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Há um enorme potencial progressista nas revoltas do mundo árabe

Na terceira parte da entrevista de Gilbert Achcar à Marxist Left Review centramo-nos atualidade: a direção política da revolução sudanesa, a ultrapassagem de divisões sectárias no Iraque e Líbano, o papel das mulheres e questão organizativas. “As revoluções sobreviventes no Médio Oriente e Norte de África (parte três)”.
A ativista sudanesa Alaa Salah numa manifestação. Abril de 2019.
A ativista sudanesa Alaa Salah numa manifestação. Abril de 2019. Foto de Lana H. Haroun/Wikipedia

Regressemos ao presente: o levantamento argelino e a revolução sudanesa reacendeu a esperança, tal como os protestos corajosos nas ruas do Egito e as assembleias libanesas na praça Riad al-Solh apelando para o povo derrubar o atual regime. Sob o risco de perguntar algo impossível em que medida as pessoas comuns da região tiraram ensinamentos políticos da anterior onda de luta? Que tipo de dinâmica de massa estava envolvido aí? Como é que os oprimidos e explorados aprenderam através da experiência da luta de massas? Aprenderam algo?

 

Definitivamente aprenderam. Os processos revolucionários prolongados são cumulativos em termos de experiência e saber-fazer. São curvas de aprendizagem. Os povos aprendem, os movimentos de massa aprendem, os revolucionários aprendem e os reaccionários também, claro, todos aprendem.

Um processo revolucionário de longo prazo é uma sucessão de ondas de levantamentos e de reveses contra-revolucionários – mas não são meras repetições de padrões similares. O processo não é circular, tem de avançar ou então degenera.

As pessoas entendem as lições das experiências anteriores e fazem o seu melhor para não repetir os mesmos erros ou cair nas mesmas armadilhas. Isto foi muito claro no caso do Sudão mas também na Argélia e agora no Iraque e no Líbano também. O Sudão e a Argélia, a par com o Egito, são os três países da região nos quais as forças armadas constituem a instituição central da direção política. Claro, os aparelhos armados são a espinha dorsal dos Estados em geral mas é o governo militar direto que é peculiar a estes três países na região árabe.

Os seus regimes não são patrimoniais. Nenhuma família é proprietária do Estado ao ponto de fazer o que quer com ele. Ao invés, o Estado é dominado colegialmente pelo comando das forças armadas.

Estes são regimes “neo-patrimoniais”: isto quer dizer que são caracterizados pelo nepotismo, amiguismo e corrupção mas nenhuma família particular detém pleno controlo do Estado, o qual permanece institucionalmente separado das pessoas dos governantes. Isso explica porque é que nestes três países os militares acabaram por se livrar do presidente e do seu séquito de forma a salvaguardar o regime militar. Foi o que aconteceu no Egito em 2011 com o afastamento de Mubarak e este ano na Argélia com o fim da presidência de Bouteflika, seguido do derrube de Bashir no Sudão, todas as três levadas a cabo pelos militares. Contudo, quando aconteceu no Egito, houve enormes ilusões populares com os militares, que foram renovadas em 2013 quando estes depuseram o presidente Morsi da Irmandade Muçulmana.

Estas ilusões não foram reiteradas no Sudão ou na Argélia em 2019. Pelo contrário, o movimento popular nestes dois países tem estado consciente com acuidade de que os militares constituem o pilar central do regime de que eles se querem livrar. O movimento em ambos os países compreende muito bem que quando se canta “o povo quer derrubar o regime” isso quer dizer o governo militar como um todo – não apenas a ponta presidencial do icebergue. Percebem isto com muita clareza tanto na Argélia como no Sudão, ao contrário do que aconteceu no Egito anteriormente.

Mas no Sudão há mais do que essa diferença. Há uma liderança que incorpora a consciência das lições tiradas de todas as experiências regionais prévias. Isto deve-se principalmente à fundação da Associação dos Profissionais Sudaneses (APS) que começou em 2016 com professores, jornalistas, doutoras e outros profissionais organizando-se como uma rede subterrânea.

