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A fundação do diário operário “A Batalha”

Na Conferência Operária de Lisboa, em 1917, o militante anarcossindicalista Raul Neves Dias fez uma proposta para a criação de um jornal operário diário, a qual foi aprovada. Só em 23 de fevereiro de 1919 surgiu esse diário sindicalista com o título de A Batalha. Por João Vasconcelos.
Imagem publicada em centro-de-estudos-bocageanos7.webnode.pt

A tarefa de criação do diário coubera a um grupo de delegados desta organização operária, formado por Raul Neves Dias, Pinto Quartim, Eduardo Freitas, Hilário Marques, Perfeito de Carvalho, José António de Almeida e Francisco Cristo1. Sobre o aparecimento deste diário sindicalista escreveu o seu diretor, Alexandre Vieira, secretário-geral da União Operária Nacional (U.O.N.), em forma de apresentação:

“Bem sabemos nós que A Batalha, que será na imprensa o porta-voz da organização operária nacional, e, portanto, o intérprete das generosas aspirações da legião trabalhadora, dessa legião que ao mesmo tempo que, nessa luta afanosa, arranca à natureza ubérrima tudo quanto é mister à existência, anda empenhada numa outra luta não menos ingente, qual é a de marchar em demanda de um porvir, não de bem-estar apenas para alguns, mas de conforto para todos. (…).

Temos a pretensão de fazer de A Batalha um jornal onde os espezinhados, a cujo número pertencemos, encontrem um defensor apaixonado e a classe poderosa um adversário contumaz das prerrogativas de que goza ilegitimamente, mas adversário leal, que deseja impor-se, não pelo exercício de um insulto degradante ou da calúnia arvorada em acicate, mas pela crítica correta e justiceira aos seus atos, critica de que não isentaremos também as próprias instituições operárias, sempre que a atitude destas se nos afigure irregular”.2

A Batalha editada inicialmente pela U.O.N., fundada em 1914, tornou-se o órgão da poderosa Confederação Geral do Trabalho (G. G. T.), sucessora daquela e fundada em Coimbra, no II Congresso Operário Nacional, em setembro de 1919. No rescaldo da I Guerra Mundial, a I República vivia um período de grandes convulsões políticas e sociais onde o movimento operário desempenhava um papel de primeiro plano.

O ano de 1919 afigurava-se como o momento ideal para o lançamento de um diário operário com uma grande tiragem e ligada a uma editora agressiva. Toda a gente conspirava no país e muitos trabalhadores acreditavam que estavam a viver um período revolucionário. Mas quem saiu para a rua de forma violenta não foram os trabalhadores, mas os monárquicos que se sentiam fortalecidos com os apoios recebidos por parte do Sidonismo, tendo à sua frente o velho militar africanista Paiva Couceiro, instaurando o “reino da Traulitânia”3 no Porto, que só terminaria com a entrada das tropas republicanas a 13 de fevereiro. Os monárquicos tentaram fazer o mesmo em Lisboa com a ocupação de Monsanto – a chamada “monarquia de Monsanto” -, mas foram derrotados pela classe operária e as massas populares de Lisboa que se uniram aos setores republicanos.

A ditadura sidonista foi de curta duração, pois manteve-se apenas durante um ano. No ano de 1917 Portugal entrou na Grande Guerra ao lado dos Aliados. As movimentações populares contra a guerra, a carestia de vida e a repressão acabaram por reforçar o isolamento do Governo do Partido Democrático (republicano) de Afonso Costa. O movimento operário, os anti-intervencionistas, germanófilos, monárquicos e republicanos de vários matizes afrontavam Afonso Costa. É neste contexto que a 5 de dezembro de 1917 Sidónio Pais chefiou um movimento militar, com largo apoio dos civis, afastando os “democráticos” do poder. A própria U.O.N. não hostilizou o golpe sidonista e, embora o não apoiasse expressamente, alguns militantes operários chegaram a participar nos atos preparatórios do movimento. Havia a promessa sidonista da resolução da “questão das subsistências”, de uma política equilibrada de preços e salários e a libertação de presos por questões sociais4.

Se a última promessa foi, de certo modo, cumprida, as outras não e as políticas anti-operárias até se agravaram com o endurecimento da repressão. Animados pelo exemplo da Revolução Russa triunfante, a U.O.N. decretou uma greve geral de caráter revolucionário, para novembro de 1918, contra a carestia de vida, o açambarcamento e a especulação. Foi na Aldeia de Vale de Santiago, concelho de Odemira, onde a radicalização operária foi maior, com o povo a percorrer as ruas dando vivas à “revolução social” e aos “camaradas da Rússia”, a ocupar as terras da freguesia e a colar papéis brancos nas portas dos “montes” anunciando "que os burgueses têm os dias contados e dando vivas aos Sovietes Portugueses". O que presidiu à ocupação das terras era a perspetiva de "greve geral expropriadora". Foi expropriado o celeiro do maior agrário da freguesia, António Eduardo Júlio, e os trabalhadores tomaram conta do trigo, visto se encontrarem "muitas famílias cheias de fome, sem um pó de farinha". No dia 19 de novembro, cerca de 60 trabalhadores armados de "espingardas, pistolas e bombas", concentraram-se no Cerro Alto, o ponto mais alto da aldeia, para a sua defesa, uma vez que em Odemira civis armados encerraram a Associação dos Trabalhadores Rurais e fizeram numerosas prisões5. A greve geral fracassou e a repressão que se seguiu foi violenta contra os setores operários. Mas Sidónio Pais e o seu regime da "República Nova" acabariam por cair pouco tempo depois. A galvanização operária reacendeu-se com a tomada de Monsanto e a restauração da República.

