Está aqui

Geovani Martins: “Um mosaico possível do Rio de Janeiro”

O esquerda.net entrevistou Geovani Martins, autor carioca, a propósito do seu livro de contos “O sol na cabeça”, recentemente publicado em Portugal. Por Ana Bárbara Pedrosa.
Fotografia: página de Facebook do autor
Fotografia: página de Facebook do autor

Ana Bárbara Pedrosa: Um dos aspectos mais relevados do teu livro, ao chegar a Portugal, foi a linguagem. O livro [edição da Companhia das Letras] até veio com um glossário. Nota-se, ao lê-lo, que não há nenhuma tentativa de nivelar a escrita, castrando a linguagem. Qual é o papel ou a imagem do leitor aquando da escrita?

Geovani Martins: Do leitor brasileiro?

ABP: Do leitor lusófono, vá.

GM: Do leitor lusófono ainda não tive muito retorno. Mas no Brasil senti que a linguagem provocou um interesse em dois grupos muito distintos. Um era o que se identificava com aquela linguagem, porque era a que estava acostumado a usar no dia a dia. E aquele livro pode ter soado de forma impressionante. Acho que teve esse grupo muito forte que foi conquistado com ai dentificação, com aquelas palavras. Ao mesmo tempo, teve uma repercussão muito grande noutro grupo, que é um grupo que estranha essa linguagem, que vive distante de uma linguagem urbana, e que acabou se interessando mais pelo estranhamento que isso causava.

Acho interessante essa coisa de, no mesmo texto, a mesma tentativa de pequisa com a linguagem tenha surtido interesses tão diferentes e em grupos opostos também.

ABP: Li numa reportagem de Isabel Lucas que escreveste a tempo inteiro. Tinhas um plano inicial com os 13 contos delineados?

GM: Não. Quando comecei a escrever o livro tinha dois contos prontos, mas não tinha ideia de que faria um livro de contos. Na época, estava tentando fazer um romance. Alguém tinha me dito que conto não vendia e que eu teria um problema para publicar um livro de contos e eu decidi fazer um romance porque estava precisando vender. Não só vender, mas ter uma profissão. E achava que escrever esse livro era a minha chance de entrar no mercado de trabalho enquanto escritor. Comecei a tentar fazer esse romance, mas era um escritor muito jovem, tinha 24 anos, nunca tinha escrito uma narrativa longa. Estava tendo muitas dificuldades.

Acabou acontecendo um concurso de mini-histórias numa biblioteca do Rio, de mini-histórias de suspense. Escrevi “O primeiro dia”, um dos contos do livro, mas, na época, em 40 linhas, o limite do concurso. Acabei ganhando e gostei bastante do recurso que tinha encontrado para trabalhar o suspense na história.

No final do ano, abriram de novo o concurso com o nome de “Mini-histórias de Verão”. Escrevi o que seria o “Rolezinho” em 40 linhas. Mas, ao contrário de “O primeiro dia”, não gostei do resultado e acabei nem enviando para o concurso. Guardei e continuei a escrever o romance.

Teve um dia que o meu irmão chegou em casa e me contou um monte de histórias da praia, porque ele estava há dois anos já trabalhando em Ipanema. E me contou montes de coisas que viu nesse tempo, como era a dinâmica daquela vida, de praia, de tudo. Quando ele foi embora, voltei a trabalhar no “Rolezinho” e fiquei alguns meses escrevendo eles, todos os dias. Entrei num processo muito intenso com esse conto, passei uns quatro, cinco meses escrevendo ele.

Quando terminei, tinha entendido que eu devia fazer um livro de contos, e entendi como queria fazer ele. Foi a partir daí que comecei a trabalahr em cima da ideia de fazer um livro de contos.

Não queria só reunir uma série de contos, queria criar um universo, que um conto ajudasse o outro dentro de um contexto de livro. Foi assim que comecei a pensar nos temas que estariam no livro, que pudessem se amarrar de alguma forma. A partir disso, comecei a decidir os temas de que queria falar.

ABP: E depois estiveste quanto tempo no total?

GM: Depois escrevi durante um ano inteiro, 2016. Era a única coisa que fazia na vida. Tinha parado de trabalhar. Tinha perdido o emprego um pouco antes e voltei a morar com a minha mãe para poder fazer esse livro. Num esquema bem disciplinado, seis, oito horas por dia. No final do ano, interrompi o trabalho para poder trabalhar na praia junto com o meu irmão, até ao começo de 2017. Em março fui convidado para participar da FLIP mais uma vez e foi aí que saí de novo da praia, voltei para o livro, porque tinha a ideia de levar o livro pronto para a FLIP e poder apresentar para os editores. No fim das contas, foi um ano e cinco, seis meses de trabalho.

ABP: Não entendi vários dos termos, mesmo com o glossário ao lado. Mas, ao ler o livro, não senti qualquer clivagem, deduzi as coisas, até encarei a incompreensão como parte da leitura. E não há como negar que a linguagem não é neutra, compreensível para qualquer falante do português. Ou seja, uma grande maioria teria dificuldades de compreensão ao longo da leitura. Optar por isto foi uma forma de pôr a plausibilidade das personagens, e portanto a vida como ela é, acima de facilitismo da leitura de um potencial leitor? Ou seja, assumes mais um pacto com a realidade, e é esse o pacto que acabas por assumir com o leitor?

