Há um amplo movimento contra-revolucionário a emergir no Egito

10 de dezembro 2011 - 12:23

Na segunda parte desta entrevista ao Esquerda.net, Adam Hanieh, professor da Universidade de Londres, alerta para o papel do Exército e da Irmandade Muçulmana na ofensiva contra a revolução, e discute o papel do novo governo no conflito israelo-palestiniano. Entrevista conduzida por Adriano Campos.

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Polícia na Praça Tahrir. Foto de ellozy.

Existe um perigo de repressão militar e contra-revolução face a estas mobilizações populares?

Com certeza as últimas semanas mostraram o perigo do crescimento da repressão militar. Precisamos perceber que no período imediato à queda de Mubarak houve uma decomposição parcial da força repressiva do Estado. A força policial, muito odiada, praticamente desapareceu das ruas (a polícia foi responsável por muita da tortura no Egito e um ponto de viragem fundamental na batalha contra Mubarak foi o ataque e incêndio de estações policiais). Desde aquele tempo houve uma reconstrução deste aparato repressivo. Vimos as prisões de milhares de pessoas pelo Exército, a morte de 26 cristãos coptas em outubro, o uso das forças armadas contra grevistas, e claro, os ataques mortais contra as pessoas na Praça Tahrir e em outros locais nos últimos meses.

Isto precisa ser visto como parte de um amplo movimento contra-revolucionário que está a emergir no Egito assim como em toda a região.

É claro que muito disto é orquestrado em Washington e nas capitais europeias, mas um facto menos notado é o papel central dos Estados Árabes do Golfo. Vimos isso na invasão da Líbia pela NATO, com o Qatar e os Emirados Árabes Unidos a mandar tropas, dinheiro, equipamento e – talvez o mais importante – providenciando a legitimidade política para o ataque. Há muitos outros exemplos: os biliões de dólares que foram prometidos pelos Estados do Golfo aos regimes do Egito e Tunísia; a intervenção militar no Bahrein; a oferta feita à Jordânia e a Marrocos para se juntarem ao Gulf Cooperation Council1(assim reunindo todas as monarquias reacionárias da região num só bloco); e a centralidade política dos Estados Árabes do Golfo na tentativa de mediar e orientar as revoltas na Síria e no Iémene. E, talvez mais significativamente, as ameaças crescentes que estão a ser feitas contra o Irão.

No caso do Egito, as forças armadas são obviamente o elemento institucional central da contra-revolução. Mas eu penso que a liderança da IM também precisa ser vista como parte da tentativa de fazer recuar a luta popular. É claro que a os EUA veem a IM como um potencial aliado no novo quadro político egípcio, e tem havido extensos contactos entre a liderança da Irmandade Muçulmana e o governo norte-americano (mediados pela Turquia e os Estados do Golfo).

A IM foi a força central de desmobilização da forte onda grevista em Setembro. Saíram em ataque à greve dos professores e minaram os esforços da organização independente destes profissionais que estava a tentar levar a greve avante. A impressionante greve dos médicos – que estava a levantar a exigência radical da melhoria no acesso à saúde pública e não apenas os estreitos interesses dos profissionais médicos – terminou em grande parte devido à intervenção da IM. A IM também se mostrou contra as mobilizações de rua em novembro, e há relatos de candidatos da IM sendo expulsos da praça Tahir por conta da sua atitude em relação às manifestações.

Por isso eu digo, penso que precisamos ser cuidadosos em não ver a IM como uma força homogénea – a participação da cisão da juventude da IM, que resultou num novo partido (Egyptian Current), no bloco eleitoral Revolution Continuesé um desenvolvimento significativo e positivo. Mas, no geral, parece haver o surgimento de uma aliança (instável) entre a IM e o Exército, que está a tentar travar o movimento popular. No médio prazo, contudo, eu penso que isto é positivo, na medida em que contribuirá para deslegitimar a IM aos olhos da população em geral.

Escreveu, em junho, que a pressa do FMI, Banco Mundial e Estados do Golfo Árabe em impor reformas estruturais no Egito em troca de ajuda financeira é baseada na armadilha da dívida (aumento da dívida externa) e na implementação das Parcerias-Público-Privadas (PPPs), uma receita já aplicada na era de Mubarak. Quem pode beneficiar com esta política no Egito e que tipo de resistência popular se pode esperar à implementação destas medidas?

