Ao longo das últimas semanas, através do Twitter, um grupo de cidadãos mobilizou-se para fazer três outdoors, pensados como um memorial às vítimas de abusos sexuais por membros da Igreja Católica, numa altura em que a Jornada Mundial da Juventude se celebra em Lisboa e em que o Papa visita o país.
A iniciativa nasceu no Twitter e começou apenas com a expetativa de passar a mensagem pelas redes sociais. Depois veio a ideia de fazer um cartaz de tamanho gigante para afixar na 2ª Circular em Lisboa. Para isso criou-se um “crowdfunding” e a iniciativa foi um sucesso. Cerca de 300 pessoas contribuíram em poucos dias e foi assim possível criar três outdoors, em Algés, na Alameda, em Lisboa, e em Loures. Os cartazes, escritos em inglês e com as letras das cores da bandeira nacional, faziam referência às mais de 4.800 crianças abusadas no seio da Igreja Católica: “4.800+ Children Abused by the Catolic Church in Portugal”. Cada uma das crianças é representada por um ponto vermelho colocado ao lado das letras.
Junto com este processo foi feita a página This Is Our Memorial onde constam ainda contactos de associações de apoio a vítimas de abuso sexual.
Esta quarta-feira, um dos cartazes, colocado em Algés, no concelho de Oeiras foi retirado revelou Telma Tavares, designer e uma das promotoras da iniciativa.
Censura em Algés, após quase 50 anos do 25 de abril.
Luto pela liberdade de expressão das +4800 vítimas, por um memorial que erguemos para que ninguém se esqueça delas. Não esquecemos.#JMJ #WYD pic.twitter.com/hfO6ATA9Wt
— Telma Tavares (@tarantelma) August 2, 2023
Os problemas para fazer passar a mensagem através destes cartazes tinha começado logo, tinha explicado no Twitter, com as empresas que podiam colocar os cartazes a não aceitar a encomenda. Finalmente conseguiram que duas empresas aceitassem mas, explica, houve uma que depois de já ter aceitado a adjudicação da impressão e colocação dos cartazes se recusou a avançar alegando que estes seriam ilegais porque estavam escritos em inglês, tendo Telma Tavares desmentido que tal seja ilegal, porque seriam “anti-religiosos” o que violaria a política da empresa, e porque não teria disponibilidade de pessoal.
A vereadora independente eleita pela coligação Evoluir Oeiras, Carla Castelo reagiu nas suas redes sociais questionando diretamente o presidente desta autarquia, Isaltino Morais. Para ela, “ocultar esta mensagem que recorda as vítimas dos crimes sexuais no seio da Igreja Católica é Censura”.
É preciso saber quem mandou tapar este cartaz e com base em que lei @IsaltinoMorais ? Dos três só este em Algés, concelho de #Oeiras foi tapado. Ocultar esta mensagem que recorda as vítimas dos crimes sexuais no seio da Igreja Católica é *Censura*. https://t.co/1o0JU37tNC
— carlacastelo (@carlacastelo) August 2, 2023
Já antes deste cartaz ter sido censurado, a vereadora tinha publicado uma mensagem nas redes sociais em que se podia ler “Pelas vítimas, com toda a empatia e respeito que merecem. Que a Igreja Católica, ou qualquer outra instituição, nunca mais permita e esconda crimes sexuais contra crianças e jovens. Celebrar o Amor é também dar voz ao silêncio. Obrigada a quem teve a iniciativa”.
Pelas vítimas, com toda a empatia e respeito que merecem. Que a Igreja Católica, ou qq outra instituição, nunca + permita e esconda crimes sexuais contra crianças e jovens. Celebrar o Amor é também dar voz ao silêncio. Obrigada a quem teve a iniciativa. pic.twitter.com/4iO49fOlG7
— carlacastelo (@carlacastelo) August 2, 2023