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Eleições regionais francesas: 2ª volta confirmará recuo da extrema-direita?

A 1ª volta destas eleições traduziu-se num recuo do partido da extrema-direita União Nacional (RN), de Marine Le Pen. As listas macronistas também tiveram resultados fracos, tendo sido, mesmo, eliminadas em três regiões. A segunda volta tem lugar este domingo. Artigo de Jorge Martins
Eleições regionais em França, primeira volta, 20 de junho de 2021 – Foto de Christophe Petit Tesson/Epa/Lusa
Eleições regionais em França, primeira volta, 20 de junho de 2021 – Foto de Christophe Petit Tesson/Epa/Lusa

A 1ª volta das eleições regionais e departamentais, realizada no domingo passado, em França, traduziu-se num recuo do partido da extrema-direita União Nacional (RN), de Marine Le Pen. Apesar disso, aquela formação conseguiu representação em todos os conselhos regionais da França metropolitana.

Quem beneficiou deste resultado foram Os Republicanos (LR), a principal força política da direita clássica, enquanto as listas da macronista A República Em Marcha (LREM) e do seu aliado Movimento Democrático (MoDem) tiveram resultados bastante mais fracos, tendo sido, mesmo, eliminadas em três regiões.

No centro-esquerda, realce para a subida dos ecologistas da Europa Ecologia Os Verdes (EELV) em quase todas as regiões.

Por seu turno, apesar de algumas perdas, em especial para os ambientalistas, o Partido Socialista (PS) deverá manter o controlo de algumas regiões, em especial devido a alianças com os comunistas e/ou com os verdes.

Por seu turno, à esquerda, o Partido Comunista Francês (PCF) apresentou-se, quase sempre, integrado em coligações de esquerda, em especial com o PS, mas também com a EELV ou com A França Insubmissa (LFI). Esta concorreu aliada a uma ou duas daquelas forças em algumas regiões, mas, naquelas onde avançou com listas próprias, ficou sempre abaixo dos 10%, apesar de ter registado pequenos avanços.

Porém, esta 1ª volta ficou marcada pelos elevados valores da abstenção, que, à exceção da Córsega, ficou sempre acima dos 60%, tendo, mesmo, ultrapassado os 70% em duas regiões.

Esta fraca afluência às urnas, embora potenciada pela CoViD, será também consequência das relativamente poucas competências das regiões francesas, algo que é o reflexo da tradicional centralização do país. Não por acaso, na Córsega, onde se assistiu a um alargamento da autonomia territorial, a participação esteve muitos “furos” acima da média nacional.

Um aspeto importante destas eleições regionais e territoriais foi o chamado “efeito de incumbente”, que beneficiou os presidentes regionais cessantes. Assim, na maioria das 17 regiões e coletividades territoriais a sufrágio, todos estão em boa posição para ser reeleitos.

A 2ª volta decorrerá já este domingo e, aí, estaremos em condições de tirar conclusões mais sólidas deste ato eleitoral.

Estas eleições dever-se-iam ter realizado em março, mas, devido ao agravamento da situação pandémica durante o inverno, foram marcadas para 13 e 20 de junho. Porém, com o atraso na campanha de vacinação, em abril, o governo propôs um novo adiamento para setembro, mas a proposta foi mal recebida pela oposição e pelos eleitos regionais e locais. Assim, o Parlamento acabou por aprovar, por questões legais, o adiamento por uma semana, passando a sua realização para 20 e 27 de junho.

A divisão administrativa da França

Do ponto de vista administrativo, a França divide-se em regiões e coletividades territoriais únicas, treze na França metropolitana e cinco nas regiões ultramarinas francesas (ROM), que constituem parte integrante do território francês e da União Europeia. São elas as ilhas caribenhas de Guadalupe e Martinica, o território sul-americano da Guiana Francesa e as ilhas de Reunião e de Mayotte, no Índico.

Para além destas, existem outros territórios fora da Europa, que se encontram na posse da França e assumem o estatuto de coletividades territoriais ultramarinas (COM), semiautónomas: S. Pierre e Miquelon (a leste do Canadá), metade da ilha de S. Martin (a outra pertence à Holanda) e a totalidade da de Saint Barthélémy, nas Caraíbas, e os territórios do Pacífico: a Nova Caledónia, a Polinésia Francesa (onde se situa o Taiti) e o arquipélago de Wallis e Futuna. A primeira destas possui um estatuto especial e realizará, em 2022, um terceiro e último referendo sobre a independência. Nos outros dois (em 2018 e 2020), esta foi rejeitada, mas a margem entre o “sim” e o “não” tem vindo a estreitar-se.

