e reinventar-se a ela própria – é isso o crescimento e o desenvolvimento pessoal. Falo bastante disso no meu último livro, o Pais Apressados, Filhos Stressados.

 

Mesmo na sua organização diária, as crianças têm muitas atividades, é frequente terem um horário mais sobrecarregado do que os adultos, mas os pais sentem uma grande pressão para que os filhos tenham acesso a todas essas atividades. Não faz falta o tempo livre? 

Se faz… mas chegamos ao paradoxo de ter, em Diário da República, consagrada a “ocupação dos tempos livres”… ou seja, deixam de ser livres. Parece que ter tempo para “fazer o que dá na gana” é quase crime. 

Acho lindamente que se descubram os talentos e que, depois, se ajudem as crianças a estruturá- -los, a aprender a técnica, e para isso é necessário tempo, treino e trabalho. Muito trabalho. Todavia, há situações quase ridículas, de pais que têm os filhos em mil e uma atividades, seja porque são coisas que eles, pais, fizeram e querem que os filhos façam, seja porque gostariam de ter feito e não fizeram. Esta ideia de competição, que também existe, de “o meu filho é melhor do que o teu!”, tem de terminar. As coisas devem fazer--se por gozo, com gosto e com um propósito. Liberdade, acima de tudo. Fruição, e respeitar as diversas vertentes do ser humano como, nas crianças, o brincar. Sabe que há estudos que mostram que os prisioneiros, mesmo em prisões de alto risco, têm mais tempo fora de portas do que as crianças em idade escolar?

 

Com a tecnologia, as crianças e jovens têm acesso a fontes de informação ilimitadas, o que não significa que saibam estudar, ou que tenham maior independência no estudo. De que forma a escola e os currículos poderiam incluir a tecnologia? 

Não confundamos informação com conhecimento e com sabedoria. Esta exige tempo, experiência, ponderação. É por isso que a escola tem de mudar e a educação passar a ser ensino/aprendizagem. Não se pode continuar a “abrir a cabeça das criancinhas” e a meter matéria lá dentro, matéria essa de que pouco fica e que desaparece mal se faz o teste. Aliás, os testes deveriam ser uma parte ínfima do sistema de apreciação ou monitorização (gosto mais do que da palavra avaliação) do percurso dos alunos – o dia-a-dia, os projetos, os trabalhos de grupo e individuais, a intervenção nas aulas (ainda confrangedoramente escassa) têm de contar muito mais. 

Ter informação, só por si, não adianta muito – e aprender a fazer uso dela através da tecnologia é uma metodologia excelente. Analisar a informação – agora, com as fake news, é até oportuno –, saber como diferenciar as fontes, ser crítico, ser livre, no fundo, no sentido de não ter medo de intervir e de ter um pensamento próprio, desenvolvido… livre. 

Por outro lado, o excesso de informação impede a formação de conhecimento, que é exatamente o que o estudar permite. E estudar deve ser um processo progressivamente autónomo. No início os pais podem ajudar a criança a ser organizada e metódica, depois fazer umas “sabatinas”, umas perguntas avulsas para avaliar o estado da arte, e finalmente deixar os alunos estudar e autoavaliarem-se através do seu desempenho. 

A tecnologia é excelente, dando-nos tempo e descanso, poupando-nos esforços. Ora, o tempo que ganhamos com isso deveria ser aproveitado noutras coisas, sobretudo a estética e a criatividade; desenvolver os talentos que, justamente, nenhum robot ou androide, ou computador, alguma vez poderá desenvolver. Assusta pensar que criamos as máquinas para copiá-las, e não como hipótese de libertação. Seria o mesmo que inventar a roda e tornarmo- -nos, nós próprios, num animal com permanentes movimentos rotativos… no livro dou diversos exemplos, quase caricatos mas reais, desta problemática. 

 

Por outro lado, adultos e crianças estão cada vez mais viciados na sensação de conexão constante que a tecnologia oferece. Já escreveu sobre isso, e de facto é comum vermos famílias inteiras em que cada um está a olhar para o telemóvel, por exemplo, às refeições. Chamou-lhe “pais multibanco”; como contrariar essa tendência? Não há um paradoxo entre a tentativa de proteção das crianças e a sua autonomia nas redes sociais? 

Os fenómenos, hoje, evoluem tão rapidamente que não há hipótese de os estudar cientificamente, de um modo que possa ser provado e sedimentado. A ciência necessita de tempo. Tempo… coisa que é impossível ter quando todos os dias aparecem coisas novas, diferentes, ou mais evoluídas. Só depois de toda a gente ter um ou mais telemóveis é que se chegou à conclusão de que o seu uso não causava cancro cerebral… mas, e se causasse? Como faríamos? 

