Filhos do califado: EI intensifica uso de crianças e prepara nova geração de extremistas

21 de janeiro 2016 - 11:36

Vídeo do grupo com uma criança britânica chamou atenção no Ocidente para 'exército de meninos' do Estado Islâmico (EI), que conta também com crianças dos territórios dominados. Por Rachel Costa, Opera Mundi.

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Uma vez em território sírio, o destino da maioria das crianças será o envolvimento direto nas ações terroristas.

O ano mal havia começado quando, no dia 3 de janeiro, um domingo, o Estado Islâmico (EI) divulgou um vídeo apresentado por um soldado com sotaque britânico mostrando a execução de cinco homens acusados de espionagem. Até aí, nada de novo: em 2015 foram várias as aparições de "Jihadi John”, como foi apelidado pelos média do Reino Unido o britânico que protagonizou várias execuções em nome do EI. A novidade para 2016 estava guardada no fim da gravação: um menino trajado com uma miniversão do uniforme militar do grupo fazia ameaças em inglês aos “não-crentes” de todas as partes do mundo.

Em pouco tempo o pequeno ganhou o apelido de “Jihadi Junior” na imprensa britânica e a sua identidade foi descoberta quando os seus avós decidiram reconhecer publicamente o neto. O “minissoldado” chama-se Isa Dare e tem apenas 4 anos de idade. Isa é uma das formas em árabe de se referir a Jesus. Nascido no Reino Unido numa família cristã de origem nigeriana, a criança foi levado à Síria pela mãe Grace 'Khadija' Dare, em 2014, onde um dos soldados do EI a esperava para o casamento.

Isa é apenas um no batalhão de meninos e meninas nas mãos do grupo. É difícil precisar quantos são, mas dados divulgados pela polícia britânica em 12 de janeiro mostram que somente o Reino Unido forneceu 56 jovens mulheres e jovens ao longo do último ano para o EI. O recrutamento de famílias inteiras é apenas um dos métodos adotados pelo grupo para aumentar o seu exército infantil.

“Estamos profundamente preocupados com o número de jovens e de famílias inteiras que viajam para a Síria. Elas desconhecem os perigos que enfrentarão quando lá chegarem e também a realidade de se viver num país destruído pela guerra”, disse Helen Ball, coordenadora das políticas de prevenção de terrorismo no Reino Unido. Um dos casos mais emblemáticos no país durante o último ano foi o de três irmãs que viajaram juntas para a Síria em junho, levando com elas um total de nove crianças.

[caption align="right"]O recrutamento de famílias inteiras é apenas um dos métodos adotados pelo grupo para aumentar o seu exército infantil.[/caption]

Uma vez em território sírio, o destino da maioria desses meninos será o envolvimento direto nas ações terroristas. Ativistas do grupo “Raqqa is Being Slaughtered Silently” (“Raqqa está a ser massacrada silenciosamente”), que mantém um site para denunciar o banho de sangue que está a ocorrer na cidade, um dos centros de operação do EI na Síria, sugerem que 90% dos meninos estrangeiros acima dos sete anos vai para campos de treino logo após a chegada aos territórios controlados pelo EI. Informações do relatório do conselho de segurança da ONU divulgado em junho de 2015 dão conta de que apenas em Raqqa existem três campos de treino para crianças.

Crianças vindas do Ocidente, como é o caso de Isa, ganham mais repercussão nos média internacionais, mas são apenas a ponta de um iceberg que vai muito além do aliciamento de famílias no exterior, como é o caso do menino britânico. Nas filas dos exércitos de crianças há ainda voluntários e meninos oriundos de orfanatos controlados pelo grupo.

Só no primeiro semestre de 2015, mais de 1.100 crianças menores de 16 anos foram aliciados para fazer parte dos centros de treino para crianças mantidos pelo grupo, estima o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, organização não governamental que tem documentado as atrocidades cometidas no país desde o início do conflito. A organização calcula que, durante o mesmo período, houve cerca de 50 baixas entre as crianças-soldados.

“Nas zonas controladas pelo EI, não há nada que possa ser feito para evitar que eles explorem as crianças. Temo-los vista a usar crianças estrangeiras, crianças da região, reféns”, analisa John Horgan, pesquisador da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, que passou os últimos três anos a estudar o envolvimento de crianças em grupos terroristas de vários países do mundo. Para o pesquisador, o grupo sobressai mesmo quando comparado com outras organizações terroristas, especialmente por envolver as crianças desde muito cedo.

A nova geração do terror

Diferentes vídeos divulgados pelo Estado Islâmico dão uma vaga ideia sobre a vida dessas crianças e adolescentes nos territórios controlados. Num vídeo, é possível ver crianças na faixa dos 10 aos 12 anos a receber treino militar. Noutro, publicado em dezembro e intitulado “Para os filhos dos judeus”, outro grupo de adolescentes, armas em punho, assassina seis prisioneiros a sangue frio. As imagens são explícitas e a produção do vídeo é cinematográfica: filmadas de vários ângulos mostram detalhes dos últimos segundos de vida dos assassinados ao espectador.

Entre as macabras peças publicitárias do grupo há ainda os cartões com fotos dos jovens soldados publicados como uma celebração quando um deles morre em combate ou atuando como homem-bomba.

[caption align="left"]Entre as macabras peças publicitárias do grupo há ainda os cartões com fotos dos jovens soldados publicados como uma celebração quando um deles morre em combate ou atuando como homem-bomba.Entre as macabras peças publicitárias do grupo há ainda os cartões com fotos dos jovens soldados publicados como uma celebração quando um deles morre em combate ou atuando como homem-bomba.[/caption]

Quando são vistas, essas ações chocam o público. Porém, muito mais do que propaganda para reforçar a imagem de impiedosos assassinos conquistada pelo grupo, elas são, de fato, uma maneira do EI se manter vivo. Especialistas acreditam que o doutrinamento desde cedo, assim como o envolvimento de crianças nas atividades do grupo é uma forma de garantir a próxima geração de terroristas. É, ao mesmo tempo, um processo de dessensibilização desses meninos e meninas para a violência e de desenvolvimento de habilidades específicas para o combate.

“O uso de crianças é ilustrativo de uma estratégia de longo prazo”, afirma Josh Boyter, porta voz para a Iniciativa contra as crianças-soldado Roméo Dallaire, no Canadá. John Horgan completa, por seu turno, em tom de alerta: “Essas crianças que hoje são exploradas pelo EI serão os terroristas de amanhã e ninguém vai pensar duas vezes antes de os matar quando forem adultos”.

Leia também: Mais que propaganda, EI treina crianças como investimento no futuro, diz especialista

Artigo publicado no Opera Mundi em 18 de janeiro de 2016

Entre as macabras peças publicitárias do grupo há ainda os cartões com fotos dos jovens soldados publicados como uma celebração quando um deles morre em combate ou atuando como homem-bomba.