A diferença entre as regiões e as coletividades territoriais únicas é, essencialmente, de natureza orgânica. Assim, as primeiras dispõem de um conselho regional, que é, simultaneamente, órgão executivo e deliberativo, e dividem-se em departamentos, cada qual com os seus órgãos próprios. Já as segundas possuem, igualmente as competências departamentais e nelas funciona o modelo parlamentar, havendo dois órgãos diferentes: a assembleia regional, deliberativa, e o conselho regional, executivo, eleito por aquela.

Na França metropolitana, existem 12 regiões e, desde 2019, a coletividade territorial única da Córsega. No chamado ultramar, há duas regiões (Guadalupe e Reunião) e três coletividades territoriais únicas (Martinica, Guiana e Mayotte).

Até 2014, existiam 22 regiões na França metropolitana (21 no continente e a Córsega). Porém, uma reforma administrativa aprovada pelo Parlamento nesse ano, com efeitos a partir de 2016, levou à fusão de várias entidades regionais, reduzindo o número destas para 13.

No nível territorial inferior, existem 101 departamentos: 96 na França metropolitana e os cinco ultramarinos (DOM), que correspondem ao território das referidas regiões e coletividades territoriais únicas. Nestas últimas, os departamentos continuam a ter existência jurídica, como meras divisões administrativas, apesar de os seus poderes terem sido transferidos para as regiões, deixado, assim, de possuir órgãos próprios. Os restantes possuem um conselho departamental eleito, incluindo os de Guadalupe e Reunião. Por fim, Mayotte constitui um caso particular, constituindo uma coletividade territorial única, mas com estatuto de departamento. Assim, o respetivo conselho departamental exerce as funções próprias de um conselho regional. Por esse motivo, não participou nas eleições regionais, mas apenas nas departamentais.

Os departamentos dividem-se em círculos (arrondissements), que, por sua vez, se subdividem em cantões, mas qualquer delas são meras divisões administrativas. Estes últimos são as circunscrições eleitorais para a eleição dos conselhos departamentais.

Por fim, existiam, no início do ano, 36529 comunas, os municípios franceses, que dispõem de um conselho municipal eleito, presidido pelo/a “maire”. Contudo, a sua dimensão populacional e territorial é equivalente à das nossas freguesias. As maiores cidades (Paris, Marselha e Lyon) dividem-se em círculos (arrondissements) municipais, em número de 20, 16 e nove, respetivamente.

Devido à pequena dimensão dos municípios, o governo deu incentivo para a criação das chamadas intercomunidades, que podem ser metrópoles (nos maiores centros urbanos), comunidades urbanas (na área de influência de cidades médias), comunidades de aglomeração (numa área encabeçada por uma pequena cidade) e comunidades de comunas (nas áreas rurais). Quanto maior a escala, maior o grau de integração e as competências destas.

Sistemas eleitorais diferentes e originais

Se, nas eleições legislativas, a França utiliza o sistema maioritário a duas voltas, o mesmo não se verifica nas regionais.

O sistema eleitoral utilizado nestas apresenta alguma originalidade, mesmo no contexto francês, podendo classificar-se como um sistema de representação proporcional a duas voltas, com bónus maioritário.

Assim, na 1ª volta, as diferentes forças políticas (sós ou, em geral, coligadas) apresentam listas fechadas e bloqueadas (ou seja, que não podem ser alteradas pelos eleitores) e paritárias, sendo obrigatória a alternância sucessiva entre um homem e uma mulher ou vice-versa no ordenamento das pessoas candidatas.

Se uma lista obtiver mais de 50% dos votos, obterá, de imediato, 25% dos lugares no conselho regional. Os restantes lugares são repartidos, através do método de Hondt, por todas as listas que obtenham mais de 5% dos boletins entrados nas urnas, incluindo a vencedora.

Caso nenhuma lista obtenha a maioria absoluta, haverá lugar a uma 2ª volta, a realizar uma semana depois. Para esta, estarão automaticamente qualificadas todas as que tenham conseguido, no mínimo, 10% dos sufrágios expressos (7% na Córsega). Duas ou mais destas podem fundir-se, caso o desejem. Esta prerrogativa é extensiva às listas que tenham obtido entre 5% e 10% dos votos expressos (7% no caso corso), que poderão fundir-se com alguma(s) das qualificadas. Caso não o pretendam ou não encontrem parceiro(s), serão eliminadas e ficarão fora do conselho regional. Já as que não tenham atingido os 5% ficam, desde logo, fora da representação parlamentar.

As fusões acima mencionadas deverão estar concluídas 48 horas após a realização da votação inicial. Depois, no 2º turno, a distribuição dos mandatos obedece, praticamente, ao mesmo critério da 1ª volta. Assim, a lista vencedora receberá, desde logo, 25% dos mandatos, mas, aqui, independentemente de ter ou não ultrapassado a maioria absoluta. Depois, os restantes são repartidos por todas as que tenham ultrapassado os 5% dos votos expressos, vencedora incluída.

