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A extrema-direita global e a pandemia

Em Espanha nos bairros ricos bate-se em tachos e culpa-se o 8 de março pela propagação da covid. Para Trump, o vírus é chinês e para Modi é muçulmano. Para os golpistas da Bolívia, a culpa é dos indígenas. Por todo o lado a extrema-direita utiliza a pandemia contra os seus inimigos internos. Por Iago Moreno.
Ilustração de Iago Moreno publicada na revista Contexto.
Ilustração de Iago Moreno publicada na revista Contexto.

Nas últimas semanas, a extrema direita espanhola sitiou o governo do país com diversos tipos de acusações. Com a estratégia de alimentar a crise, vimos sua frente de meios de comunicação social e os seus líderes políticos a reforçar a polarização e a conspiração com mais virulência do que nunca. Muitos se perguntaram: o que fizemos de errado para que, em tal momento, a divisão prevaleça sobre a necessidade de se unir? Por que, enquanto o resto do mundo se une para enfrentar a pandemia, fomos capazes de entrar em ódio como esse?

Com batidas em panelas ou bots, a fanfarra da extrema-direita tornou-se insuportável. Depois de acusar o presidente Pedro Sánchez (por seis vezes) de realizar um golpe de Estado, de insinuar a necessidade de o rei ou as Forças Armadas “se manifestarem” contra ele, não sabemos que níveis de sofrimento podemos alcançar. Mas uma coisa é clara: não somos uma exceção internacional. Onde a extrema-direita surgiu, a pandemia não apenas não reduziu sua fome de poder, mas também se tornou sua principal desculpa para intensificar sua ofensiva. Basta olhar para a França e a Itália. Nem Marine Le Pen parou de aguçar suas críticas à presidência de Emmanuel Macron, nem a extrema-direita italiana concedeu um cessar-fogo ao governo de coligação. De fato, a “Joana d'Arc” da extrema-direita acusou o presidente francês de ser “o maior fornecedor de notícias falsas desde o início desta crise”. O partido espanhol Vox não é a única organização que camufla sua agitação através da desinformação, ao falar em “governos fraudulentos”. As coisas não estão melhores em Roma. De fato, se Salvini está encurralado, não é porque seu discurso não tem mais espaço, mas por causa da crescente popularidade de Giorgia Meloni, líder do partido ultra-conservador “Fratelli d'Italia”. A “exceção ibérica” morreu há muito tempo. Na Espanha, na Europa e em todo o mundo, a nova “Internacional Reacionária” está a abordar esta crise como uma corrida para seguir em frente adiante com os seus maiores anseios. Ou seja, rejeitar qualquer “trégua” ou “aproximação” e radicalizar sua política de cerco e polarização.

Cada variante nacional teve que adaptar o seu discurso à pandemia. No entanto, não foi difícil para eles. Afinal, as suas lógicas já se baseavam no confronto com um “inimigo interno” que ameaça “ser nacional”; no apelo a “extirpar” a existência “corrosiva” ou “ameaçadora” de outra origem ou inclinação “estrangeira”, “perigosa” e “selvagem”.

Não se engane: o vírus já estava no seu discurso, mas tinha outro nome. Quando a mesma lógica usada para falar sobre fronteiras e imigração pode ser reciclada para falar sobre “anticorpos espanhóis” e um “vírus chinês”, basta apontar aqueles já odiados como portadores ou culpados da pandemia. E assim fizeram internacionalmente. Se olharmos para a Índia, Hungria, Estados Unidos ou Filipinas, vemos que todas essas forças transformaram a pandemia numa extensão dos seus pogroms, mais uma fase da sua “conquista do Estado”. Todos eles apontam para quem já demonizavam antes, como se isto não fosse um problema global, mas o “maior expoente” do “risco de morte” para a nação que eles estavam profetizando durante esses anos. Na Hungria, onde o xenófobo Viktor Orbán falou antes dos imigrantes como “parasitas” e da imigração como um “veneno” perigoso, a nacionalidade iraniana de nove dos primeiros infectados serviu para conectar o discurso antes da pandemia ao nacionalismo do seu partido. “Não é coincidência”, disse o principal aliado europeu de Santiago Abascal, líder do Vox, da Espanha. Em Budapeste, os imigrantes foram acusados de trazer o vírus, em Madrid, a culpa foi do feminismo e do governo progressista, por transformar 8 milhões de pessoas em uma “bomba bacteriológica”. O guião foi o mesmo. Podemos apreciá-lo até na Bolívia. Lá, a junta do golpe que derrubou o governo eleito de Evo Morales está a culpar as comunidades indígenas desde há semanas por espalhar o vírus.

