Madrid: depois de trabalhador morrer, sindicatos e empresas de limpeza acordam pausas

20 de julho 2022 - 17:09

José Antonio González morreu na sexta-feira passada devido a um golpe de calor quando varria as ruas de Madrid. Os trabalhadores da limpeza de ruas já há muito criticavam as condições de trabalho e os uniformes usados. Mas foi precisa esta tragédia para que um acordo fosse alcançado.

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José Antonio González.

Na passada sexta-feira à tarde, José Antonio González, varredor de ruas de Madrid de 60 anos, tinha morrido devido a um golpe de calor enquanto trabalhava em Puente de Vallecas. A cidade estava sob aviso laranja por causa da onda de calor. Tinha um contrato de um mês, tinha trocado o turno da manhã pelo da tarde com um colega e há três horas que estava a trabalhar.

Ao El País, o seu filho traça uma situação laboral dilacerante: “chegava destroçado. Sei que estava consciente de que isto podia acontecer mas fazia-o porque queria conseguir um contrato longo. Estou convencido de que não parou de limpar aquela rua até que desmaiou. Pensava que não iriam renovar o contrato e estava a dar tudo para mostrar o que valia. Isto para mim é desumano. Deve fazer-nos refletir a todos.”

O jornal El Diario dava conta, na segunda-feira seguinte, que a Inspeção de Trabalho espanhola advertira a empresa privada para a qual trabalhava, a Urbaser, de que teria de tomar medidas de proteção dos seus trabalhadores devido à onda de calor. Esta instituição tinha lançado, aliás, uma campanha informativa sobre os riscos do calor na qual contactou 115.000 empresas.

O presidente da autarquia, José Luis Martínez-Almeida, do Partido Popular, contudo, optou por guardar silêncio durante todo o fim de semana e no início desta semana deu uma conferência de imprensa a assegurar que os uniformes dos funcionários da limpeza estão “homologados” e “cumprem em princípio a normativa de riscos laborais”. Só que na quinta-feira anterior, na Cadena SER, quando confrontado em direto por um trabalhador da limpeza que tinha ligado para o programa, tinha-se comprometido a melhorar quer as condições de trabalho quer os uniformes declarando claramente: “comprometo-me a falar com o delegado para o Meio Ambiente e com as empresas para ver se se podem introduzir melhorias. (…) Em ondas de calor como estas, um uniforme de poliéster não os ajuda no mínimo nem os beneficia para trabalhar”.

A questão do uniforme é uma das que os sindicatos destacam: “o uniforme de poliéster dificulta a transpiração, provoca feridas e fricções no corpo”, declarou ao mesmo jornal Manuel Menéndez, representante dos trabalhadores da limpeza das Comisiones Obreras de Madrid. Mas acrescentam outras: “o ritmo que te impõem para cumprir os prazos e finalizar a tua tarefa na hora definida é desenfreado. Se não cumpres os tempos estipulados, sancionam-te. Há inspetores do Ayuntamiento que te controlam”.

Também a responsável do setor da UGT Madrid, Sherezade Talavera, critica as condições de trabalho a que estão obrigados, salientando que “ao contrário da maioria dos municípios de outras províncias”, em Madrid não havia “nenhum protocolo que regule estes trabalhos quando as temperaturas alcançam níveis extremos”. Para ela, “teve de ocorrer esta desgraça para que comecem a pegar no assunto”.

E assim foi esta terça-feira com os trabalhadores destes sindicatos a reunirem-se com os representantes da associação patronal do setor. O acordo foi alcançado já durante a noite e prevê, por exemplo, quando as temperaturas sejam elevadas a possibilidade de eliminação do turno da tarde, de não utilização de veiculos sem ar condicionado, de pausas à sombra, entre várias outras. Sobre os uniformes apenas ficou escrito que “negociar-se-á entre as partes a qualidade da roupa”.