Este sistema permite que uma lista que tenha obtido uma vantagem mínima sobre a segunda classificada possa ter uma maioria absoluta na assembleia regional.

Daí que a maioria dos acordos entre as diferentes forças políticas seja feita antes das eleições, seja da 1ª volta, em que as principais forças políticas tendem a procurar aliados entre as mais pequenas, seja entre os dois turnos da eleição, com a negociação das fusões entre listas ideologicamente próximas. Só nos raríssimos casos em que nenhuma obtém a maioria absoluta é que há lugar a acordos pós-eleitorais.

Já as eleições departamentais decorrem num sistema maioritário binominal a duas voltas. Assim, em cada cantão (que funciona como circunscrição), as forças políticas concorrentes apresentam um binómio, constituído, obrigatoriamente, por um homem e uma mulher ou vice-versa. Os respetivos suplentes obedecem à mesma ordenação em termos de sexo.

Depois, as regras são semelhantes às das legislativas. O binómio que obtiver a maioria absoluta dos votos expressos é eleito, desde que a sua votação corresponda a 25% dos eleitores inscritos. Se nenhum obtiver os 50% ou se aquele que os atingir não cumprir esta última condição, haverá uma 2ª volta, uma semana depois, para a qual se qualificarão os binómios que conseguirem um mínimo de 12,5% dos votos do eleitorado total. Se apenas um ou nenhum atingir essa percentagem, passam os dois primeiros. Aqui, não são permitidas fusões, podendo, no entanto, haver desistências. O binómio que conseguir a maioria dos votos no cantão é eleito para o conselho departamental.

Análise regional dos resultados

Dada a geometria variável de algumas listas candidatas nas diferentes regiões e territórios, não existem dados fiáveis a nível nacional. Por isso, optamos por apresentar e analisar os resultados a nível regional e as perspetivas para a 2ª volta, ressalvando já que, devido à elevada abstenção ocorrida no turno inicial, se possam registar algumas surpresas, caso a afluência às urnas aumente de forma significativa no próximo domingo.

Na região do Auvergne-Ródano-Alpes, a lista do LR e seus aliados, encabeçada pelo presidente regional Laurent Wauquiez, antigo líder daquele partido, obteve 43,8% dos sufrágios. Seguiram-se a dos ecologistas da EELV e algumas formações do centro-esquerda e esquerda moderada, que ficou em segundo, com 14,4%, quase duplicando a sua votação. As grandes derrotadas foram a extrema-direita e os socialistas: a lista do RN não foi além dos 12,3% e a liderada pelo PS dos 11,4%, tendo ambas perdido mais de metade da percentagem obtida em 2015. Também vencida foi a lista macronista, do LREM, MoDem e aliados, que falhou por pouco a ultrapassagem da segunda cláusula-barreira, ficando nos 9,9%. Já a esquerda, que apresentou uma lista conjunta da LFI e do PCF, quedou-se por uns modestos 5,6%, o suficiente para evitar a eliminação. Para a 2ª volta, as três listas da esquerda e centro-esquerda fundiram-se, mas, no seu conjunto, somam apenas 31,4%, valor insuficiente para bater a direita, que poderá, eventualmente, contar com alguns votos centristas, pois a lista da maioria presidencial não conseguiu aliados, ficando, assim, fora da eleição e da representação no conselho regional. Logo, Wauquiez, que pertence à ala direita do LR e captou bastantes votos entre o eleitorado do RN, deverá manter-se à frente dos destinos desta região, que inclui a grande metrópole de Lyon.

Na vizinha região da Borgonha-Franco-Condado, a lista do PS, aliada ao PCF, à EELV e outras pequenas formações ecologistas e de centro-esquerda, da incumbente presidente regional Marie-Guite Dufay, foi a mais votada, com 26,5% dos votos, uma subida face às anteriores regionais. Seguiram-se a do RN e seus comparsas, com 23,2%, uma descida significativa face a 2015, quando ficou em primeiro lugar, e, a pouca distância, a do LR e aliados, com 21,0%. Em quarto lugar, situou-se a do LREM, MoDem e outros macronistas, com 11,7%, pelo que, no conjunto, o centro e a direita clássica, que se tinham apresentado juntos há seis anos, melhoraram o seu resultado. Veio depois, a lista ecologista, liderada pela EELV, que, apesar de ter superado a segunda cláusula-barreira, obtendo 10,3%, concordou em se fundir com a dos socialistas e comunistas numa lista única da esquerda. Por fim, a liderada pela LFI, desiludiu, não indo além dos 4,5%, pelo que, ao não passar a primeira cláusula-barreira, ficou, de imediato, eliminada da 2ª volta. Dado o quadro exposto, tudo indica que a presidente manterá o seu cargo, já que a lista conjunta apoiada por PS, PCF e EELV conta, à partida, com o apoio de 36,8% dos votantes da 1ª volta, devendo ainda ter o voto dos eleitores da LFI.

