Aos 76 anos morreu o realizador Fernando Lopes. Nascido em Maçãs de Dona Maria, Alvaiázere, pequena aldeia da região centro, teve uma infância difícil a que, por vezes aludia, no meio da sua história e das suas estórias. Ele viera cedo para Lisboa onde estudou e trabalhou como paquete obtendo, aos 22 anos, um emprego na RTP.
Despertou para o cinema no movimento cineclubista onde desde muito jovem se envolveu, o que lhe proporcionou visionar filmes censurados e poder refletir sobre o papel cultural e político que o cinema podia representar. O cineclube abriu-lhe horizontes e permitiu clarificar desejos e expectativas, construir projetos.
Formou-se em realização, entre 1959 e 1961, como bolseiro em Londres, num curso de cinema e em 1965 estagiou em Hollywood. Fez filmes publicitários, foi crítico literário e esteve à frente da revista Cinéfilo. A seguir ao 25 de abril foi diretor de programas na RTP2 onde desenvolveu um trabalho vanguardista e exemplar tendo, posteriormente, liderado até 1993 o departamento de produções da RTP.
Ele entregava-se por inteiro, radicalmente, às pequenas e às grandes coisas da vida: ao cinema, aos amigos, aos amores, aos prazeres da mesa, ao deambular por Lisboa descobrindo recantos e encantos, ao pensar e sentir o social.
O Fernando Lopes punha as emoções nas relações com as pessoas, comovia-se na vida, por isso, nós o lembramos com o seu olhar atento, lúcido e ternurento, com as lágrimas tão perto dos olhos e do coração. Sabia criar, inteligentemente e como ninguém, um clima de cumplicidade nas conversas, de amizade carinhosa, matizado por um humor e uma ironia frente às agruras passadas e às adversidades da vida, que nos deixava enredados no prazer das descobertas partilhadas.
Num país quase sem cinema e com filmes fracos e a gosto do regime salazarista, o seu filme Belarmino de 1964, feito com muito poucos recursos mas muita garra e qualidade torna-se um filme carismático do cinema português. Como era impossível obter subsídios a quem fosse percecionado como da “oposição” e com ficha na PIDE, este filme só se realizou graças ao António da Cunha Telles ter investido o seu dinheiro pessoal. Belarmino integra-se no movimento do Cinema Novo que, nesses anos, agrupava Paulo Rocha com Verdes Anos (1963), Ernesto de Sousa com Dom Roberto (1962) e António de Macedo com Domingo à Tarde (1965).
O cinema nesta época produzia uma nova estética, novos imaginários, novas narrativas, novas reconfigurações espaciais e diferentes temporalidades, afirmava novas preocupações sociais.
Recordar o Fernando Lopes é para mim recordar uma amizade cultivada dia a dia na década de 60 tendo o café Vá Vá como território existencial. Este café obra do arquiteto modernista Anahory situado entre as Avenidas de Roma e dos Estados Unidos da América, com design depurado e um painel de azulejos da Menez foi cenário de tertúlias e de amizades de um grupo de cineastas, de estudantes associativos, publicitários e personagens da vida cultural e política.
O Vá Vá era um espaço irreverente, cosmopolita, de cumplicidade, refugio de vivências, amizades e descobertas; uma abertura sobre novos e atraentes horizontes de cultura e de pensamento, de resistência a um mundo injusto, medíocre, soturno, desgastado.
No Vá Vá congeminávamos a revolução, discutíamos ideias, dávamos consistência à coragem, tínhamos assombros e encantamentos culturais, descobríamos o erotismo e o amor. Neste espaço estruturador e reparador tecíamos quotidianamente uma rede de partilha e de solidariedade muito importante, numa época atravessada pela repressão, para um grupo de pessoas muitas deles vindas de fora de Lisboa, onde também existiam dificuldades e sofrimentos, onde ocorriam prisões e perseguições.
Com o Fernando Lopes e os cineastas do Vá Vá (João César Monteiro, Seixas Santos, António Pedro Vasconcelos, Fonseca e Costa e Paulo Rocha) aprendemos a ver o cinema e a sua magia, a conhecer realizadores, atores e filmes, a apreender a linguagem cinematográfica, a observar e a salientar pormenores, a entender os planos, a valorizar o percurso invisível da rodagem, da produção e da montagem, a conhecer mestres e escolas como a nouvelle vague, o neorrealismo italiano, o free cinema.
O Fernando Lopes amava a vida e interessava-se profundamente pelas pessoas e pelo cinema. Os seus documentários sobre o boxeur Belarmino Fragoso, a coreógrafa e bailarina Pina Baush, o pintor Michael Bilberstein, o poeta Alexandre O’Neill e o fotógrafo Gérard Castello-Lopes são reveladores desta sua especial capacidade de subtilmente apreender as personagens e as apresentar cinematograficamente.
Lembrando alguns dos seus outros filmes compreende-se a sua importante contribuição para a história do cinema em Portugal: Uma abelha na chuva (1971) adaptado do romance de Carlos de Oliveira, Nós por cá todos bem (1976), O fio do horizonte (1993) a partir da obra de António Tabucchi, O Delfim (2002) baseado no livro do José Cardoso Pires, Lá fora (2004).
Nestes dias, quando ouvimos jovens realizadores falarem das relações com o Fernando e da forma empenhada e generosa como se oferecia e se disponibilizava, quando ouvimos os seus atores falarem da maneira como ele os dirigia e os sabia fazer aprofundar as personagens a representar, quando vimos os seus amigos arrombados pela sua morte, agarrando episódios, recordando-o ...cruzamos o seu encanto.