Faleceu na noite desta terça-feira em Los Angeles, nos Estados Unidos, o escritor e ensaísta Gore Vidal, aos 86 anos, de complicações decorrentes de uma pneumonia.
Considerado um dos mais importantes escritores americanos do século XX, é o autor de 25 romances, dois livros de memórias e vários volumes de ensaios. Escreveu também peças de teatro, guiões de televisão e de cinema, chegando mesmo a ser contratado pela famosa produtora MGM de Hollywood.
Eugene Luther Gore Vidal nasceu no dia 3 de outubro de 1925 num hospital militar em West Point, no estado de Nova York. Era filho de um tenente da aeronáutica e de uma atriz da Broadway, e neto de um senador democrata de Oklahoma. O avô teve uma forte influência sobre a sua visão do mundo, sempre pautada por uma acérrima crítica ao intervencionismo americano.
Os seus romances sobre a história dos Estados – “Washington, D.C.,” “Burr” (1973), “1876” (1976), “Lincoln” (1984), “Hollywood” (1990) e “The Golden Age” (2000), tiveram um enorme sucesso. A combinação do relato rigoroso dos factos com uma escrita atraente e contemporânea levaram o Prémio Nobel Gabriel Garcia Márquez a dizer que não sabia se se tratava de romances históricos ou de história romanceada. Outros romances históricos foram “Criação” (1981) ou “Juliano” (1964), sobre o imperador romano que tentou regressar do cristianismo ao paganismo, considerado por muitos o seu melhor romance.
Para além das obras históricas, Vidal escreveu romances satíricos, como “Myra Breckenridge” (1968). Obras iconoclastas como “Live From Golgotha,” (1992), uma revisão dos Evangelhos, são abertamente provocadoras, de tal forma que um crítico ironizou: “Se Deus existe e Jesus é o seu filho, então Gore Vidal vai para o inferno.”
Entre os seus guiões de cinema mais famosos estão os dos filmes “Ben-Hur”, “Calígula”, ou “Paris já está a arder?”
Como ator, participou em filmes como “Roma”, de Fellini, ou “Gattaca”, de Andrew Niccol.
Os seus ensaios valeram-lhe o National Book Award em 1993.
Um dos primeiros romances com um personagem abertamente gay
A carreira literária do Vidal correu um sério risco quando publicou o seu terceiro romance, “A Cidade e o Pilar”, uma das primeiras obras a apresentar personagens abertamente gays. A obra suscitou protestos num país onde a sodomia era ilegal, e provocou um boicote ao escritor por parte de jornais como o The New York Times.
Em 1950, Vidal conheceu Howard Austen, seu parceiro por toda a vida, com quem morou muitos anos em Ravello, Itália.
Por duas vezes tentou a carreira política, candidatando-se ao Congresso em 1960 pelo partido Democrata, e ao senado em 1982, mas foi derrotado em ambas, apesar de obter honrosos resultados.
Opositor violento da administração Bush, considerava que este tinha roubado a eleição e que a “Junta Bush” usou os ataques do 11 de setembro como pretexto para pôr em prática planos já existentes de invadir o Afeganistão, acusando o regime de “altos crimes contra a Constituição dos Estados Unidos”.
Frases
“A inveja é um facto central da vida americana”.
“Cinquenta por cento das pessoas não votam, e cinquenta por cento não leem jornais. Espero que sejam as mesmas cinquenta por cento.”
“Quanto mais dinheiro acumula um americano, menos interessante se torna.”
“Devíamos parar com o palavreado de que somos a maior democracia do mundo, quando nem sequer somos uma democracia. Somos uma espécie de república militarizada.”
“Nunca perco uma possibilidade de fazer sexo e de aparecer na TV.”
(Traduzidas do The Guardian)