Na Bretanha, as perspetivas são, igualmente, favoráveis para o presidente socialista Loig Chernais Girard, apesar de a lista de PS, PCF e outras forças de esquerda, centro-esquerda e regionalistas, que ficou em primeiro lugar, com 21,0% dos sufrágios, ter perdido bastantes votos. Algo que se deverá ao facto de Jean-Yves Le Drian, antigo presidente regional, se ter passado, “com armas e bagagens”, para o campo macronista, tendo sido ministro dos negócios estrangeiros no governo de Edouard Philippe. Depois, separados por curtas distâncias, seguiram-se as listas encabeçadas por LR (16,3%), LREM e MoDem (15,5%), EELV, com apoio de outros ecologistas e autonomistas (14,8%), que duplicou a sua votação, e do RN e outra extrema-direita (14,3%), que sofreu alguma quebra. Entre os 5% e os 10% ficaram a lista ecologista unipessoal, do ativista ambientalista Daniel Cueff, que obteve 6,8% e aceitou fundir-se com a dos socialistas e comunistas, e a da LFI e outras pequenas formações da esquerda, com 5,6%, mas que não chegou a acordo para se fundir com aquela. Como referimos acima, tudo indica que, face à divisão da direita, os socialistas mantenham o governo da região.

Na região do Centro-Vale do Loire, o primeiro lugar foi, igualmente, para a lista de coligação entre PS e PCF, que tinha a encabeçá-la o presidente da região, François Bonneau, com 24,8% dos votos, um recuo face ao anterior ato eleitoral. Em segundo lugar, ficou a do RN e aliados, com 22,2%, uma descida significativa relativamente a 2015, quando foi a mais votada. Seguiu-se a do LR e seus aliados, com 18,8%, e a liderada por LREM e MoDem, com 16,6%. Por seu turno, a lista da aliança entre ecologistas e esquerda, com a participação da EELV, da LFI e outras formações do centro-esquerda, esquerda e ambientalistas, obteve 10,9%, subindo, muito provavelmente, à custa de eleitores do PCF contrários à coligação com o PS. Para a 2ª volta, entrou numa fusão com a lista de socialistas e comunistas, com a esquerda a partir para esta com o apoio de 35,7% dos votos do 1º turno. Já a lista ecologista independente ficou-se pelos 4,1% e foi eliminada. Daqui resulta que, também aqui, o PS e o seu presidente têm muito boas hipóteses de manter o controlo do conselho regional.

Já no Grande Este, região que inclui a Alsácia, a Lorena e a Champagne-Ardenas, o triunfo coube à direita, com a lista do LR e seus aliados, inclusive dissidentes macronistas, a obter 31,1% dos votos, uma subida face a 2015. Na segunda posição, ficou a do RN, aliada a outras formações da extrema-direita e ruralistas, que se ficou pelos 21,1%, perdendo cerca de 40% do seu eleitorado de então, quando fora, claramente, a mais votada na 1ª volta. Por seu turno, a lista conjunta da esquerda e ecologista, que incluía EELV, PS e PCF e pequenas formações ambientalistas e do centro-esquerda, ficou em terceiro lugar, com 14,6%, enquanto a da maioria presidencial LREM-MoDem passou por pouco a segunda cláusula-barreira, com 10,8%. Por seu turno, a lista da esquerda, liderada pela ex-ministra da Cultura, Aurélie Philippetti, apoiada pela LFI e outras forças da esquerda, inclusive dissidentes socialistas, ficou-se pelos 8,6%, enquanto a do partido Os Patriotas (LP), de Florian Philippot, antigo nº 2 de Marine LePan, e da direita religiosa conseguiu 7,0%, em grande parte à custa do RN. Por fim, o partido autonomista alsaciano Nossa Terra (UL), democrata-cristão, quedou-se nos 3,7%, não passando o primeiro limiar. Não tendo havido quaisquer acordos de fusão para a 2ª volta, tudo indica que o presidente Jean Rottner se manterá à frente da região, apesar de a RN poder contar com muitos votos de LP. Já a de EELV, PS e PCF deverá ter o apoio dos votantes na LFI.