Quando o levantamento começou em dezembro de 2018, a associação tornou-se numa rede muito maior envolvendo sindicatos de todos os setores-chave da classe trabalhadora. Tem jogado um papel central nos acontecimentos do lado do movimento popular. A APS foi também decisiva na constituição de uma ampla coligação política envolvendo vários partidos e grupos. Estão presentemente envolvidos num braço de ferro com os militares. Acordaram temporariamente num compromisso que institui o que pode ser descrito como uma situação de dualidade de poderes. O país é governo por um conselho no qual a liderança do movimento popular está representada a par com o comando militar. Este é um período de transição intranquilo que não pode durar muito tempo. Mais tarde ou mais cedo, um dos dois poderes levar a melhor sobre o outro.

Mas o ponto-chave aqui é que a experiência sudanesa representa um passo em frente massivo comparado com tudo o que vimos desde 2011 e isto graças à existência de uma liderança politicamente astuta. A APS não alimenta quaisquer ilusões sobre os militares. São tão radicalmente opostos ao governo militar como são ao fundamentalismo islâmico, particularmente uma vez que ambos estavam representados no regime de Omar al-Bashir. Defendem um programa muito progressista, incluindo uma notável dimensão feminista. Esta é uma experiência muito importante que é observada muito de perto em toda a região.

O movimento popular na Argélia é espantoso por ter conseguido fazer manifestações massivas todas as semanas durante vários meses. Mas não tem uma liderança reconhecida e legítima. Ninguém pode alegar falar em seu nome. Esta é uma fraqueza óbvia, em contraste agudo com o Sudão.

As formas de liderança mudam naturalmente ao longo do tempo mas não entrámos num idade pós-moderna de “revoluções sem líderes” como alguns nos querem fazer crer. A ausência de liderança é um impedimento crucial: uma liderança reconhecida é crucial de forma a canalizar a força do movimento de massas para um objetivo político. Isto eles têm no Sudão, não têm na Argélia e ainda não têm no Iraque e no Líbano.

Tanto no Iraque quando no Líbano, contudo, o povo, inspirado pelo exemplo sudanês estão a tentar montar algo como a PSA. Há começos nesta direção, envolvendo professores universitários junto com vários outros profissionais. No Líbano, criaram a Associação de Homens e Mulheres Profissionais, claramente inspirada pelo modelo sudanês. Isto mostra claramente como funciona a aprendizagem a partir da experiência num nível regional.

 

Podes elaborar mais um pouco sobre os aspetos mais significativos dos movimentos de massas no Iraque e no Líbano?

 

Ambos os movimentos partilham uma particularidade notável uma vez que Iraque e Líbano são caracterizados por um sistema político sectário.

No Líbano, este foi institucionalizado pelo colonialismo francês depois da Primeira Guerra Mundial de uma forma próxima ao sistema político atual. No Iraque, foi estabelecido pela ocupação dos EUA, muito mais recentemente.

Tais regimes políticos sectários reforçam as divisões sectárias, naturalmente. Neste contexto, as divisões sectárias religiosas tornam-se uma característica definidora da vida política e do governo. O sectarismo é uma ferramenta muito perniciosa e eficaz para fazer derivar a luta de classes para o conflito religioso. É uma velha receita, uma versão do “dividir para reinar”: impedir qualquer solidariedade de classe horizontal tornando-a num choque vertical entre seitas.

As lideranças nepotistas sectário-burguesas mantêm a fidelidade de membros das classes populares que pertencem às suas comunidades sectárias alimentando divisões e rivalidades sectárias.

Tanto no Iraque como no Líbano, a acumulação de queixas sociais que resultam de uma forma muito selvagem de capitalismo que esmaga as pessoas comuns e deteriora o seu nível de vida criou um enorme ressentimento. A explosão social foi despoletada por um medida política no Iraque – a demissão de uma figura militar popular – e económica no Líbano – o projeto de um imposto sobre as comunicações de voz através da internet. Estas medidas provocaram uma formidável explosão de ira popular.