Quanto ao uso dos telemóveis, tablets e outras coisas parecidas, ou o uso das redes sociais todas (são tantas que já é impossível decorar os nomes), bom, aí estamos a entrar num mundo caótico e quase de loucura. Numa época de tanta comunicação, nunca se comunicou tão pouco e com tão pouco tempo. Confunde-se trocar mensagens com experimentar emoções, debater sentimentos ou olhar o outro nos olhos, fruir os silêncios (as pausas são essenciais na música, como o silêncio no final da peça, antes dos aplausos!) e adivinhar até as microexpressões da face, a linguagem gestual, a maneira de estar, de pousar a mão, de trocar (ou desviar) olhares. Não há emoji que chegue aos calcanhares das relações “cara a cara”. Torna-se, assim, urgente, mas mesmo muito urgente, dar a volta a este estado de coisas e não ter receio de as dizer, com medo de que possa ir contra a corrente. Temos, mesmo, de por vezes ir contra a corrente, para sermos verdadeiros livres pensadores. Havendo todos estes gadgets e as redes sociais, o que temos é de introduzir o tema na escola e de debater o assunto, de analisar com os alunos, em vez de debitar mais multiplicação de potências ou vetores, ou a data do tratado de Alcanizes. A escola precisa de uma revolução cultural… pode parecer aberrante esta afirmação, mas acho que é mais do que a minha simples opinião, é uma evidência. 

Custa assim tanto admitir que não somos deuses, que não somos super-homens, que somos (e ainda bem) humanos, sensíveis, limitados, mas com a possibilidade de nos transcendermos? 

 

Atualmente, as crianças têm aulas em salas que muitas vezes são desconfortáveis, aulas muito longas, que excedem em muito o tempo em que conseguem estar atentas [pouco mais de 15 minutos de seguida]. De que forma os professores podem melhorar as suas aulas, mantendo o interesse das crianças?

Aulas de hora e meia com turmas de perto de 30 alunos e em cadeiras desconfortáveis é um convite à não-aprendizagem e a um “tirem-me daqui” imediato. É urgente reapreciar isto e, mesmo com todos os constrangimentos que sabemos que existem, há muitos graus de liberdade na escola para proceder a algumas modificações. Na sala de aula, o professor pode “mandar” e dar a aula como quer, permitir (ou não) a intervenção dos alunos, interpelá-los, contar histórias e pedir aos alunos para as contar, trocar experiências, estar disponível e não parecer sempre que é o mestre catedrático e os alunos os seus subservientes. 

Um bom professor – e tive muitos, no liceu e na faculdade – conseguia “grudar-nos” à matéria, fazer rir (porque é que professores e alunos têm de ser sisudos?), podíamos espreguiçar, intervir (organizadamente, claro!) e até o nível de ruído, de confusão e de interrupções aleatórias e sem sentido diminuía extraordinariamente! Um bom professor, independentemente de ganhar mal, de estar cansado, de tudo o que sabemos atingir a classe docente, pode e deve, no momento em que entra na sala de aula, ganhar a liberdade de ser professor, de ensinar, de pensar que pode colocar a sua impressão digital e influenciar positivamente o percurso de vida dos seus alunos. Não é difícil. Como dizia Eric Clapton, “believe me, I know!”. Os meus estágios no Reino Unido e as minhas visitas a Gotemburgo foram das experiências em que mais aprendi como um professor pode entusiasmar um aluno – lá, fui aluno e fui professor, e foi maravilhoso.

 

Vários estudos apontam para a importância das artes na aprendizagem, e sei que é um tema que lhe interessa; como vê a forma como as artes são encaradas no ensino? E o facto de os conteúdos das várias disciplinas serem pensados e planeados muitas vezes sem ligação entre si?

Pôs o dedo em várias feridas… grandes feridas. A arte, portanto, a estética, e a ética, a par da história, literatura e línguas estrangeiras e da relação do corpo com o ambiente, têm de ser as matérias principais. O resto virá por acréscimo. Infelizmente, e vimos isso com o anterior governo, o peso foi sobretudo para a matemática (ou não fosse o anterior ministro professor de matemática) e para o português, que pouco tem a ver com a literatura, mas sim com gramática. Eu, pessoalmente, cheguei aos 55 anos sem saber o que eram superlativos absolutos sintéticos ou analíticos, e isso não me impediu de intervir, falar, escrever livros científicos, romance, poesia e dramaturgia… o que me interessava, desde pequeno, era ler, ler, ler… para absorver as ideias dos outros, as narrativas, as experiências contadas, as biografias.