Na região dos Altos de França, no extremo norte do país, a lista do LR e seus aliados, mais dissidentes macronistas, encabeçada pelo presidente regional, Xavier Bertrand, ficou em boa posição para a 2ª volta, ao obter 41,4% dos votos, uma forte subida relativamente às últimas regionais. Esse grande crescimento terá sido obtido, essencialmente, à custa do RN, que, também aqui, perdeu 40% do seu eleitorado de 2015, quando a respetiva lista fora liderada por Marine Le Pen, tendo-se, agora, quedado nos 24,4%. Por sua vez, a conjunta da esquerda, que inclui EELV, LFI, PS e PCF, entre outros, desceu a sua votação, ficando pelos 19,0%, provavelmente vítima de voto “útil” no LR contra o RN. Por seu turno, aqui, a lista da maioria presidencial (LREM, MoDem e outros centristas) ficou abaixo da segunda cláusula-barreira, quedando-se nos 9,1%. Apesar de ter sido eliminada, a trotskista Luta Operária (LO) obteve 3,6%, duplicando a sua votação, um reflexo da subida que registou em toda a França continental. Para a 2ª volta, não houve fusões, pelo que teremos uma eleição triangular, que será, quase certamente, ganha por Bertrand e pelo LR.

A Ilha de França, nome da região parisiense, é aquela onde se prevê o duelo mais animado na 2ª volta e o resultado é mais incerto. A lista do LR e do centro-direita, liderada pela presidente da região, Valérie Pécresse, ficou à frente, com 35,9% dos sufrágios, melhorando o seu resultado de 2015. As restantes ficaram longe daquela, mas próximas entre si. Assim, em segundo lugar, a grande distância, vem a da RN e duas pequenas formações da extrema-direita, com 13,1%, com uma descida percentual equivalente à subida da anterior. Logo após, seguiu-se a ecologista, composta pela EELV e outras forças menores, ecologistas e da esquerda, com 13,0%. Vem, seguidamente, a macronista (LREM, MoDem e pequenas forças centristas), que conseguiu 11,8%. Depois, a do PS e seus principais “compagnons de route”, com 11,1%, no que constitui uma perda de mais de metade dos seus votantes de 2015, seguida da lista da esquerda, resultado de uma coligação entre a LFI, o PCF e outras formações da esquerda, que, com 10,2%, ultrapassou a segunda cláusula-barreira e melhorou o seu resultado de há seis anos. As restantes obtiveram resultados residuais. Para a 2ª volta, há a registar a fusão das três listas da esquerda numa única, sob a liderança do cabeça de lista da EELV, Julien Bayou, que soma 34,3% dos sufrágios obtidos no 1º turno, aos quais se deverão aditar os 1,6% de votantes da LO, o que a coloca a par da lista da presidente regional. A reeleição desta está, assim, dependente da participação eleitoral e da sua capacidade em atrair voto macronista e lepenista, embora a continuação das respetivas listas na liça possa ser um entrave a esse objetivo. Resta saber se a esquerda consegue mobilizar suficientemente o seu eleitorado para tentar arrebatar a região à direita, embora, à partida, Valérie Pécresse, líder do partido Somos Livres (SL), da direita libertária, por ela fundado, pareça deter algum favoritismo.

Na Normandia, a vantagem pende para a direita, já que a lista do LR e seus parceiros, liderada por Hervé Morin, ficou claramente à frente, com 36,9%, uma forte subida face às anteriores eleições regionais. Na segunda posição, e a grande distância, ficou a do RN, com 19,9%, apesar de tudo um recuo significativo face a 2015. Seguiu-se a do centro-esquerda, uma coligação entre PS, EELV e outras forças ecologistas e daquela área política, com 18,4%, uma descida relativamente ao último ato eleitoral, e da LREM-MoDem, com 11,1%. A lista da esquerda, composta pela LFI e pelo PCF e outras pequenas formações, apesar de ter melhorado a sua percentagem, falhou por pouco a ultrapassagem da segunda cláusula-barreira, ao conseguir 9,6%. Realce para o bom desempenho da LO, com 3,1%. Não havendo qualquer acordo de fusão, tudo indica que Morin, membro do partido Os Centristas (LC), do centro-direita, será reeleito sem grandes dificuldades.

Por seu turno, na Nova Aquitânia, a grande região do oeste e sudoeste, o primeiro lugar foi para a lista conjunto do PS, PCF e pequenas formações do centro-esquerda, encabeçada pelo presidente da região, Alain Rousset, com 28,8% dos sufrágios, um pequeno recuo face a 2015. Seguiu a do RN, com 18,2%, uma descida significativa relativamente às últimas eleições regionais. No terceiro posto, vem a do LREM e MoDem, que, aqui, é tradicionalmente forte e conseguiu agregar a União Democrática Independente (UDI), habitual parceiro do LR, que obteve 13,7%. Já a liderada por estes últimos quedou-se pelos 12,5%, tendo visto fugir muitos votos para os macronistas. Logo a seguir, surge a da EELV, coligada com outras pequenas formações ecologistas e do centro-esquerda, com 12,1%. Já abaixo da segunda cláusula-barreira, vêm a lista de O Movimento Ruralista (LMR) e outras formações da direita ruralista e tradicionalista, do antigo candidato presidencial Jean Lassalle, com 7,3%, e a da esquerda, liderada pela LFI e com apoio de dissidentes do PCF, que não foi além dos 5,7%. Também aqui não houve quaisquer acordos de fusão para a 2ª volta, pelo que tudo indica que os socialistas, com o apoio dos comunistas, manterão o controle desta região.