GM: Essa escolha passa pela estética e pela política. Já tinha visto alguns outros escritores flertando com uma linguagem urbana. Me incomodava muito quando utilizavam alguma gíria e logo a seguir explicavam o que queria dizer. Me incomodava no sentido estético porque sempre sentia uma quebra de ritmo no texto por conta dessas explicações. E me incomodava no aspecto político, porque, quando o autor faz isso, está de alguma forma assinando um contrato invisível em que diz que tem um público específico, que não entende essa palavra. Sempre tive medo de cair nesse lugar, de quem está mostrando um mundo exótico para alguém. Por esses dois motivos, lendo esse tipo de livro, que flertava com essa linguagem urbana mas que tentava explicar o tempo todo o que estava dizendo, entendi muito bem o que não queria fazer num livro. E o que não queria era isso. Não queria assinar um contrato em que dizia que tinha um tipo específico de leitores. E não queria ter essa quebra de ritmo nos meus textos, principalmente porque considero o ritmo uma das coisas mais importantes para o sucesso de qualquer texto.

ABP: Através do micro, alcanças o macro. Escreves como se fala, mas com beleza literária. É assim que se pretende ou se alcança o universal na literatura?

GM: Acho que sim. A linguagem é sempre um meio, nunca pode ser o fim das coisas. Fazer o texto para poder sobressair uma espécie de pesquisa linguística ou para poder, de alguma forma, destilar algum virtuosismo com a linguagem não me interessa nem um pouco. Acho que a linguagem está sempre ao serviço da história. Acho que o principal da literatura é contar uma histórica.

Fico procurando os personagens que vão me ajudando a procurar essa história, procuro a linguagem que mais vai se encaixar dentro do universo que estou pretendendo criar. Antes de fazer literatura como profissão, eu gostava muito de música e achava que seria músico. Acho que trago muito dessa experiência como músico, a busca de um ritmo com um tom específico para cada coisa que estou escrevendo. E acho que a linguagem entra no tom.

ABP: E como ficou o primeiro romance?

GM: Abandonei a ideia de vez. Depois de publicar o livro, comecei a escrever crónicas no jornal. A crónica foi o primeiro género literário que comecei a trabalhar e acho que até o meu trabalho como contista passa muito por essa experiência também. Depois de publicar o livro, encontrei outra história que poderia virar um romance, e estou trabalhando nele agora. Por dois motivos: um é a vontade de experimentar outro género, o outro é que escrevi alguns contos depois de ter publicado “O sol na cabeça” e percebi que estava com uma fórmula muito bem conseguida de um conto e que a chance de fazer um livro parecido era grande, se fizesse um livro de contos.

Preferi me afastar para uma coisa que não domino tão bem para fazer uam coisa diferente. Estou bem no começo, mas tem sido uma experiência interessante. Descobrir o que funciona e não funciona no romance. Tem várias coisas que faço no conto que não cabe no romance, mas tem várias coisas que são possíveis no romance que no conto não podia fazer. Descobrir o que perco e ganho nessa mudança e até onde consigo sustentar essas personagens. Já tenho uma história bem definida, uma estrutura, e sinto que estou no momento de conhecer melhor os meus personagens e ver o que podem me dar além do que eu espero deles. Tem sido uma experiência muito intensa de mergulhar num universo novo. Passei a vida escrevendo, mas nunca consegui esticar minhas histórias por muito tempo, sustentar elas por muitas páginas, mais de 10, 15 páginas, sempre foi uma dificuldade. Estou passando por isso e descobrindo muitas coisas nesse caminho.

ABP: Como descreverias este livro que escreveste?

GM: Costumo dizer que é um livro solar. Tenho muita dificuldade em descrever este livro. Acho bom, porque a dificuldade vem de serem muitos temas tratados, mesmo que cada conto tenha um tema principal, entram vários outros. No “Roleta russa”, tem o tema da naturalização da violência muito forte e de um universo de infância atravessada por essas questões. Ao mesmo tempo, trabalha a questão familiar, a sociabilidade na escola e na rua. Acaba abraçando muitos temas dentro dos temas principais. Tenho uma dificuldade grande em fazer uma descrição. Mas, se fosse fazer uma apresentação, diria que é um livro solar, mas que tem momentos de sombra e que é, de certa forma, um mosaico possível da cidade do Rio de Janeiro a partir do olhar de alguém que viveu uma experiência muito específica dessa cidade.

ABP: O que andas a ler?

GM: Estou relendo “Memórias Póstumas de Brás Cuba”, de Machado de Assis. Estou lendo um livro de contas de um rapaz do Rio Grande do Sul chamado José Faleiro, o nome do livro é “Vila Sapo”. E os meus velhos companheiros de sempre, Drummond e Rubem Braga, autores que me acompanham há muito tempo e que estou sempre relendo.

Sobre o/a autor(a)

Doutorada em Literatura, investigadora, editora e linguista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
Termos relacionados Cultura
(...)