"Eu assinei-a pensando que, se nós tivéssemos a força de uma grande união, podíamos ter evitado o pior. Hoje, retrospetivamente, acho que foi uma posição um pouco ingénua porque os dados já estavam todos lançados. O projecto neoliberal estava no terreno", reconhece Boaventura acerca da sua assinatura no documento em que se apelava a "um compromisso entre os principais partidos, com o apoio do Presidente da República, no sentido de assegurar que o próximo Governo será suportado por uma maioria inequívoca", ao lado de figuras como Alexandre Soares dos Santos, Belmiro de Azevedo, Lobo Xavier e Pinto Balsemão.
"O documento não expressava um posicionamento anticapitalista, com que eu me identifico. Naquela altura, do que se tratava era da luta do capital nacional contra o capital alemão", refere ainda Boaventura em sua defesa, antes de afirmar que na sua opinião, "o nosso ministro das Finanças, Vítor Gaspar, tem passaporte português mas é alemão", ou seja, "vê o mundo pelos olhos da Alemanha". Uma característica comum aos quadros formados pela Goldman Sachs, "uma espécie de companhia majestática das Índias" apenas interessada em "acumular capital e poder", descrita pelo diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra como "uma empresa colonial que tem poderes de soberania sobre os povos" e que suspendeu a democracia na Europa, dando o exemplo dos líderes não eleitos na Grécia, Itália e Banco Central Europeu. "Esses homens pertenceram todos à mesma empresa", acrescenta Boaventura, referindo-se a Papademos, Mario Monti e Mario Draghi.
Boaventura defende que o PS "precisa de se desvincular da assinatura do Memorando" e que a oportunidade está próxima, com a iminência do segundo resgate. O sociólogo diz querer "procurar uma aliança entre o Partido Socialista e o Bloco de Esquerda", mas não inclui o PCP por estar convencido que "na situação actual, para que não haja uma catástrofe, a solução tem de ser europeia" e "o PCP tem estado arredio de propostas inovadoras para a Europa". Mas não prevê que essa aliança possa acontecer em breve, ao admitir que "o Partido Socialista tem líderes em gestação para assumir uma alternativa".
"É preciso um Partido Socialista com outro líder, não pode ser este. Não tenho nada pessoalmente contra este, mas são precisas pessoas que não tenham sido criadas nesta zona de conforto, com imaginação, para soluções de desobediência", reclama Boaventura. Para ele, estas soluções de "desobediência dentro do euro" passam pela suspensão do serviço da dívida por algum tempo. "Se nós suspendermos o pagamento da dívida, Portugal começa a crescer", afirma o sociólogo que não receia a expulsão do país do euro. "A minha teoria é que expulsar Portugal do euro é um risco maior para quem expulsa do que aceitar essa situação". O problema, segundo Boaventura, é arranjar "líderes que comecem esse processo".
"A Europa tem a democracia suspensa"
05 de maio 2012 - 12:30
Em entrevista ao diário i, Boaventura Sousa Santos diz que "vivemos num sistema colonial em que os principais líderes não foram eleitos" e defende que a alternativa é "uma desobediência dentro do euro". Sobre o apelo ao compromisso nacional que assinou nas vésperas da entrada da troika, o sociólogo admite ter tido uma posição "um bocado ingénua".
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Foto rtp.pr/Flickr