Na vizinha Occitânia, o cenário é relativamente semelhante, embora o número de listas apuradas seja menor. Assim, a do PS, PCF e aliados, da presidente regional Carole Delga, foi a mais votada, com 39,6%, uma forte subida relativamente aos resultados de há seis anos. Vem depois, a grande distância, a do RN, que obteve 22,6%, uma quebra significativa face a então, quando ficara à frente na 1ª volta. A última lista qualificada para o 2º turno foi a do LR e seus parceiros, com 12,2%. Todas as outras falharam a qualificação. Assim, a liderada pela EELV não foi além de 8,8%, com uma pequena descida que lhe foi fatal. Depois, com igual percentagem, a da maioria presidencial LREM-MoDem e aliados. Por fim, a da esquerda, liderada pela LFI, que se quedou nos 5,1%, passando por pouco a primeira cláusula-barreira. Não havendo fusões, a presidente deverá manter-se no cargo e o PS a controlar esta entidade regional.

Por seu turno, no País do Loire, poderemos assistir a uma disputa renhida. Na 1ª volta, a lista do centro-direita, liderada pela presidente Christelle Morançais, do LR, com apoio da UDI e dissidentes do MoDem, obteve 34,3%, um resultado pouco melhor que o de há seis anos. O facto de a líder regional ter substituído o eleito Bruno Retailleau, que foi forçado a demitir-se devido à lei de limitação de mandatos, para se manter como senador, não ajudou. Seguiu-se a lista de aliança entre a EELV e a LFI, que obteve 18,7%, uma forte subida face a 2016, à frente da do conjunto PS, PCF e pequenas formações do centro-esquerda, que se quedou pelos 16,3%, uma quebra grande relativamente ao último ato eleitoral, o que indicia a perda de votos para a anterior. Seguem-se, muito próximas entre si, a do RN, com 12,5%, uma grande descida, e a da LREM, MoDem e parceiros com 12,0%. Já a lista do Dé Pé França (DLF), da direita tradicionalista, e seu parceiro ruralista não passou a primeira cláusula-barreira, não indo além dos 3,0%, apesar da sua razoável implantação na região, em especial na Vendeia, enquanto a LO chegou aos 2,6%. Aqui, há a registar a fusão entre as duas listas da esquerda, o que assegura à resultante o apoio de 35,0% dos votantes da 1ª volta. Ou seja, tal como na de Paris, também aqui a vitória dependerá da afluência às urnas e da capacidade do centro-direita em captar algum voto macronista e lepenista. Caso isso não suceda, a esquerda terá hipóteses de arrebatar a região

Muito disputada poderá ser a Provença-Alpes-Cote d’Azur. Esta foi a única região da França metropolitana onde a lista do presidente incumbente não foi a mais votada na 1ª volta. E foi também a única onde a do RN, agora encabeçada por Thierry Mariani, manteve o primeiro lugar de há seis anos, com 36,4% dos sufrágios, mesmo assim uma ligeira descida face a 2016, quando a sua lista foi encabeçada por Marion Maréchal Le Pen, sobrinha da líder do partido, ultrapassando então os 40%. Em segundo lugar, ficou a coligação do centro-direita e dos macronistas, liderada pelo presidente da região, Renaud Muselier, que substituiu o eleito Christian Estrosi, que se demitiu após a sua eleição para “mayor” de Nice, devido à nova lei da limitação dos mandatos. A lista foi liderada pelo LR, que se aliou-se à LREM e MoDem, num acordo moderado pelo primeiro-ministro Jean Castex, após vários avanços e recuos, e obteve 31,9%, uma subida pouco maior que as perdas da extrema-direita, o que significa que terá captado algum eleitorado desta. Na terceira posição, ficou a lista unida da esquerda, liderada pela EELV, com apoio de PS, PCF e LFI, com 16,9%, menos que há seis anos. Por seu turno, a lista do Cabo Ecologista (CE) e do Partido Animalista (PA), obteve 5,3%, uma subida face a 2016, que lhe permitiu ultrapassar a primeira cláusla-barreira. As restantes tiveram resultados residuais: 2,8% a LO, 2,7% o DLF, 2,2% uma lista regionalista e 1,7% o partido da extrema-direita Liga do Sul (LdS). Para a 2ª volta, não houve fusões, mas a lista da esquerda anunciou a sua desistência, apelando ao voto em Muselier para derrotar o RN. Face à relação de forças existente, tudo indica que este se manterá ao leme da região.

