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Indústria alerta para impacto nos preços da falta de matérias-primas

Os setores da metalurgia, metalomecânica, alimentar e construção queixam-se da escassez e dos problemas logísticos que estão a fazer subir o preço das matérias-primas. E avisam que a fatura vai chegar aos consumidores.
trabalhadores num estaleiro de obras
Foto de Paulete Matos

O inquérito de junho aos associados da Associação Empresarial de Portugal (AEP) indica que os empresários estão preocupados com a falta de matérias-primas e o aumento do preço dos fretes marítimos, devido à falta de contentores para escoar os produtos, noticia o Jornal de Notícias esta segunda-feira.

No setor da metalurgia e metalomecânica, os preços das matérias-primas dispararam nos últimos meses, com o aço a valer mais 200%, o níquel 40%, o estanho 62% e o cobre 85%. Até agora, o efeito do aumento não se tem refletido no número de encomendas, com as exportações a crescerem 31.7% até abril face ao mês homólogo de 2020. Mas o presidente da Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal admite um cenário de novos lay-off e despedimentos caso a situação se agrave. Rafael Campos Pereira aponta o dedo à China por ter absorvido boa parte das matérias-primas que antes exportava, ao iniciar mais cedo a sua retoma económica pós-pandemia. Mas a especulação financeira sobre o preço das matérias-primas no último ano também contribuiu para o aumento dos preços.

À escassez de matérias-primas soma-se o problema logístico do transporte comercial, nomeadamente a falta de contentores marítimos. “Em última análise, se as empresas não conseguem satisfazer as encomendas, podem ter de pensar no que fazer: ou endividar-se e ficar numa posição de fragilidade, ou ter de suspender a laboração e entrar em lay-off ou mesmo despedir”, disse ao JN o presidente da AEP, Luís Miguel Ribeiro.

Também o setor alimentar já deixou o alerta sobre as consequências da situação na evolução futura do preço dos alimentos. Ao Dinheiro Vivo, o administrador da Cerealis fala mesmo numa “tempestade perfeita”, com agravamentos entre 30% a 45% nos preços do milho, trigo e soja na próxima colheita no hemisfério norte, em novembro. O trigo mole, que serve de base às farinhas e rações, já é comercializado a um preço 30% acima do registado em 2019, o que terá impacto nos preços da carne, leite e ovos nos próximos meses.

No setor da construção, o problema é idêntico, com o aumento da procura de madeira, aço, alumínio e PVC e a sua escassez a provocar a inflação dos preços. Aqui o impacto vai sentir-se no custo das obras e das casas construídas.

O presidente da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas fala num aumento médio superior a 35% e uma tendência que dá mostras de se poder agravar. Este setor não parou durante a pandemia e no ano passado o consumo de cimento atingiu níveis que não eram vistos desde 2011, disse ao Diário de Notícias Nuno Garcia, diretor-geral da gestora de obras GesConsult. Para este gestor, "a pandemia gerou uma dupla disrupção, quer ao nível da oferta, quer da procura, da quase totalidade da cadeia produtiva, com repercussões a uma escala sem precedentes - dificuldades nas cadeias de logísticas, períodos de confinamento, restrições à circulação…”. Por seu lado, a Associação Portuguesa dos Comerciantes de Materiais de Construção diz que ainda não é visível a falta de produto nos mercados, mas a "previsão é que essa situação venha a ocorrer nos próximos meses".

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