Em junho houve um importante debate sobre os empréstimos do FMI e do Banco Mundial. Na altura, o Banco Mundial e o FMI anunciaram um acordo para conceder ao Egito novos empréstimos, totalizando 6 mil milhões de dólares, valor que o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, explicitamente vinculou às “reformas governamentais” e ao financiamento das PPPs, um eufemismo moderno para privatização. Seguiu-se um debate público em torno das possíveis condições destes empréstimos (que o governo interino do Egito se recusou a revelar). No contexto deste debate, e sobre a pressão dos ativistas egípcios, o Ministro das Finanças anunciou no dia 24 de junho que – por enquanto – a assistência do Banco Mundial e do FMI não era necessária. Contudo, a decisão de rejeitar temporariamente os empréstimo teve lugar depois de o governo egípcio (a conselho do FMI) rever o orçamento de Estado e cortar as despesas em cerca 4,6 mil milhões. A título indicativo, o Ministro das Finanças não revelou a totalidade dos cortes públicos, apenas anunciou que eles incluem uma redução de 50% nos gastos com a ajuda aos desempregados e uma redução nos subsídios às energias.

Agora, em Dezembro, continua a haver uma forte pressão para o Egito aceitar esses empréstimos e outras formas de ajuda financeira. O governo anunciou, em meados de Novembro, que estava mais uma vez a encetar negociações com o FMI para um empréstimo de 3 mil milhões de dólares. O resultado é ainda incerto mas não ficarei surpreso se houver uma decisão para aceitar a verba do FMI apesar da raiva popular em relação às instituições financeiras internacionais.

Apesar do fluxo dos acontecimentos, é claro que não houve qualquer recuo dos conceitos básicos do neoliberalismo – o endividamento total deverá aumentar à medida que o Egito contraia empréstimos de outras fontes tais como os Estados do Golfo, credores bilaterais e bancos locais. Se isto se concretizar aqueles que se vão beneficiar – como em qualquer caso com o neoliberalismo – serão as elites privadas e estatais, assim como os investidores estrangeiros.

Um desenvolvimento muito positivo, no entanto, foi o lançamento de uma campanha popular contra a dívida externa. É uma campanha conjunta com ativistas da Tunísia e a sua proposta central é realizar uma “auditoria da dívida”, que possa descortinar a origem da dívida contraída no tempo de Mubarak, quem beneficiou com ela e quais os valores que se podem classificar de “dívida odiosa”. O lançamento desta campanha teve um impacto real no país, tanto que o Ministro das Finanças e outro porta-voz do governo têm sido forçados a responder à iniciativa na imprensa. Todavia, a campanha foi lançada imediatamente antes das manifestações de novembro e das eleições – portanto imagino que os ativistas estão agora a considerar como levar adiante essa luta neste novo contexto.

Na perspetiva da política regional, que tipo de mudanças a revolução egípcia pode impor no conflito israelo-palestiniano?

Para a luta dos palestinianos penso que a revolução egípcia é, potencialmente, o processo mais importante que aconteceu em qualquer altura das últimas duas décadas. O Egito é estrategicamente fundamental para a questão palestiniana. Isto é claramente percebido pelo imperialismo – testemunhada a absoluta prioridade estabelecida pelos EUA e Israel na normalização das relações com o Egito desde o tempo de Sadat até ao período de Mubarak. Penso que um governo revolucionário no Egito que recuse estabelecer relações políticas e económicas com Israel, que abra as fronteiras com Gaza, e suporte a luta dos palestinos de forma significativa, representaria uma rápida e qualitativa mudança na relação de forças da região.

Estamos obviamente muito longe de ver esse cenário realizar-se nas circunstâncias atuais. Mas, como apontei acima, a natureza autocrática e repressiva do Estado egípcio não pode ser separada das suas ligações com o imperialismo regional (visto principalmente no seu apoio ao Estado de Israel). Qualquer desafio a esta natureza autocrática significa confrontar as ligações com o poder norte-americano. Há uma dialética entre estes dois lados do Estado egípcio – e isto significa que a solidariedade com a luta dos palestinianos não é uma opção extra da revolução, mas uma questão central para o seu avanço.

Adam Hanieh é professor da Universidade de Londres, ativista da causa palestiniana e autor do livro Capitalism and Class in the Gulf Arab States.

Leia a primeira parte desta entrevista: Egito: combate para desalojar os militares continua a ser eixo fundamental

1 Omã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Bahrein, Kuwait.