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Índia: jesuíta defensor de direitos indígenas acusado de terrorismo

O regime indiano deteve o padre de 83 anos, acusando-o ligações a grupos maoistas e de participar num incidente de violência entre castas em 2018. Os jesuítas negam, sublinham o seu caráter pacífico e exigem a sua libertação.
Stan Swamy, acusado de terrorismo, tem defendido os direitos das comunidades excluídas da Índia contra as grandes empresas de mineração.
Stan Swamy, acusado de terrorismo, tem defendido os direitos das comunidades excluídas da Índia contra as grandes empresas de mineração.

Stan Swamy passou grande parte da sua vida a defender comunidades indígenas desfavorecidas. É um padre indiano, jesuíta e tem 83 anos. Foi detido a oito de outubro no estado Jharkhand onde habita e desenvolve o seu trabalho humanitário pela brigada anti-terrorista National Investigation Agency e acusado de ligações a grupos maoistas. Tornou-se assim a pessoa mais velha a ser acusada de terrorismo neste país.

O religioso nega e, num vídeo gravado pouco antes da sua detenção, conta que já tinha sido detido em julho e questionado durante 15 horas. Diz que se tinha prontificado a prestar declarações por tele-conferência mas a agência de segurança insistiu em levá-lo para Mumbai, apesar dos seus problemas de saúde (sobreviveu a um cancro mas está debilitado e as mãos tremem-lhe tanto que não se consegue alimentar sozinho) e da situação pandémica. Nessa ocasião, foram-lhe apresentados “extratos” supostamente provenientes do seu computador que mostrariam as ligações a grupos maoistas. Swamy contrapõe que foram lá plantados para o acusar.

Para além destas ligações, foi também acusado de participar nos episódios de violência entre castas ocorridos em 2018 em Bhima Koregaon, no estado de Maharashtr. Até agora 16 pessoas, entre os quais investigadores, advogados e ativistas culturais foram já presos sob este mesmo pretexto. E, ao abrigo da lei anti-terrorismo, tem-lhes sido negado sair da prisão sob fiança. O religioso também nega esta acusação dizendo que nunca esteve sequer nesse local.

A Companhia de Jesus exige a sua “libertação imediata”. O responsável pelo Secretariado de Justiça Social e Ecologia da Companhia de Jesus a nível mundial, Xavier Jeyaraj, sublinhou a sua solidariedade e apelou “às autoridades que se abstenham de detenções arbitrárias de cidadãos inocentes e cumpridores da lei”.

Os jesuítas informam que desde que foi preso e até ao dia 14, Swamy tem sido obrigado a dormir no chão e só tem tido possibilidade de contactar com o exterior através de uma chamada telefónica por semana. Ainda não se pode encontrar com os seus advogados.

Também a Conferência Episcopal da Índia em comunicado de imprensa datado de 9 de outubro fez um “forte apelo” às autoridades competentes para que “libertem imediatamente o P. Stan Swamy permitindo-lhe que regresse à sua comunidade”.

Em Jharkhand, a riqueza do minério deixa os indígenas pobres

Swamy chegou a Jharkhand, na zona oriental da Índia, em 1991. O seu trabalho junto dos adivasis, as tribos indígenas locais que constituem mais de um quarto dos 30 milhões de habitantes daquele estado e que vivem em situações de pobreza severa, é conhecido e reconhecido. A riqueza da região em minérios como o urânio, a bauxite, o ouro, a prata, a grafite, o carvão e o cobre não chega a estas populações.

A repressão à revolta de grupos maoistas na região acaba também por chegar aos adivasis. E Swamy tem lutado nos tribunais pela libertação de três mil jovens indígenas encarcerados, acusados de pertencer a estes grupos. O seu ativismo também incomoda porque se tem deslocado ao longo dos tempos a várias aldeias defendendo que as minas e barragens se foram construindo em detrimento dos seus direitos e das terras tribais. Isso mesmo tem escrito em vários artigos na imprensa.

Segundo Jean Dreze, um economista indiano de origem belga, em declarações à BBC trata-se de “um homem gentil e honesto” que está “empenhado nas suas causas”. Dreze acredita que “talvez tenha ajudado algumas pessoas associadas ou que tinham simpatia para com os maoistas, o que não é nada fora do comum num local como Jharkhand. Isso não faz dele um maoista. A sua prisão é parte de um esforço mais amplo para minar a oposição”.

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