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Franceses saem às ruas contra o aumento da idade de reforma

A proposta de Macron encontrou forte resistência nas ruas, com uma união sindical inédita na última década. Esta quinta-feira houve greves e manifestações em todo o país e os sindicatos acreditam ter ultrapassado a fasquia de um milhão de pessoas nas ruas.
Manifestação em Paris. Foto de Yoan Valat/EPA

O Governo francês quer aumentar a idade de reforma dos atuais 62 para os 64 anos com os anos de descontos a subirem progressivamente para os 43, em vez dos atuais 42, para ter acesso à reforma por inteiro. Mas os trabalhadores franceses mobilizam-se para travar mais um ataque aos seus direitos sociais.

Esta quinta-feira realizou-se a primeira jornada de luta conjunta das oito principais centrais sindicais do país, que não organizavam em conjunto uma ação desta envergadura desde 2012. A petição online contra a reforma das pensões, lançada no dia da convocatória desta jornada de luta, juntou mais de 600 mil assinaturas e ao longo da manhã, as greves afetaram sobretudo os serviços públicos como a educação e transportes. Nas escolas primárias e secundárias, os sindicatos indicaram uma adesão entre os 65% e os 70%, com o Ministério a baixar a fasquia para os 35% a 42%. Mas houve paralisações noutros setores, como nas refinarias da Total onde a adesão foi entre os 70% e os 100%, segundo a CGT, e na Esso Exxon-Mobil onde "uma refinaria em cada duas está em greve". Os sindicatos avisam que a paralisação deve regressar na próxima semana. Na EDF, a empresa pública de eletricidade, a administração diz que a greve tinha ao fim da manhã 44,5% de adesão, o que representa uma grande subida face a anteriores paralisações.

A manifestação em Paris juntava já muitas dezenas de milhares de pessoas no arranque ao início da tarde, mas em muitas das 250 cidades e vilas, as manifestações ocorreram de manhã, apesar do forte frio que se faz sentir em França. O objetivo dos sindicatos era atingir um milhão de pessoas nas ruas em todo o país e no início da manifestação em Paris, o líder da CGT, Phillipe Martinez, afirmou que "a fasquia do milhão de manifestantes será ultrapassada". Por seu lado, Laurent Berger, o lider da CFDT, diz que a adesão ao protesto "superou as nossas expetativas". Duas horas após a partida da manifestação, a CGT anunciou a presença de 400 mil participantes.

O presidente francês Emmanuel Macron passou o dia em Barcelona na cimeira hispano-francesa, mas teve de responder aos jornalistas sobre a revolta no seu pais. "É preciso que as coisas sejam ditas no momento em que as excolhas democráticas são feitas. Na eleição presidencial e nas legislativas que ocorreram há alguns meses, as coisas foram ditas de forma clara", afirmou o Presidente francês, cujo plano original era subir a idade da reforma para os 65 anos.

Mélenchon: "O sistema de pensões não está em défice nem estará no futuro"

Em Marselha, dezenas de milhares de pessoas manifestaram-se de manhã e entre elas estava o líder da França Insubmissa. Jean-Luc Mélenchon disse aos jornalistas que "o Governo perdeu a sua primeira batalha: a de convencer as pessoas da necessidade desta reforma. Desta vez as pessoas não acreditam nos argumentos apresentados. Elas estão dispostas a fazer sacrifícios, mas aqui sabem que lhes estão a mentir. Quando se toma uma decisão tão grave como retirar dois anos de tempo às pessoas, é preciso dar uma justificação e eles não a têm. O sistema de pensões não está em défice nem estará no futuro", afirmou Mélenchon, citado pelo Le Monde.

O antigo deputado e candidato presidencial da esquerda apelou a Macron para que retire a sua proposta e "compreenda que os anos Blair-Thatchet acabaram". Mélenchon destacou ainda a "força considerável" trazida pela unidade entre sindicatos e prevê que muito em breve haja concentrações e manifestações a terem lugar aos fins de semana.

Em Tours, três sapadores bombeiros levaram um caixão em cima de uma maca rolante. "Três colegas reformados ainda jovens morreram há pouco tempo. Nem chegaram aos 70 anos. Dormimos mal e respiramos muita merda neste trabalho... No fim, isso paga-se. É o que este caxão quer dizer", afirma ao Mediapart Christophe Duveau, delegado sindical do CFTC de 50 anos. Caso a reforma avance, terá de trabalhar mais dois anos. "Temos um trabalho essencial mas que atrai cada vez menos jovens. Esta reforma vai torná-lo ainda menos atrativo. È outra maneira de prejudicar o serviço público", acrescenta. Também na manifestação de Paris o Mediapart encontrou mais bombeiros fardados e com a inscrição "em greve". "Viemos fardados para não passarmos invisíveis", disse Peter Gurruchaga, da CGT. Apesar de contarem com um regime especial de penosidade, "pois morremos sete anos mais cedo que os outros traalhadores" e de o governo dizer que o vai manter, a verdade é que "teremos de sair dois anos mais tarde do que acontece agora, o que recusamos". "Quando comecei, podia reformr-me aos 55 anos. Depois passou para os 57 com a reforma de Sarkozy em 2010. Com esta, podemos ter o direito à reforma aos 59, mas com o tempo de descontos necessário, para mim seria aos 62. Não, obrigado!", exclamou

Em Toulouse, a manifestação juntou 60 mil pessoas (40 mil segundo a polícia) e deixou os sindicatos satisfeitos com a mobilização. Só das oficinas da Airbus saíram 40 autocarros e todas as cantinasfecharam pela primeira vez. Patrice, delegado sindical da CGT no fabricante aeronáutico, disse ao Mediapart que esta "contrarreforma" deve ser discutida em todo o lado, do trabalho à mesa de jantar, pois é preciso "tomar consciência de que o que está em jogo é um projeto de sociedade a tentar instalar-se" no país.

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