O primeiro-ministro da Grécia transferiu o seu principal rival interno no partido de ministro da Defesa para as Finanças e enviou o das Finanças para o Ambiente como forma de manter a escassa maioria parlamentar de que dispõe à partida para o debate de um novo e trágico pacote de austeridade caracterizado por mais subidas de impostos e um drástico plano de privatizações considerado catastrófico para o país.
Em Berlim, Angela Merkel e Nicolas Sarkozy tentaram dar um sinal de acordo para o novo resgate a Atenas convergindo na fórmula de participação dos credores privados a “título voluntário”.
Numa conferência de imprensa realizada em Berlim, Merkel e Sarkozy divulgaram um compromisso que alegadamente poderá abrir o caminho para a concretização de um segundo plano de resgate à Grécia da ordem dos 100 mil milhões de euros. Ambos os dirigentes consideram que a participação dos credores privados – essencialmente bancos e gestoras de fundos de investimento – nas medidas que venham a ser adoptadas, incluindo a extensão de prazos de amortização, se deve processar a título meramente “voluntário”.
“Não há base legal para tornar essa participação obrigatória”, disse a chefe do governo alemão para inflectir a posição que a Alemanha assumira na última e fracassada reunião dos ministros das Finanças da Zona Euro. A participação “voluntária” do sector privado vai parcialmente ao encontro das posições defendidas pela França e o Banco Central Europeu. Em defesa da sua alteração de posição, Merkel estabeleceu o paralelismo com a “Iniciativa de Viena” de 2009, através da qual instituições privadas participaram por iniciativa própria nos planos de resgate de países do Leste europeu para tentar conter as repercussões dos efeitos da crise.
Em Atenas, onde a movimentação social continua intensa e nas ruas contra as novas medidas de austeridade que o Parlamento vai debater – cuja aprovação é considerada imprescindível pela troika estrangeira – a remodelação governamental teve como objectivo fundamental tentar recompor a coesão do grupo parlamentar socialista.
O “bode expiatório” escolhido como responsável pela situação que o país atravessa foi o ministro das Finanças, Georges Papaconstantinou, transferido para a pasta do ambiente e substituído pelo ministro da Defesa, Evangelos Vezinélos. Este é o principal rival de Papandreu no PASOK, o Partido Socialista Pan-Helénico, e já disputou a liderança com Papandreu. Vezinélos passa também a ser vice-primeiro-ministro. Outros ministros considerados próximos do actual chefe do governo, como o da Saúde e o do Trabalho, também foram afastados.
O argumento para o afastamento de Papaconstantinou foi atribuído à contestação de que estava a ser alvo nas bases socialistas e no grupo parlamentar, onde a maioria do PASOK está reduzida a cinco deputados depois das últimas deserções.
A oposição de direita, fazendo cálculos eleitorais a prazo, rejeitou a proposta de governo de “unidade nacional” e tudo leva a crer que no Parlamento evite comprometer-se directamente com as novas medidas de austeridade – que na prática defende e apoia - deixando funcionar a maioria absoluta do PASOK.
O plano que o Parlamento vai discutir, vigorosamente contestado nas ruas e praças do país, prevê novas receitas públicas da ordem dos 28 mil milhões de euros até 2015 essencialmente através de mais aumentos de impostos e uma vaga de privatizações que irá afectar gravemente o tecido económico grego e suscitar novas penalizações à população.
A Comissão Europeia, o FMI e o BCE consideram que estas medidas são imprescindíveis para a atribuição de um novo resgate de 100 mil milhões de euros e acusam Papandreu de ter “hesitado” na sua aplicação o que, segundo a tese que defendem, está na origem do fracasso total do primeiro resgate – num ano a dívida soberana grega subiu de 115 para 143 por cento do PIB.
Publicado no site do Parlamento Europeu do Bloco de Esquerda