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Itália: o que esperar da extrema direita no poder?

Estamos face a uma viragem histórica e isso exige uma forte mudança de ritmo. É preciso construir um caminho unitário e plural que envolva todas as forças que não se reconhecem nas políticas liberais. Entrevista de Israel Dutra ao ativista anti-racista e dirigente da Esquerda Anticapitalista Gippo Ngandu.
Faixa da Esquerda Anticapitalista na manifestação nacional de 8 de outubro em Roma.

Recentemente, o parlamento italiano ganhou uma nova primeira-ministra, Giorgia Meloni. A representante da extrema direita foi aceite pela maioria da população com uma agenda autoritária e reacionária, em sintonia com pares como Donald Trump, nos Estados Unidos, e Jair Bolsonaro, no Brasil. Na entrevista a seguir, Gippo Ngandu conta como a Itália chegou a esse retrocesso.

 

Israel Dutra: Pode fazer uma pequena apresentação da sua militância e do que está a acontecer na Itália?

Gippo Ngandu: Quando era jovem, aderi aos movimentos estudantis e anti-racistas. Depois, filiei-me na Refundação Comunista até 2007, quando, junto com a corrente Sinistra Crítica, começámos uma nova formação política após a expulsão do nosso senador, Franco Turigliatto, que votou contra o financiamento de guerra do Afeganistão. Assim, sempre me empenhei na construção de uma esquerda anticapitalista, feminista e anti-racista, capaz de dialogar com as forças das esquerdas radicais e antiliberais presentes no nosso país.

 

Quem é Meloni e o que representam o seu programa e o seu partido, o Fratelli d ́Italia?

Giorgia Meloni foi líder dos jovens do Movimento Social Italiano, partido nascido após a Segunda Guerra Mundial a partir da dissolução do Partido Fascista. A sua vitória tem, portanto, um valor simbólico e sem precedentes na história da República Italiana. A Itália tem um governo de direita hegemonizado pelos herdeiros de Mussolini e os bandidos fascistas que atacaram fisicamente os movimentos operários e estudantis na década de 1960.

Os representantes do governo estão todos alinhados com o projeto reacionário e autoritário de restauração nacionalista com pendor neoliberal. O ministro da Defesa é um grande empresário no mundo do armamento. O ministro do Interior é um homem das instituições que, como edil de Roma, deixou a sede do maior sindicato italiano, a CGIL, ser atacada pelos neofascistas de Forza Nuova; há uma nova ministra da Família e Natalidade que se declarou contra as adoções por casais LGBTQIA+.

 

Explique um pouco o contexto histórico da chegada ao poder de um partido de extrema direita.

As forças da direita e da extrema direita conseguiram estabelecer-se eleitoralmente porque pareceram, aos olhos de uma parte da população desorientada, uma alternativa [ao governo] existente. Isto foi possível graças às derrotas e terríveis reveses do movimento operário.

A vitória também foi uma reação distorcida às políticas económicas liberais praticadas por todos governos que se sucederam, incluindo os de centro-esquerda, e graças às fraquezas das forças da esquerda autêntica e dos movimentos sociais. É uma direita que tem uma perigosa maioria parlamentar, apesar de não ser maioria no país, graças a uma lei eleitoral antidemocrática, desejada pelo Partido Democrático (centro-esquerda).

 

Existem paralelos entre a força da extrema direita na Itália e em outros países como Suécia, Hungria, Filipinas e Brasil?

Além das diferenças, devido à história particular dos diferentes países, há fortes paralelos entre as forças de extrema direita presentes nesses países. Ao mesmo tempo existem relações estreitas entre estas forças. Giorgia Meloni participou da tentativa de construir uma “internacional da direita reacionária” e está a construir laços sólidos com as várias direitas europeias, mas também com a direita norte-americana, ligada a Trump, e com a direita brasileira. É uma direita nacionalista, mas fortemente liberal do ponto de vista económico e que, face à crise, visa dividir as classes exploradas atacando ferozmente os direitos das mulheres, os movimentos LGBTQIA+, os direitos dos migrantes. É uma direita “Deus, Pátria e família”.

Como os movimentos sociais se estão a organizar para construir uma agenda de resistência ao novo governo?

Nos últimos anos, os movimentos sociais passaram por enormes dificuldades, o que favoreceu a vitória dos Fratelli d’Italia. No entanto, há uma primeira tentativa de reação. Houve uma primeira iniciativa da CGIL, no dia 8 de outubro, muito participada, que envolveu muitos trabalhadores, ainda que a direção do sindicato tenha objetivos muito tímidos para já ou até mesmo apenas a abertura de uma mesa de negociações com o novo governo.

Por outro lado, a mobilização das mulheres em defesa do direito ao aborto foi significativa com muitas manifestações nas principais cidades italianas. Para o dia 2 de dezembro, os sindicatos alternativos, outrora muito divididos entre si, convocaram uma greve geral, que será um importante compromisso para tentar construir verdadeiras convergências sociais e políticas contra o governo.

Várias realidades da esquerda social e política, incluindo a Esquerda Anticapitalista, também estão a lançar uma campanha contra o alto custo de vida e contra o aumento extraordinário dos preços da energia.

Finalmente, uma boa parte da população tem ido às manifestações de jovens contra as alterações climáticas, sendo fortemente críticos de um governo negacionista. O movimento juvenil também busca a convergência com setores de trabalhadores combativos na tentativa de construir uma crítica radical ao modo de produção e do consumo capitalista.

 

Finalmente, agradecendo a sua disponibilidade, conte-nos um pouco sobre a esquerda radical na Itália hoje. Quais são as perspetivas?

A esquerda radical enfrenta muitas dificuldades. O resultado obtido pela União Popular, coligação que reuniu a Refundação Comunista, o Poder ao Povo, o ex-autarca de Nápoles, De Magistris, e alguns deputados que deixaram o Movimento 5 Estrelas, foi bastante dececionante, obtendo 1,4% dos votos.

A União Popular pagou, sobretudo, pelo seu caráter eleitoral improvisado. A recolha de assinaturas para poder participar nas eleições, que ocorreu em pleno verão, mostrou que ainda existe uma forte militância no país.

É claro que estamos face a uma viragem histórica e isso exige uma forte mudança de ritmo também para a esquerda radical. É preciso construir um caminho unitário e plural que envolva todas as forças políticas, mas também sociais, da esquerda que não se reconhece nas políticas liberais e pró-padronizadas do Partido Democrata. Este caminho deve estar absolutamente entrelaçado com a construção de um vasto movimento contra o governo e as suas políticas reacionárias.


Gippò Mukendi Ngandu é professor de Filosofia e História no ensino secundário, ativista anti-racista e membro da direção da Sinistra Anticapitalista.

Israel Dutra é secretário-geral do PSOL, sociólogo, membro da Direção Nacional do partido e do Movimento Esquerda Socialista.

Texto publicado originalmente na página da revista Movimento. Editado pelo Esquerda.net para português de Portugal.

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