Entre portugueses e africanos vindos dos Países Africanos de Língua Portuguesa, não há quem não conheça esta banda que se popularizou tanto em Portugal, fusão de reggae com outros sons.
Quem não vibrava mal ouvia os primeiros acorder de “Pim Pam Pum”? Eram histórias da guerra civil de Angola, códigos irónicos, mas também uma brisa nova que passava e nos punha a vibrar. É isso aí, cota Silva!
O angolano Janelo da Costa é ainda vice-presidente da AMAA (Associação Moitense dos Amigos de Angola) para manter sempre acesa a ligação à banda. Aqui nos conta como criou a banda tão marcante num contexto de um Portugal a despertar para a interculturalidade.
Vieste para a Europa muito novo ainda…
Em 1976. Depois regressei a Angola, mas passados dois anos já cá estava outra vez, em rota para a Alemanha, fiquei lá quatro anos. Pertenço a uma família de emigrantes, mas também por causa da música. Conheci alguns jamaicanos, houve um triângulo que me fez movimentar: música, família e amigos. Tudo isto tem a ver com as origens do meu nome Kussondulola, uma palavra que em quimbundo significa mudança, deslocação para um sítio melhor. Era o nome da minha bisavó e daí esse espírito de movimento.
A partir de que momento a música passou a ocupar demasiado espaço na tua vida?
Desde muito cedo, começou logo em casa, nas festas do quintal, fui apanhado pelos disco-jockeys da altura, a vê-los pôr música no prato, fiquei fascinado desde então.
Depois, sou de Luanda, ouvi desde muito miúdo os Jovens do Prenda, os Merengues, com os irmãos mais velhos, às vezes com os pais, íamos vê-los ao Pavilhão, a eles e a outras famosas bandas da época. O fascínio pelo instrumento e por fazer música ficou-me. Era fã de bola, mas optei pela música, esse querer, a vontade de criar. Sempre tive capacidade para compor, escrever, então descobri na música uma forma de conseguir isso.
Imagino que já tinhas uma banda na escola…
Sim, a malta quando se começa a ligar à música tem logo um grupo. O primeiro chamava-se Rumde que é o nome de um amigo meu, ao contrário, que já tocava mais do que a malta. Esse foi o primeiro contacto com tocar. Depois conheci o reggae ainda na adolescência. O Bob Marley primeiro, a minha Mãe comprou um vinil do Peter Tosh que parecia a minha cara. A partir daí foi um dos meus mentores… Eu já conhecia David Zé, e todos aqueles nomes da música angolana, mas foi o Peter Tosh que me deu um empurrão. Quando era miúdo, adorava ver os coros nas igrejas. A Fé deu-me uma grande vontade de cantar.
A fé é um elemento fundador em ti…
Fundamental. Somos dotados de Fé, todos nós, eu acho. Nascemos com isso, não somos é perfeitos, mas recebemos isso. Essa coisa está lá… e aí aparece o canto… tu tens que estar com a Fé, porque tudo o que está na Natureza tem som, tudo, animais, plantas, árvores, o vento… não há silêncio. Quem fez o mundo assim, de certeza que deve ficar mesmo satisfeito quando a gente começa a cantar.
O que te levou a ser músico profissional em Portugal?
Quando cheguei, comecei logo a tocar pela Europa com jamaicanos, então houve um momento em que comecei a ser empurrado para voltar para Lisboa. Eu resistia: tinha a minha vida por lá, os irmãos também. Mas a minha banda queria que eu viesse para cá para ajudar a promover o reggae cantado em português. Aliás, sou mais um compositor do que músico. Um letrista, essa é a minha base. Na altura, já fazia música e dava ideias de arranjos, de produções para a banda. E eles começaram a ver em mim esse sentido de harmonizar as coisas. Eu tinha uma série de músicas que eles achavam boas, só que cantava em português. Eles notaram e passaram a fazer questão que eu regressasse.
Reagiste mal à ideia?