No Líbano, para surpresa de todos, a explosão cobriu o país inteiro e envolveu as camadas populares de todas as seitas. No Iraque, esteve em grande medida confinada à maioria árabe xiita mas é igualmente significativa uma vez que a clique dominante é ela própria xiita. O movimento em ambos os países repudiou assim fortemente o sectarismo em favor de um sentimento renovado de pertença nacional-popular.

No Líbano, o sectarismo estava tão entrincheirado historicamente que parecia uma barreira muito difícil de quebrar. Foi por isso muito espantoso ver pessoas que pertenciam a todas as comunidades religiosas participarem num levantamento cujo lema se tornou o equivalente em árabe do espanhol “que se vayan todos!” (Que se vão todos embora!), que foi um lema-chave da revolta popular dezembro de 2001 na Argentina. A versão libanesa diz “todos quer dizer todos” - uma maneira de insistir no repúdio de todos os membros da classe dominante, sem exceções. “Nós contra eles” derivou de um “seita contra seita” para uma revolta do povo de baixo contra todos os membros da classe dominante em cima, seja qual for a seita religioso-política a que pertençam, sejam xiitas, sunitas, cristãos ou druzos.

O Hezbollah não foi poupado – e isto é ainda mais impactante uma vez que uma espécie de tabu relativamente ao partido, e particularmente ao seu líder, tinha sido vivido até então. Foi espantoso ver que o povo ia para as ruas em regiões sob o controlo do Hezbollah apesar da tomada de posição claramente contrária ao movimento popular do partido. Desde então, houve tentativas sucessivas de intimidar o movimento popular com rufias que pertencem ao Hezbollah e ao seu aliado próximo Amal, os dois grupos sectários xiitas.

No Iraque, partidos e milícias ligadas ao regime iraniano envolveram-se na repressão da revolta popular numa escala muito maior, causando muitas mortes. Isto porque a tutela de Teerão sobre o governo do Iraque foi um alvo maior da revolta popular.

A recente explosão de ira dentro do próprio Irão foi também recebida com repressão brutal. O regime teocrático iraniano confirmou assim que é uma das principais forças reacionárias na região a par com o seu rival regional, o reino saudita. Isto já tinha ficado claro através da sua repressão brutal do movimento popular democrático dentro do Irão em 2009, da sua contribuição massiva para o ímpeto contra-revolucionário do regime sírio a partir de 2013 e da sua repressão com mão pesada dos protestos sociais que surgiram novamente no Irão no final de 2017 e no início de 2018.

O papel das mulheres na segunda onda do processo revolucionário na região árabe é outra característica muito importante e uma indicação adicional da maturidade alcançada pelos movimentos populares. No Sudão, Argélia e Líbano, as mulheres têm participado massivamente e de forma muito visível nas manifestações e comícios de massa e também dirigindo-as. Nos três países, as feministas têm sido uma componente crucial dos grupos envolvidos nos levantamentos. Até mesmo no Iraque, onde as mulheres eram dificilmente visíveis no estádio inicial dos protestos, estão a envolver-se cada vez mais, especialmente desde que os estudantes se juntaram à mobilização.

A grande questão agora é: irão os movimentos populares na Argélia, Iraque e Líbano ser bem sucedidos em encontrar forma de se organizar, como os seus irmãos e irmãs o fizeram, de forma a amplificar o impacto das suas lutas e conseguir dar passos em frente importantes para alcançar os seus objetivos ou irá a classe dominante conseguir reprimir cada um destes três levantamentos e desarmá-los?

Sem ser otimista dada a natureza muito viciosa dos regimes que governam esta parte do mundo, tem muita esperança. A minha, esperança, contudo, é baseada no conhecimento da existência de um enorme potencial progressista, apesar de estar perfeitamente consciente de que para, concretizá-lo, muita luta, organização e argúcia política são precisas.

 

Gilbert Achcar é professor de Estudos do Desenvolvimento e Relações Internacionais no SOAS da Universidade de Londres. É autor de vários livros sobre o Médio Oriente, incluindo The People Want: A Radical Exploration of the Arab Uprising e Morbid Symptoms: Relapse in the Arab Uprising. Esta entrevista, publicada originalmente na Marxist Left Review, foi conduzida por Darren Roso. A tradução é de Carlos Carujo.

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