A farmacêutica Roche decidiu retirar do mercado um medicamento que na sua fórmula em xarope era utilizado nos tratamentos de crianças imunodeprimidas, nomeadamente, situações oncológicas ou de crianças com HIV.
Conforme assinala o deputado bloquista Moisés Ferreira num conjunto de questões endereçadas ao Ministério da Saúde, “esta retirada do mercado não estará relacionada com nenhuma questão de eficácia, qualidade ou segurança deste medicamento, mas sim com uma razão economicista: o medicamento terá deixado de ser atrativo do ponto de vista económico para a farmacêutica e ela deixou de ter interesse em mantê-lo no mercado”.
Os médicos afirmam que não sabiam desta retirada do mercado e alertam que não têm alternativas em Portugal que possam prescrever. Já as mães e os pais sabem que, se deixarem de dar este medicamento, as crianças podem contrair uma doença que as pode levar à morte.
Isto mesmo é referido pelo diretor de pediatria do IPO do Porto, que assinala que “a diferença entre dar e não dar o bactrim, pode ser entre não acontecer alguma coisa ou acontecer algo que leve à morte do doente. Podem morrer de uma doença que éramos capazes de evitar”.
Moisés Ferreira lembra que “esta não é a primeira vez que a indústria descontinua a produção e comercialização de medicamentos porque estes não lhes garantem o lucro que as farmacêuticas desejam ter”.
“Em fevereiro de 2017 foi também noticiada a descontinuação ou a dificuldade de acesso a fármacos usados em tratamentos oncológicos exatamente pelas mesmas razões: as farmacêuticas consideraram que estes fármacos se tornaram muito baratos e, por isso, deixaram de ter interesse comercial”, escreve o deputado bloquista.
Segundo Moisés Ferreira, “estas situações são inaceitáveis”.
“O lucro não pode ser mais importante do que a saúde. As farmacêuticas não podem negar tratamentos eficazes a pessoas que precisam deles apenas porque acham que não ganham o suficiente com determinado medicamento”, defende o dirigente do Bloco de Esquerda.
Recordando que “ o Governo já disse publicamente num passado muito recente que pretendia apostar na produção própria de alguns fármacos cuja produção é abandonada pelas farmacêuticas”, planeando investir, para o efeito, no Laboratório Militar, o deputado questiona em que situação está este investimento anunciado.
Moisés Ferreira quer “que se capacite a produção pública nacional para poder responder às necessidades das pessoas”.
“Tendo em conta a importância (e a não alternativa) do medicamento que a Roche decidiu descontinuar agora mesmo, e tendo em conta que esta situação já se passou com outros fármacos (nomeadamente para tratamentos oncológicos), consideramos que é necessário avançar rapidamente para esse investimento e capacidade de produção própria”, frisa o dirigente bloquista.
Infarmed anuncia que Roche se comprometeu com solução de "curto prazo"
Em comunicado emitido esta quarta-feira, o Infarmed informa que este reunido com a Roche, tendo sido restabelecido, para já, o fornecimento do medicamento.
Segundo a missiva, “a empresa comprometeu-se com uma solução a curto prazo, que consiste na distribuição de milhares de unidades de xarope nas farmácias hospitalares e comunitárias”.
O Infarmed anunciou ainda que “para garantir uma boa gestão do stock existente”, iria “emitir uma circular que determinará a utilização prioritária deste medicamento em crianças imunodeprimidas com infeção VIH/sida e cancro”.
Na circular entretanto publicada, o Infarmed refere que, para garantir uma boa gestão das unidades existentes, a prescrição deve ser ponderada e realizada prioritariamente nas seguintes condições: na profilaxia e no tratamento da pneumonia Pneumocystis jirovecii nas crianças imunodeprimidas com VIH/SIDA; no tratamento da pneumonia Pneumocystis jirovecii nas crianças imunodeprimidas com situação oncológica; na profilaxia da infeção urinária quando assim recomendado por protocolo hospitalar; e em infeções urinárias ou profilaxia em crianças com doença nefrológica crónica ou pós-transplante renal ou situações oncológicas.
Nas restantes situações clínicas, deverão ser avaliadas alternativas terapêuticas ao Bactrim.
Última atualização às 22:09 de 03.05.2018