Italianas insurgem-se contra campas de fetos identificados com o nome das mães

09 de outubro 2020 - 11:18

Mais de cem italianas avançaram com uma ação coletiva para tentar identificar os responsáveis pelo enterro sem permissão de fetos abortados e identificação abusiva da identidade das mulheres. Apesar de ser legal desde 1978, ainda é difícil aceder à interrupção voluntária da gravidez no país.

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Italianas insurgem-se contra campas de fetos identificados com o nome das mães
Fotografia de fanpage.it a partir da imagem que acompanhou a primeira denúncia.

A situação terá começado há quase uma década, mas só na passada semana foi tornada pública: num cemitério de Roma, há alguém que há vários anos enterra fetos e assinala as campas com os nomes das mulheres que os abortaram. Agora, mais de cem mulheres italianas pedem à polícia que investigue a situação e descubra quem está por trás daquilo que consideram ser uma grave invasão de privacidade e desrespeito pelos seus direitos humanos.

O caso só se tornou público, explica o jornal inglês Guardian, quando uma mulher leu sobre os “campos de anjos” num jornal local e acabou por descobrir que uma das campas tinha o seu nome e o dia em que o feto fora enterrado. Ao divulgar a sua indignação no Facebook, mais de uma centena de mulheres uniram-se para uma ação coletiva que reacendeu o debate sobre os obstáculos ao acesso à interrupção voluntária da gravidez, legal no país desde 1978. É que em Itália, sete em cada dez profissionais são objetores de consciência.

O cemitério Prima Porta, em Roma, Itália, tem duas secções do género, num total de centenas de campas de fetos, alguns de 2012. Junto a estas secções estão várias cruzes de madeira caídas no chão, indicando que algumas campas foram reutilizadas. 

Nenhuma das mulheres identificadas tinha dado permissão para o enterro dos fetos. Na Itália, é possível enterrar fetos com mais de três meses, mas só se as mães autorizarem. Uma das mulheres, Francesca, afirma que estava grávida de seis meses quando descobriu que o feto tinha mal formações graves e que era improvável que sobrevivesse. Entre saber deste facto e conseguir aceder a uma interrupção voluntária da gravidez, tal como previsto na lei italiana, passaram-se dez dias, explica o Guardian. Na campa o seu nome está associado ao mês de dezembro de 2019, três meses depois do aborto ter ocorrido.

“Depois da enorme dor por perder a minha filha, descobrir que isto aconteceu é horrível”, afirmou ao jornal inglês. 

“Perguntei várias vezes ao hospital o que acontecia com os fetos e fizeram-me acreditar que eles eram deitados fora”, explicou. “Então, onde esteve durante aqueles três meses? E depois enterrarem-na com o símbolo de uma cruz - com a qual não me identifico, e com o meu nome - senti que foi uma forma de castigo”. 

O hospital em causa negou qualquer responsabilidade. Segundo este, os restos do feto foram identificados com o nome da mãe para garantir o transporte e permissão de enterro. Esta informação terá sido passado aos serviços públicos responsáveis pela gestão dos cemitérios da capital italiana que, por sua vez, afirmam que não procedem a enterros sem autorização das entidades de saúde. 

Livia Turco, ex ministra da saúde, considera que por trás do enterro sem permissão e exposição pública do nome das mães poderão estar grupos anti-aborto.

O enterro de fetos é permitido graças a uma lei criada durante o regime fascista de Mussolini e atualizada em 1990. Porém, era desconhecida e não permitia a prática de identificação das mães. Há anos que grupos anti aborto, católicos e de extrema direita tentam criar os chamados “campos de anjos” para enterrar todos os abortos feitos no país.