Entre os anos de 1919 e 1921 muitas lutas operárias saíram vitoriosas. A seguir à guerra, os operários da capital aproveitaram a balbúrdia existente para obterem aumentos salariais. Sem a tropa para acudir a todo o lado, muitas lutas operárias conquistaram algumas reivindicações e as notícias da Revolução Russa contribuíram para o clima de euforia revolucionária. De início os libertários de várias tendências – anarquistas, sindicalistas revolucionários, anarcossindicalistas – simpatizavam com os bolcheviques, passando desapercebidos os aspetos ditatoriais da Revolução. Os operários tinham tomado diretamente o poder pela primeira vez na História, exceto durante o breve período da Comuna de Paris, em 1871.

Para os revolucionários em Portugal, incluindo os sindicalistas, a Revolução proletária deixara de ser uma utopia e agora parecia perfeitamente possível. Todos os dias A Batalha veiculava estas ideias e incentivava as massas operárias a perseguir tal objetivo. Para os anarcossindicalistas era urgente assaltar a cidadela desguarnecida, enquanto a Revolução rugia na rua. Os trabalhadores iriam encarregar-se de desmantelar o Estado burguês através do seu braço organizativo, a CGT, onde o seu órgão A Batalha era a centelha que iluminava o movimento. Além deste ideal não se ter concretizado, a partir de 1921, com o aparecimento do Partido Comunista Português que passou a disputar furiosamente o movimento operário, A Batalha vai entrar nessas disputas, querelas e polémicas, de forma não menos furiosa.

Ao longo dos vários anos de existência, A Batalha, tal como o movimento operário português, vai ser algo de muitos ataques e perseguições, particularmente pelos governos da I República até 1926, pela Ditadura Militar e pelo "Estado Novo" salazarista. Muitas vezes a sua sede foi assaltada, as tipografias confiscadas, o material destruído e os seus redatores presos, mas o órgão anarcossindicalista reerguia-se sempre das cinzas, embora depois de vários e longos interregnos, mergulhando novamente na clandestinidade. Dois dos seus redatores e dirigentes anarcossindicalistas mais proeminentes durante o “Estado Novo” foram Mário Castelhano e Emídio Santana (também dirigentes da CGT), os quais passaram vários anos nos cárceres salazaristas. Mário Castelhano acabou mesmo por inaugurar e morrer no Campo de Concentração do Tarrafal, em 1940.

No próximo dia 23 de fevereiro A Batalha irá comemorar o seu 102.º aniversário de existência. Ao longo da sua história saíram VI séries, assim distribuídas: I série – 1919-1927 (diário, 2 556 n.º publicados); II Série – 1930 (134 n.º publicados); III Série – 1934 (3 n.º publicados); IV Série – 1935-1937 (11 n.º publicados); V Série – 1946-1949 (21 n.º publicados); VI Série – a partir de 19746.

Bibliografia

V. Alexandre Vieira, Para a História do Sindicalismo em Portugal, 2.ª edição, Lisboa, Seara Nova, 1974.

César Oliveira, O Movimento Sindical Português. A Primeira Cisão, s. l., Publicações Europa-América, s. d..

Cf. Edgar Rodrigues, Breve História do Pensamento e das Lutas Sociais em Portugal, Lisboa, Editora Assírio & Alvim, 1977.

Francisco Canais Rocha e Maria Rosalina Labaredas, "Recordando a greve geral de 18 de novembro de 1918 e os grevistas deportados", in Diário de Lisboa, Lisboa, n.º 21 008, de 18 de novembro de 1982.

Jacinto Baptista, Surgindo Vem ao longe a Nova Aurora… Para a história do diário sindicalista A Batalha – 1919/1927, Lisboa, Livraria Bertrand, 1977.

João Freire, Anarquistas e Operários. Ideologia, ofício e práticas sociais: o anarquismo e o operariado em Portugal, 1900-1940, Porto, edições Afrontamento, 1992.


1 V. Alexandre Vieira, Para a História do Sindicalismo em Portugal, 2.ª edição, Lisboa, Seara Nova, 1974, p. 141.

2 Cf. Edgar Rodrigues, Breve História do Pensamento e das Lutas Sociais em Portugal, Lisboa, Editora Assírio & Alvim, 1977, p. 184.

3 No norte do país, sobretudo no Porto, após o assassinato de Sidónio Pais em 14 de dezembro de 1918, foi reimplantada a monarquia que ficou conhecida como “o reino da Traulitânia”.

4 Cf. César Oliveira, O Movimento Sindical Português. A Primeira Cisão, s. l., Publicações Europa-América, s. d., pp. 34-35.

5 Cf. Francisco Canais Rocha e Maria Rosalina Labaredas, "Recordando a greve geral de 18 de novembro de 1918 e os grevistas deportados", in Diário de Lisboa, Lisboa, n.º 21 008, de 18 de novembro de 1982, pp. 2 e 4.

6 João Freire, Anarquistas e Operários. Ideologia, ofício e práticas sociais: o anarquismo e o operariado em Portugal, 1900-1940, Porto, edições Afrontamento, 1992, p. 390.

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