A subsidiária da Zara no Brasil está a ser investigada pelo alegado envolvimento em trabalho escravo. O caso foi denunciado pela televisão brasileira e está também a ser acompanhado pela imprensa espanhola, depois de uma inspecção a uma fábrica da Zara em São Paulo ter detectado 52 infracções às leis laborais no país.
A principal fornecedora da Zara no Brasil, a empresa AHA, detinha várias fábricas ilegais na região de São Paulo, onde trabalhavam imigrantes bolivianos e peruanos submetidos a condições semelhantes à escravatura. Indícios de trabalho infantil - entre os trabalhadores estava um adolescente de 14 anos -, pagamento de salários inferiores ao mínimo exigido e turnos de 16 horas foram algumas das irregularidades detectadas pela inspecção.
Segundo o El Mundo, o escândalo foi trazido a público por uma reportagem da televisão brasileira Band. Os repórteres do canal televisivo acompanharam uma equipa de inspectores do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) que levou a cabo operações contra duas fábricas clandestinas em São Paulo, nas quais descobriram 15 pessoas a trabalhar em condições degradantes.
O recrutamento dos 'operários-escravos' seguia o padrão habitual: os trabalhadores foram aliciados em zonas muito pobres da Bolívia e do Peru, com promessas de melhores condições de vida no Brasil, mas, mal chegaram a São Paulo, foram obrigados a trabalhar 16 horas por dia, por um salário inferior ao vencimento mínimo legal, que são 340 dólares por mês.
Do salário miserável que recebiam os trabalhadores, os ‘empregadores-capatazes’ ainda descontavam o custo da viagem para o Brasil, a comida e outros custos, o que, para o MTE, constitui crime de escravatura por dívida.
Para as autoridades brasileiras a Zara é responsável por aqueles trabalhadores
O proprietário da Zara, o grupo espanhol Inditex, apressou-se a negar quaisquer responsabilidades na contratação de fábricas com trabalhadores escravos e garantiu que tomou medidas para que a AHA compense financeiramente as vítimas e corrija as situações ilegais nas fábricas.
A multinacional garantiu estar a trabalhar conjuntamente com o MTE para erradicar as práticas que violam o código de conduta da Zara e a legislação laboral brasileira e internacional.
Mas, de acordo com a imprensa espanhola, as explicações do grupo Inditex não convencem o MTE: "O nível de dependência económica deste fornecedor (AHA) em relação à Zara ficou evidente para os inspectores. A empresa funciona, na prática, como extensão da logística do seu cliente principal, a Zara Brasil Limitada", diz o relatório da inspecção.
"A empresa é responsável pelos que trabalham para ela. Estes trabalhadores estavam a produzir peças da Zara e seguiam orientações da empresa. Esta (vender roupas) é a actividade da empresa, a razão da sua existência, por isso é seu dever saber como estão a ser produzidas as suas peças", vincou a auditora fiscal Giuliana Cassiano Orlandi.