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Imigrantes do Bangladesh denunciam esquema de extorsão em vistos

A concessão de vistos é hegemonizada por uma empresa sediada na Índia. Para obterem a marcação presencial em Nova Deli indispensável para fazer o processo avançar, os migrantes do Bangladesh dizem que estão a ser obrigados a fazer um pagamento “por debaixo da mesa”.

A VFS Global é uma empresa especializada em pedidos de visto. Trabalha em 144 países, tem 3.395 centros e 66 governos contratualizaram os seus serviços. Um deles é o português. Dos 21 países em que o Ministério dos Negócios contratou empresas para tratar destes procedimentos, 18 estão a cargo da VFS Global.

Os cidadãos do Bangladesh são dos que tratam dos seus vistos para Portugal com esta empresa. Mas para isso têm de ir a uma entrevista presencial em Nova Deli, a 1.800 da capital do seu país. Para além da distância, os bengalis queixam-se de que para fazer a marcação desta entrevista veem-se obrigados a pagar um extra, “por debaixo da mesa”, para além da taxa de serviços que é normalmente cobrada.

É Zohorul Moon, investigador no Instituto de Investigação do Medicamento da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa e presidente da Comunidade dos Estudantes do Bangladesh em Portugal, quem conta à Lusa sobre estes pagamentos para comprar uma vaga. Outro membro da comunidade bengali explica sob anonimato que recorreu a este tipo de pagamentos, em 2020, para trazer a sua família para o país: “Não conseguia fazer a marcação através da VFS para Nova Deli, apesar das muitas tentativas. Depois, vi uma publicação no Facebook a oferecer ajuda para conseguir uma marcação. Contactei o autor da publicação e consegui-a num dia. Tive que pagar 120 euros”. Esta pessoa acrescenta que o preço está agora mais elevado e que há “três ou quatro pessoas” a fazer negócio em Portugal com estas marcações, uma delas terá mesmo um gabinete em Lisboa. Outras fontes da mesma comunidade estimam em 700 o número de migrantes obrigados a pagar.

Os processos demoram cada vez mais. Moon diz que, num ano houve mais de 300 estudantes, 500 trabalhadores e 1.000 processos atrasados. Há demoras de mais de um ano.

Também à agência noticiosa nacional, a VFS Global diz que as marcações são feitas online por ordem de chegada, que não há “nenhum pagamento adicional pelo agendamento de marcações” e que os “solicitantes” são informados para que “tomem cuidado com entidades terceiras fraudulentas que cobram taxas de clientes para agendamento de consultas, usando o nome da VFS Global ou de forma independente”. Esclarecem ainda que “as decisões sobre os pedidos de visto, incluindo a disponibilidade de horários e os prazos para processá-los, ficam a critério exclusivo dos respetivos governos clientes e podem variar de uma missão para outra”.

Por seu turno, o Ministério dos Negócios Estrangeiros nega ter conhecimento de pagamentos forçados e justifica que o recurso a empresas serve para assegurar “um serviço mais próximo dos requerentes de visto”. E que se está a ponderar “a abertura de um escritório consular em Daca [a capital do Bangladesh], atendendo às relações bilaterais com o Bangladesh e à comunidade bengali residente” no país.

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