Filipinas: Noynoy empossado

05 de julho 2010 - 14:41

Corrupção política, pacificação do país e reforma agrária na agenda do novo presidente. Por Tomi Mori, de Tóquio para o Esquerda.net

PARTILHAR
Benigno Aquino III, conhecido como Noynoy, venceu com mais de 15 milhões de votos e é filho da ex-presidente Corazón Aquino

Foi empossado o 15º presidente da República das Filipinas, Benigno Aquino III, conhecido como Noynoy, vitorioso nas eleições de Maio com mais de 15 milhões de votos.

Noynoy é filho de Corazón Aquino e do senador Benigno “Ninoy” Aquino. O seu pai fora assassinado pela ditadura de Ferdinando Marcos e a sua mãe Corazón subiu ao poder encabeçando a revolução democrática Poder do Povo, que derrubou a ditadura com massivas manifestações. Aquino governou o país de 1986 a 1992.

Aquino ganhou as eleições prometendo acabar com a corrupção política que é um dos principais problemas do país. Uma herança da ditadura de Marcos que continuou a todo galope no governo de Gloria Macapagal –Arroyo, eleita deputada nas eleições de Maio.

A corrupção serve como obstáculo para que as empresas multinacionais se instalem nesse arquipélago, que possui 7.107 ilhas e 92 milhões de habitantes. Alem desses, cerca de 11 milhões de filipinos são forçados a viver no exterior por falta de perspectivas no seu próprio país, o que representa um enorme sacrifício nas suas vidas. E o país tornou-se dependente da remessa desses imigrantes, cujo valor ultrapassa o investimento estrangeiro directo. Milhões de familiares dependem concretamente dessas remessas para poder viver, num país onde o desemprego é o outro problema grave.

Guerra popular

Aquino, além de todos os problemas comuns, herdou também um país em guerra civil. A guerra civil filipina leva quarenta anos e já deixou como saldo milhares de mortos. Uma parte dessa guerra é travada, principalmente, pelos camponeses pobres na chamada Guerra do Povo, e a outra parte corresponde às lutas étnicas existentes.

A Guerra do Povo foi lançada pelo Partido Comunista das Filipinas, fundado em 1968 como uma dissidência do Partido Comunista oficial. A dissidência foi dirigida por Amado Guerrero, nome de guerra de José Maria Sison, nascido na província de Pangasinan.

No início de 1970, José Maria Sison foi um dos líderes do que ficou conhecido como “First Quarter Storm”, um ascenso popular que se prolongou durante os três primeiros meses do ano contra a ditadura de Marcos. A dissidência de Sison assumiu as posições maoístas e, já em 1969, foi formado o Novo Exército do Povo e, em 1973, a Frente Democrática Nacional, a fachada política dos maoístas. A guerra popular desenvolve-se em várias partes do arquipélago filipino, impulsionada pelos maoístas. Na ARMM (sigla de Região Autónoma no Mindanao Muççulmano) operam a MILF (Frente de Libertação Islâmica Moro) e a MNLF (Frente de Libertação Nacional Moro) e também o grupo Abu Sayyaf, muçulmanos, que lutam pela formação de um estado independente.

Na quinta-feira, a MILF desactivou o painel de paz do grupo guerrilheiro sem dar maiores explicações. A desactivação do painel ocorreu no mesmo momento em que o Malacañang informou que o governo de Aquino havia enviado mensagens informais para que os grupos rebeldes voltassem à mesa de negociações. Um porta-voz do grupo afirmou que a desactivação do painel não significa que tenham abandonado definitivamente as negociações Mas significa que o novo governo terá de trabalhar bastante se quiser pacificar o país em guerra civil, uma tarefa bastante difícil no seu mandato.

No sábado, a polícia prendeu 38 pessoas que acamparam em protesto na histórica ponte Chino Roces, em Manila, exigindo uma verdadeira reforma agrária ao recém empossado presidente. Alguns dos presos eram trabalhadores da Hacienda Luisita, uma velha plantação de 6.435 hectares que pertenceu à Compania General de Tabacos de Filipinas, fundada em 1881 por um espanhol de Santander. A família Cojuangco, da qual faz parte Corazón Aquino, falecida mãe do actual presidente, é uma das proprietárias desse latifúndio açucareiro.