Ao princípio, até achava que eles queriam era despachar-me, mas não. O pessoal rasta tem uma espiritualidade muito grande. Eles tinham estado aqui durante uma época, e sentiram que havia um grande desconhecimento, que o reggae não estava ainda implantado, e na altura já estava a ser bem movido no mundo. Acabei por achar boa ideia voltar para Portugal por essa necessidade de cantar em português. O reggae é para as pessoas, tem de ser cantado, a música tem que ser explicada e entendida. E como o Bob Marley sempre disse que esta música iria espalhar-se pelo mundo todo, essa ideia também me fez trazê-lo para Portugal. A juntar a isso, havia o movimento dos músicos angolanos que ajudaram a fazer a revolução, as mensagens que houve aí… isso tudo para mim na época foi uma grande fonte de inspiração.
Aí apareceram os Kussondulola e a sua banda.
Quando voltei, mandei vir músicos de Angola, havia falta de músicos, os de cá estavam envolvidos noutras áreas e eu precisava de gente que viesse de África. Tinha de lhes ir bater à porta, ir a Angola, às origens. Aí arranjei um produtor brasileiro, e lancei o primeiro álbum em português, o “Tá-Se Bem”, que saiu em 1995. Foi um êxito… penso que será um clássico da música moderna e não só, mesmo dentro da música de língua portuguesa como um todo.
Creio termos conseguido mostrar o lado bom do reggae. A bondade, a fé… O álbum fez-me ser o que sou, o resto foi a sequência… é uma música que vai crescendo, não é uma moda.
Para ti o reggae está muito próximo da música angolana?
Sempre o achei muito ligado à música angolana, não sei porquê nem como explicar, mas sempre senti isso e um dia os historiadores de música vão-se aperceber disso. A Kizomba, o Semba e a postura dos músicos da minha terra, tudo isso fez-me seguir o reggae numa vertente angolana.
Como compositor, como defines a situação da música em Portugal?
Eu poria no mesmo saco todos os países de língua portuguesa..são precisos novos trovadores, como o Zeca Afonso, o David Zé, e muitos outros, aquela malta toda que nos ajudou a sermos hoje o que somos. Socialmente estamos com fome de trovadores. É muito importante termos uma linha de conduta segura, que é para a malta nova ir buscar essas origens. É fundamental. Nos tempos que vivemos hoje, fazem falta aí uns heróis. Hoje a quantidade de músicos é tanta que não nos apercebemos dos que são fora de série, que a gente precisa de ter na banca de cabeceira, muitos artistas nos passam ao lado. É uma falha. Precisamos de estar mais atentos, descobrir novas palavras.
Como é possível ainda não teres tocado em Angola?
Convites sempre houve, mas nenhuma hipótese ficou de pé. A oportunidade é agora. Aliás, antes não havia condições: envolvimentos aqui, a música, cursos, família, guerra, etc. Mas este é o ano do Kussondulola aparecer em Angola. Já temos uma produtora, a Avó Lemba, que prepara uma tournée, talvez para Maio. Será o meu regresso.
Para mim, é o ano certo e correcto para voltar a Angola. Vai ser uma emoção muito grande: o povo angolano a receber-me, estarei em casa, isso é que conta. E chega de guerra e de política, o que precisamos é de coisas sociais. Culturalmente falando, queremos dar lá uma força, estou muito envolvido com a juventude angolana, e a malta nova de lá precisa de muita espiritualidade.
Conta-nos um instante inesquecível da tua carreira?
Um dia, fui fazer um concerto no Castelo de Sines completamente lotado. O palco era muito alto, entro, a banda já estava a tocar, começo a cantar. De repente, venho de trás a correr, meto o pé em cima dos cabos que funcionaram como uma roldana e… pumba, caio de cabeça! Fui levado ao hospital, depois voltei para cantar outra vez… Foi inesquecível… Não por ter caído, ou poder ter morrido, nada disso… É que as pessoas durante o resto do concerto ajudaram-me a cantar as minhas canções… foram tão solidárias comigo. Senti-me o amigo duma multidão, nunca os poderei esquecer!
Kussondulola no My Space.
Entrevista por Jorge Ramos, publicada em www.Buala.org.