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Iémen: Cinco anos de uma guerra sem fim à vista

A guerra no Iémen fez já mais de cem mil mortos e milhões de pessoas sofrem com fome e doenças. Na quinta-feira, dia do aniversário do conflito, a ONU pediu um cessar-fogo e ambas as partes concordaram. Menos de 24 horas depois, as hostilidades continuaram.
No dia em que passavam cinco anos do início da guerra no Iémen, um homem passeia junto a destroços em Sanaa. Foto de YAHYA ARHAB/EPA/LUSA.
No dia em que passavam cinco anos do início da guerra no Iémen, um homem passeia junto a destroços em Sanaa. Foto de YAHYA ARHAB/EPA/LUSA.

Cumpriram-se esta quinta-feira cinco anos do início do ataque aos rebeldes Houthi por parte da coligação internacional liderada pela Arábia Saudita.

Nos finais de 2014, o grupo Ansar Allah, grupo político-religioso maioritariamente xiita, conhecido como Houthi, conquistou a capital do país mais pobre da zona árabe, Sanaa. A 26 de março de 2015 começaram os bombardeamentos sauditas e dos Emiratos Árabes Unidos, com apoio dos Estados Unidos da América. A Arábia Saudita tentava proteger o presidente Abed Rabbu Mansour al-Hadi, seu aliado, acusado de corrupção pelas forças de oposição.

Cinco anos depois, os ataques e os bloqueios que causaram uma tragédia humanitária, impedindo a entrada no país de comida e medicamentos, não impediram que os rebeldes continuassem a avançar no norte e controlem muitas das principais cidades do Iémen.

Cinco anos de catástrofe humanitária

O balanço humanitário é trágico. Estima-se que 24 milhões de iemenitas sobrevivam apenas devido à ajuda humanitária. 20 milhões de entre eles vive à beira da fome e metade da população não tem acesso a água potável. Doenças como a cólera espalham-se pelo território. E mais de cem mil pessoas terão morrido por causa da guerra.

Já o balanço militar, esse, está longe de ser favorável à coligação liderada pelos sauditas, que investiu muito do seu dinheiro neste conflito. Por um lado tem havido avanços territoriais dos Houthis que, nas últimas semanas, avançaram na província de Jawf, passando a controlar a sua principal cidade, Hazm e também na província de Marib, último bastião a norte do governo oficial do país. Por outro lado, os Houthis chegam mesmo a desafiar a Arábia Saudita no seu próprio território através de vários ataques com drones. Os Houthis são apoiados pelo Irão. Daí que os sauditas responsabilizem este país pelos ataques, sendo um foco de disputa com os Estados Unidos, adicional ao Iraque.

Acresce a isto que, recentemente, sauditas e Emiratos Árabes Unidos se desentenderam, levando à retirada, em finais de 2019, das forças dos EAU. Os seus aliados, o Conselho Transitório do Sul, chegaram até a atacar os apoiantes do presidente deposto na cidade de Aden, o grande refúgio das forças apoiadas pelos sauditas. Mais tarde, negociaram tréguas. Mas a confiança entre as partes terá ficado abalada. Entre aquele que se reclama o governante legítimo do Iémen e aqueles que reivindicam a secessão do sul, a aliança parece ser mais negativa do que estável.

A ameaça do Covid-19

Dada a situação sanitária debilitada no país, os receios dos efeitos do surto de covid-19 são muitos. Com cerca de metade dos hospitais e centros de saúde destruídos, falta de material e medicamentos e populações deslocadas e concentradas, a entrada do novo coronavírus na zona de guerra aumentaria a tragédia humanitária que já se vive. O país ainda não se livrou do surto de cólera que o atingiu no decorrer da guerra.

Tréguas?

A efeméride desta quinta-feira juntou-se a esta ameaça do novo coronavírus como pretexto para as Nações Unidas apelarem a um cessar-fogo imediato. António Guterres instou ambas as partes a recomeçar as conservações que tinham chegado a um impasse em dezembro de 2018.

O governo oficial do Iémen e a coligação militar saudita, assim como o movimento Houthi, concordaram com o apelo. Os rebeldes anunciaram ainda que pretendem uma troca de prisioneiros. E começaram por anunciar a libertação dos seis crentes Baha’i que estavam presos em Sanaa e o fim das acusações a cerca de vinte pessoas deste grupo religioso.

Mas esta sexta-feira não foi tão pacífica quanto as declarações de vontade de pacificar o país poderiam dar a entender. Coligação saudita e Houthis trocaram acusações sobre ataques. Os sauditas dizem que destruíram drones inimigos que se dirigiam a “alvos civis” no interior do seu território. Os Houthi respondem que as suas forças anti-aéreas intercetaram aviões da coligação internacional em Marib.

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