A polícia de Victoria, um dos estados australianos mais afetados pelos incêndios que tomaram conta do país, veio afirmar que não há qualquer prova que indique que os fogos têm mão criminosa. Estas declarações vêm desmentir as informações divulgadas por jornais conservadores.
“Não há qualquer indício de que os maiores fogos tenham sido causados por mão criminosa”, disse uma porta-voz da polícia.
Os jornais do grupo News Corp, de Rupert Murdoch, tinham noticiado que cerca de 183 pessoas tinham sido detidas por estarem relacionadas com os incêndios das últimas semanas na Austrália.
Segundo a porta-voz da polícia, os jornais conservadores terão recorrido a estatísticas anuais, englobando por isso dados relativos a incêndios que ocorreram muito anos dos atuais.
Também a polícia do estado de Queensland negou a detenção de cerca de 100 pessoas. Segundo noticiado pela agência Lusa, estas 100 detenções englobam um período muito superior à duração dos atuais incêndios e entre os detidos estão pessoas que não estão acusadas de fogo posto, mas sim “violações de proibição total de fogo”.
Já em Nova Gales do Sul, um outro estado muito afetado, foram detidas cerca de 24 pessoas acusadas de terem provado incêndios. Porém, o serviço de incêndios florestais fez saber que a maioria dos fogos foram provocados por trovoadas em tempo de seca.
Os estados de Victoria e Nova Gales do Sul, bem como a ilha Kangaroo, continuam a ser os mais afetados e a deterioração das condições climatéricas indica que não há previsão de melhoria. Cerca de 30 localidades e regiões receberam aviso de “evacuação imediata” por parte das autoridades locais.
Mais de um terço da área da ilha Kangaroo está destruída. Grande parte da ilha está sem serviço elétrico devido à destruição das principais linhas de distribuição.
Equipas do Kangaroo Island Wildlife Park, apoiadas por voluntários, estão a trabalhar para tentar proteger os animais do fogo e equipas compostas por veterinários do exército têm prestado apoio urgente aos animais autóctones, nomeadamente koalas, cangurus, águias e gambás.
Disseminação de 'fake news'
Face aos desmentidos da polícia, Emily Townsend, diretora comercial do grupo de comunicação News Corp, anunciou hoje a sua demissão. No e-mail onde fez saber da sua decisão esclareceu que se demitia devido à cobertura “perigosa e irresponsável” que o grupo tem feito desta matéria e fala em campanha de informação falsa.
“Tenho sentido um impacto severo da cobertura das publicações da News Corp relativamente aos fogos, especialmente a campanha de informação falsa que tem tentado desviar a atenção da questão real das alterações climáticas, destacando a questão de fogos postos (muitas vezes deturpando factos)”, escreveu Townsend.
“Considero inconcebível continuar a trabalhar para esta empresa e saber que estou a contribuir para a disseminação de negações e mentiras sobre as alterações climáticas”. O e-mail foi eliminado dos servidores da News Corp uma hora após o seu envio.
“As notícias que vi no The Australian, no The Daily Telegraph e no Herald Sun não são apenas irresponsáveis, são também perigosas e prejudiciais para as nossas comunidades e para o nosso planeta, que precisa que reconheçamos a destruição e sobre a qual precisamos de começar a atuar”, acrescentou.
Mas não são apenas os jornais do grupo de Rupert Murdoch que estão a ser acusados de disseminar “fake news”. A ABC Austrália divulgou uma investigação sobre o aumento de “bots” e contas falsas que estão a espalhar notícias falsas. O objetivo, dizem, passa por tentar apontar o dedo aos ecologistas e desviar o debate do peso das alterações climáticas. Outra das notícias falsas acusa os “média tradicionais” de esconderem dos cidadãos a detenção de 200 pessoas por fogo posto, mentindo ao associar os incêndios às alterações climáticas.