Que curioso, que oportuno, que na Índia também é fácil perceber quem são os odiados, os estigmatizados, os culpados da pandemia. Ao saber que uma oração maciça do Movimento dos Missionários Muçulmanos Tablighi Jamaat foi um dos primeiros surtos conhecidos de contágio, especulações e conspiração que já estavam a espalhar-se pelos fundos pantanosos das redes começaram a ser normalizadas e até encorajadas pelo partido do governo, o BJP. Ministros falaram de um “crime dos Talibãs”, altos funcionários apontando para a mesquita de Nizamuddin Marka por organizar uma “insurreição islâmica”. O que começou como um “meme” ou um discurso sectário acabou sendo a linha estratégica do nacional-hinduísmo. Ainda está surpreendido que o Vox e o PP falem em Espanha da manifestação feminista do 8 de março como uma “bomba epidemiológica” ou uma “festa do vírus”?

A mesma operação acontece nos Estados Unidos com Trump, com o discurso de que a pandemia teve sua origem na China. Por isso, é rebatizada como “gripe chinesa”. Funcionou com a Influenza, há 20 anos! Era preciso um gatilho para disparar a chinofobia trumpista e ele acabou por encontrá-lo.

De alguma forma, os complexos sentimentos de declínio global devem ser camuflados. Uma sociedade sem o direito à saúde pública como, a dos Estados Unidos, tinha todas as condições para se tornar um dos principais centros da pandemia. Por uma questão de sobrevivência, é normal que o trumpismo tente desesperadamente culpar o povo chinês. É mais fácil explorar o medo (inerente a todos os discursos racistas) do que lidar com a dura realidade de como a zoonose, a globalização e as pandemias andam de mãos dadas. É mais fácil espalhar memes sobre sopas de morcegos e mercados de carne de pangolim do que reconhecer a cumplicidade transnacional de todas as elites no nosso sistema.

Mas o que exatamente tem sido o modus operandi? A verdade é que, apesar dos milhares de quilómetros que os separam, também encontramos muitos lugares comuns. A covid-19 tornou-se a desculpa perfeita para endurecer ainda mais os golpes contra as instituições democráticas. O objetivo é acelerar a “conquista do Estado”. Agora que estamos mais sujeitos do que nunca à mediação do virtual, a extrema-direita dobrou a aposta e aumentou o seu compromisso com a desinformação cibernética e o golpe digital. Fotos antigas recicladas, piadas e manchetes enganosas, campanhas de linchamento…

A conjunção de grandes investimentos e tecnologias de milhões de dólares, como bots ou direcionamento político baseado na mineração de dados, opera como uma arma de polarização e envenenamento de informações. Se vídeos do TikTok de “comerciantes muçulmanas lambendo os dedos para infetar os seus clientes” são viralizados em Mumbai, teorias da conspiração sobre a possibilidade de uma guerra bacteriológica chinesa espalham-se no Texas. Conspiração e desinformação organizada não são a mesma coisa, mas elas se retroalimentam. Diga o que digam os peões dos meios de comunicação social do presidente indiano Narendra Modi, como Arnab Goswami, que passa horas na televisão incentivando teorias da conspiração, como culpar o Paquistão por se infiltrar pessoas infetadas através da fronteira com a Índia.

Pensávamos estar sozinhos? Como Gramsci disse, no claro-escuro da história, onde o velho está a morrer e o novo não pode ainda nascer, os piores monstros sempre ressurgem. A Espanha é apenas mais um caso. De fato, os peões negros que alimentam os ódios na Espanha são apenas os preguiçosos aprendizes de uma direita internacional mais avançada. Os protestos anti-isolamento no bairro rico de Salamanca ou nas urbanizações de Aravaca têm um selo nacional, o do grotesco, mas não deixam de ser uma imitação grosseira das caravanas bolsonaristas e das concentrações com as quais o trumpismo apela a “libertar” a América da quarentena. A batalha é global, e na Espanha aparecem aqueles que sabem muito bem como importar e adaptar os discursos de fora. Hoje, mais do que nunca, é conveniente pensar globalmente para defender a democracia a nível nacional.


Iago Moreno é sociólogo na Universidade de Cambridge e especialista em extrema-direita.

Publicado originalmente em 'Contexto y Acción'. Tradução de Victor Farinelli para a Carta Maior. Adaptação para português de Portugal pelo Esquerda.net.

Todas as ilustrações constam do artigo original.

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