O ministro da Saúde libanês Firass Abiad confirmou esta terça-feira que o número de cidadãos mortos pelos bombardeamentos de Israel ascendia a 558, dos quais 50 são crianças, 94 mulheres e quatro paramédicos. Quanto ao número de feridos, são pelo menos 1.835.
O Gabinete da ONU para os Direitos Humanos confirma que se trata do dia mais mortífero de violência nos últimos anos no Líbano. A porta-voz Ravina Shamdasani lembrou que “a lei humanitária internacional é clara: todas as parte num conflito armado devem sempre distinguir entre a população civil e combatentes e entre objetivos militares e a população civil”. E apelou a uma investigação independente aos acontecimentos que provocaram a morte de civis.
O porta-voz da agência da ONU para os Refugiados, Matthew Saltmarsh, diz que “dezenas de milhares de pessoas foram obrigadas a fugir de suas casas ontem e durante a madrugada e os números continuam a crescer”, considerando “inaceitável” o preço que está a ser pago pela população civil libanesa.
“Não há solução militar que vá tornar mais seguro qualquer dos lados”, advertiu por seu lado Stéphane Dujarric, o porta-voz do secretário-geral da ONU. António Guterres apelou ao fim imediato das hostilidades e ao cumprimento e implementação total da resolução 1701 do Conselho de Segurança que em 2006 pôs termo à guerra no Líbano.
A jornalista da Al Jazeera Zina Khodr estava na cidade de Tyre no sul do Líbano e testemunhou o início dos ataques aéreos poucos minutos depois do aviso israelita para que a população evacuasse a região. “Vimos o pânico, o caos. As pessoas a tentarem levar o que pudessem nos seus carros para sair da cidade rumo a Beirute”. No entanto, os ataques aéreos também visaram as autoestradas. “Falámos com pessoas que não tinham sequer ideia para onde iam”. O Ministério da Saúde libanês confirma que vários veículos transportando famílias em fuga, tal como ambulâncias e carros de bombeiros foram alvo dos bombardeamentos aéreos na segunda-feira.
O New York Times diz que os libaneses receberam mensagens de texto e chamadas de voz automáticas com a mensagem “Se estiver num edifício onde se encontram armas para o Hezbollah, afaste-se da zona até nova ordem”, como se a população civil pudesse saber onde estariam localizados esses alvos militares. Estas comunicações levaram o governo libanês a acusar Israel de promover uma “guerra psicológica”. A grande maioria dos mortos “eram pessoas seguras e desarmadas em suas casas”, afirmou o ministro libanês da Saúde.
Israel alega que os seus 1.600 alvos atingidos tinham ligações ao Hezbollah, mas como aconteceu em Gaza é a população civil libanesa que sofre com o terror das bombas. O movimento xiita respondeu com o lançamento de 200 rockets contra instalações militares e cidades evacuadas há meses no norte de Israel.
A escalada nos ataques ao Líbano acontece durante a Assembleia Geral da ONU em Nova Iorque, para onde se deslocou o primeiro-ministro libanês Najib Mikati. As reações das diplomacias internacionais não se fizeram esperar. "Continuamos a ter esperança e a trabalhar para travar esta escalada, mas o pior cenário, devo dizer, está a materializar-se e as piores expectativas estão a concretizar-se", afirmou o responsável para as Relações Externas da UE, Josep Borrell. De Moscovo, o porta-voz do Kremlin Dmitry Peskov falou num acontecimento “com potencial extremamente perigoso no que diz respeito à expansão do conflito e à desestabilização completa da região”. O ministro dos Negócios Estrangeiros chinês Lin Jian afirmou estar “profundamente chocado” com os ataques israelitas. O chefe da diplomacia francesa, Jean-Noël Barrot, anunciou que iria requerer uma reunião urgente do Conselho de Segurança. Quanto aos Estados Unidos, no domingo o Presidente Joe Biden disse estar preocupado e a fazer o que podia para evitar uma “guerra total” na região. "Pensamos que há melhores formas de tentar fazer regressar os cidadãos israelitas às suas casas no norte do país e de manter em segurança os que lá estão, do que uma guerra, do que uma escalada e a abertura de uma segunda frente na fronteira libanesa contra o Hezbollah", disse Biden ao canal de televisão norte-americano ABC News. Entretanto o Pentágono anunciou o reforço do seu contingente militar no Médio Oriente, que já ascende a 40 mil militares.