Infelizmente, as artes são parentes pobres – em coisas tão pequenas como, por exemplo, raramente haver música ambiente nos corredores das escolas. O que me deixa mais furioso é que, nos jardins-de-infância, privilegia-se a pintura, digitinta, música e canções, dançar e até o teatro. Depois, quando se entra no 1.º ciclo, quase tudo isso morre ou é remetido para as AECs, que podem ser excelentes, como felizmente acontece na escola pública onde os meus filhos andam, o Filipa de Lencastre, porque nós, pais, através da associação de pais, tomámos nas mãos as rédeas da organização desses tempos e conseguimos uma oferta que vai das artes circenses ao xadrez, passando por robótica, krav-magha, culinária, cinema, teatro, esgrima, tiro com arco e mais pelo menos dúzia e meia de atividades, através das quais os alunos podem rodar; noutras escolas é a indigência total. E é tão fácil, com o dinheiro per capita que as autarquias dão, com a quantidade de monitores que se conseguem arranjar em associações, federações e até alunos do secundário… enfim, é uma questão de querer… e também uma questão de se gastar muito, mas mesmo muito tempo, não remunerado, a pensar nestas coisas.

Finalmente, há muitas matérias que deveriam ser dadas conjuntamente por vários professores – quando se fala nas Invasões Francesas, dever--se-ia dar a aula com os professores de história, geografia, literatura, falar das invasões em si mas da herança francesa que ficou no país, de França e da sua cultura, de expressões como “ir para o maneta” ou “a ver navios”… sei lá, tanta e tanta coisa. O mesmo se diz da sexualidade, que deverá ter componentes biológicas, mas também estatísticas e matemáticas, cidadania, direitos das pessoas, literatura, música, poesia, pintura, escultura… E se pensarmos na cidadania, na prevenção da violência no namoro e doméstica, na prevenção rodoviária… bom, em tudo o que a escola pode e deve ensinar, poderemos sempre ir ensinando o resto. Se, como fez um professor dos meus filhos, começar a ler a Mensagem, de Fernando Pessoa, e falar do “rei que plantava naus”, pode depois discorrer para Dom Dinis, depois para a necessidade de pinheiros como fonte de madeira para futuros barcos, e até mencionar a contratação do Almirante Pessanha para organizar uma frota portuguesa… muito antes dos Descobrimentos. E os alunos de Lisboa podem aprender especificamente que há uma rua na Baixa chamada Almirante Pessoa e mostrá-la no Google Earth, enquanto, noutras matérias, como as Linhas de Torres, serão os alunos de Torres Vedras que poderão estar mais interessados ou os transmontanos na Porca de Murça. O ensino tem de ser culto, coisa que cada vez menos é. E culto quer dizer vasto, completo, empático, sapiente, satisfazendo as curiosidades, estimulando a argúcia, a procura, o gosto pela aprendizagem e pelo saber. Será também uma boa maneira de combater a angústia existencial que nos persegue desde a infância. A relação respeitosa para com os animais e a Natureza tem também de ser trabalhada muito mais, e por isso estou agora também como assessor da Provedoria dos Animais de Lisboa.

 

O direito à participação política das crianças, previsto no 12.º artigo da Convenção internacional sobre os Direitos da Criança, tem pouca aplicação em Portugal. De que forma poderia ser posto em prática?

Ouvindo-as, escutando-as, levando-as mais a sério mesmo sabendo, obviamente, que o poder de decisão é sempre dos adultos, nestes casos. Mas as crianças não são parvas, embora a palavra “parvo” signifique pequeno. Têm as suas fantasias, inventam soluções, têm mais ousadia, e não são, felizmente, “seriazinhas” como os adultos acabam por ser, muito “senhor doutor para aqui, senhor engenheiro para ali”, sem ponta de graça, de ironia, até de sarcasmo, ou então, quando querem ter graça, são histriónicos e a roçar a boçalidade e a alarvidade.

Não defendo que as crianças sejam narcisistas, omnipotentes, que mandem nos pais ou que “joguemos todos no mesmo campeonato”, mas escutar é essencial, para depois ter a oportunidade de explicar os “porque sim” e os “porque não”, aturar birras, ajudar a vencer a frustração e a raiva, crescer com alegria e frugalidade, sem cupidez, ganância e com elevado sentido ético – solidariedade, empatia, amizade, sentimentos, compaixão, bondade, sentido de entreajuda… tanta coisa. Só assim poderemos ter pessoas e cidadãos bem formados e eficientes, tornando o mundo, e a vida de todos, muito melhor. Será possível? Apesar dos sinais pessimistas que o mundo exala, ainda me resta um pouco de utopia e de esperança. É isso que expresso no meu último livro – uma provocação aos leitores, induzindo-os a pensar, a refletir e a serem cidadãos ativos e não se deixarem cair na modorra e na desistência. Como escrevi num poema, há mais de 40 anos, “só é fraco quem desertar, só é cobarde quem fugir. Enquanto houver um pássaro a cantar, será proibido desistir.”

Entrevista publicada em Fevereiro de 2019 na revista Esquerda.

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