O "inferno não é uma coisa do passado", declarou o presidente de Hiroshima, Kazumi Matsui, na declaração de paz proferida durante a cerimónia que assinalou o bombardeamento atómico da cidade japonesa, pelos EUA, às 8h15 (hora local) do dia 6 de agosto de 1945.
"Enquanto as armas nucleares existirem e os políticos ameaçarem usá-las, o horror que causam pode saltar para o nosso presente a qualquer momento", alertou com gravidade, numa referência aos testes de mísseis norte-coreanos.
No Parque da Paz, construído na zona sobre a qual a bomba explodiu, e onde decorre, todos os anos, uma cerimónia em memória das vítimas e em defesa da paz mundial, Kazumi Matsui lembrou que, hoje, um único engenho pode causar ainda mais danos do que as bombas lançadas há 72 anos.
A 9 de agosto de 1945, repetiu-se o impensável: três dias depois da bomba contra Hiroshima, que causou 140 mil mortos, os Estados Unidos lançaram uma segunda bomba atómica sobre Nagasaki (sudoeste), levando à capitulação do Japão e ao fim da Segunda Guerra Mundial. Causou mais de 70 mil mortos, embora os efeitos nefastos das radiações tenham perdurado nos corpos dos sobreviventes das duas localidades e por várias gerações.
A idade média dos sobreviventes, conhecidos como "hibakusha", é superior a 81 anos. Muitos sofrem de doenças crónicas causadas pela radiação. Das 650 mil pessoas reconhecidas pelo Governo japonês como sobreviventes dos bombardeamentos atómicos de Hiroshima e Nagasaki, mais de 300 mil já morreram, incluindo 5.530 no ano passado.
"A humanidade não pode voltar a cometer tal ato", sublinhou o presidente de Hiroshima, pedindo às potências nucleares [Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França, Israel, China, Índia, Paquistão e Coreia do Norte], e também ao Japão, para assinarem o primeiro tratado das Nações Unidas que proíbe as armas nucleares, aprovado em julho.
A adoção por mais de 120 países, na ONU, do primeiro tratado que proíbe armas nucleares, contrastou com a oposição das nove potências nucleares e da maioria dos países da NATO.
"O nosso sonho de um mundo livre de armas nucleares continua longe de ser uma realidade"
A frase é do secretário-geral da ONU, António Guterres, que assim alerta para a existência de cerca de 15 mil armas nucleares no mundo, referindo também a "perigosa retórica sobre a sua utilização".
"Os Estados que possuem armas nucleares têm uma responsabilidade especial e devem assumir passos concretos e irreversíveis para o desarmamento nuclear", exortou António Guterres, numa mensagem lida na cerimónia pela sub-secretária geral da ONU e Alta representante para o desarmamento, a japonesa Izumi Nakamitsu.
Na sua mensagem, António Guterres lembrou ainda que os sobreviventes das bombas atómicas do Japão "enviam uma mensagem heroica ao mundo" e são a memória dos "devastadores efeitos destas armas".
Neste mesmo domingo, a Coreia do Norte ameaçou responder com um "mar de fogo" a qualquer ação militar ou sanções dos EUA, após a adoção, pela ONU, de novas medidas de pressão contra o regime de Pyongyang, aprovadas no dia anterior.
Os recentes testes de dois mísseis balísticos intercontinentais realizados pela Coreia do Norte, em julho, poderão ter deixado grandes cidades norte-americanas, como Los Angeles e Chicago, ao alcance das armas do ditador Kim Jong-un.
Estes mísseis, um dos quais caiu no Mar do Japão, podem ser armados com ogivas nucleares. Contudo, muitos especialistas internacionais afirmam que Pyongyang ainda não consegue dominar a miniaturização de ogivas nucleares, nem a tecnologia para garantir a reentrada dos mísseis na atmosfera ou até atingir um alvo predefinido. Uma vez que do outro lado se encontra Donald Trump, esta situação segue envolta numa sombra que faz lembrar os tempos angustiantes da Guerra Fria.