A Córsega é um caso especial, tendo um xadrez político muito próprio, bem diferente do da França continental. Em finais de 2017, teve eleições territoriais para preparar a passagem ao estatuto de coletividade territorial no início do ano seguinte. Nelas, as três principais formações nacionalistas apresentaram-se numa lista conjunta designada Pela Córsega (PàC), que obteve a maioria absoluta dos sufrágios. Gilles Simeoni, do autonomista radical e centrista Façamos a Córsega (FàC), tornou-se presidente do território, enquanto Jean-Guy Talamoni, da independentista de esquerda Córsega Livre (CL) ficou como presidente da assembleia. A terceira componente da coligação foi o Partido da Nação Corsa (PNC), formação autonomista do centro-esquerda. Contudo, as suas três componentes formaram grupos parlamentares separados e apresentaram-se isoladamente nestas eleições. Na 1ª volta, o triunfo, coube à FàC, com 29,2% dos votos. Seguiu-se a lista da direita, liderada pelo chamado Comité Central Bonapartista (CCB) e apoiada por LR e UDI, com 24,9%, uma ligeira descida face ao último ato eleitoral. No terceiro lugar, ficou o PNC, com 13,2% e, no quarto posto, a lista da Renovação (Rinnovu), independentista radical, de Paul-Félix Benedetti, que obteve 8,4%, uma pequena subida, que lhe permitiu qualificar-se para a 2ª volta, pois, recordamos, na Córsega, a segunda cláusula-barreira é de 7%. A grande surpresa foi o mau resultado da CL, que se quedou nos 6,9% e falhou a ultrapassagem daquela. A lista macronista do LREM e de um pequeno parceiro ainda chegou aos 5,9%, mas as restantes ficaram abaixo do limiar dos 5% e foram, de imediato, eliminadas: 4,0% a do RN, 3,8% a liderada pela EELV, com outros ecologistas, 3,2% a do PCF, que perdeu quase metade do eleitorado de há quatro anos, e 0,6% para outra da extrema-direita. Para a 2ª volta, registou-se a fusão das listas do PNC e da CL, única forma de Talamoni se manter na assembleia. Aqui, registou-se a abstenção mais baixa de todo o território francês, cifrada em “apenas” 42,9%. Face aos resultados, tudo indica que a FàC sairá vencedor e Simeoni manterá a presidência, mas, atenção, que a lista da direita poderá ter o apoio da maioria dos eleitores macronistas e lepenista, o que poderá baralhar as contas da 2ª volta. Para ganhar, o líder nacionalista poderá ter de contar com o voto de ecologistas e comunistas, o que não é líquido, pelo menos no caso destes últimos.

Vejamos, agora, a situação nas regiões e territórios ultramarinos.

Em Guadalupe, a lista do presidente da região, Ary Chalus, da Guadalupe Unida, Solidária e Responsável (GUSR), apoiante do presidente Emmanuel Macron, obteve 49,3% dos votos, um ligeiro crescimento face a 2015. Em segundo lugar, ficou a lista de coligação entre a Federação de Guadalupe do PS (FGPS) e a ecologista Caraíbas Ecologia Os Verdes (CELV), com apenas 17,4%, perdendo mais de metade do eleitorado de há seis anos. Por seu turno, a lista da independentista de esquerda União Popular para a Libertação de Guadalupe falhou por pouco a entrada no conselho regional, ao quedar-se pelos 9,4%, mas teve uma enorme subida face às últimas eleições. Já a do Partido Progressista Democrático Guadalupense (PPDG) e do Partido Socialista de Guadalupe (PSG), formações da esquerda socialista e autonomista local, não foi além dos 5,6%. Todas as restantes, incluindo as do LR (3,7%) e do RN (3,4%) não chegaram aos 5%. Logo, não tendo havido fusões, tudo indica que Chalus continue na presidência e o macronismo mantenha a região como seu bastião.

Ao contrário, na vizinha Martinica, prevê-se uma luta renhida. Na 1ª volta, a lista liderada pelo Partido Progressista Martiniquense (PPM), formação autonomista e social-democrata, fundada pelo teórico da negritude, Aimé Césaire, e liderada pelo deputado e ex-presidente do território, Serge Letchimy, ficou à frente, com 31,7%, um recuo importante face a 2015, Em segundo lugar, situou-se a do Movimento Independentista Martiniquense (PIM), uma força política da esquerda, defensora da independência, coligada com outra formação independentista e com o Movimento Ecologista, delegação local da EELV, encabeçada pelo presidente incumbente, Alfred-Marie Jeanne, que obteve 25,8%, um ligeiro recuo face às últimas eleições. Na terceira posição, quedou-se a lista da esquerda, liderada pela LFI, com o apoio de forças autonomistas e de independentistas dissidentes do MIM, que conseguiu 12,0%. A última lista qualificada foi a da senadora Catherine Conconne, social-liberal, com 10,6%. As restantes ficaram abaixo dos 5%, entre as quais a do LR (4,7%), da Federação Socialista da Martinica (FSM), a delegação local do PS (3,6%), a do MoDem (1,4%) e a da LREM (1,1%). Com este quadro, e não tendo havido fusões, é muito possível que o PPM e Letchmy retornem ao poder, a não ser que haja uma forte mobilização eleitoral do MIM para a 2ª volta.

Na Guiana, também se prevê um 2º turno bem animado. No primeiro, a lista do presidente do território, Rudolphe Alexandre, da macronista Guiana União (GU), obteve 43,7% dos sufrágios, um ligeiro avanço relativamente a 2015. Em segundo lugar, ficou a da esquerda e centro-esquerda autonomista, encabeçada pelo deputado Gabriel Serville, do País Guiana (PéysG) e apoiada pela LFI, com 27,7%, logo seguida da do Partido Socialista Guianense (PSG), uma formação da esquerda socialista local, coligada com outras formações de esquerda, ecologistas, independentistas e autonomistas, entre as quais o Walwari, da histórica ativista progressista e antirracista Christiane Taubira, ex-ministra da Justiça. Concorreu, ainda, outra lista da esquerda moderada, que se quedou nos 5,3%, ultrapassando a primeira cláusula-barreira. Para a 2ª volta, as três listas opositoras fundiram-se, somando, assim, a nova lista, 56,3% dos votantes da ronda inicial, no que constitui um desafio a Alexandre, que poderá ter de ceder o seu lugar de presidente a Serville, permitindo à esquerda conquistar o território. Contudo, dada a fraca afluência às urnas no 1º turno, nada está ainda decidido.

Por fim, na Reunião, também é possível uma mudança do poder. Assim, na 1ª volta, a lista da direita, liderada pelo presidente da região, Didier Robert, da formação Objetivo Reunião (OR) e apoiado por LR e outro pequeno partido, ficou em primeiro lugar, com 31,1% dos sufrágios, uma forte descida face a 2015. A segunda posição foi para a lista da esquerda, encabeçada pela histórica Huguette Bello, da força política por ela fundada e denominada Pela Reunião (PLR), apoiada pela LFI, logo seguida da aliança entre o PS, o Partido Comunista da Reunião (PCR) e pequenos parceiros de centro-esquerda e esquerda, com 18,5%. Abaixo da segunda cláusula-barreira, ficou a lista dos Cidadãos da Reunião em Ação, defensora da ecologia e da democracia participativa, tendo à frente uma dissidente da EELV, com 9,9%, e uma lista independente de esquerda, encabeçada por um dissidente socialista, com 7,8%. Eliminada foi a do novo movimento Ansanm, criado por um ex-membro da PLR, que se demitiu do partido, após uma acusação de corrupção, com 4,2%. Por fim, os partidos nacionais tiveram fracos desempenhos e as suas listas foram eliminadas: 2,2% a União para a Reunião (RCR), delegação local do LR, 2,0% a ecologista, liderada pela EELV, 1,7% a do RN e 1,2% a da LO. Entretanto, as três listas da esquerda, incluindo a independente, fundiram-se com vista à 2ª volta, somando 47,0% dos votos obtidos no 1º turno, o que pode permitir a Huguette Bello aceder à presidência do conselho regional, possibilitando à esquerda arrebatar a região à direita.

Que consequências para as presidenciais de 2022?

Estas eleições regionais são as últimas antes das presidenciais do próximo ano e, daí, poderem servir de barómetro para estas.

Para já, os maus resultados de macronistas e lepenistas constituem más notícias para os que serão os dois principais candidatos e que, tudo indica, poderão reconstituir, na 2ª volta, o mesmo duelo de há cinco anos: o presidente Emmanuel Macron e a líder do RN, Marine Le Pen.

Contudo, estas eleições decorrerem num contexto especial e têm em si características muito próprias, a começar pelo sistema eleitoral e pelo chamado “efeito de incumbente”, que favorece os presidentes regionais recandidatos.

Desde logo, há que chamar a atenção para o facto de, no centro-direita, haver uma forte assimetria ao nível da implantação no terreno entre o LR (uma formação que mudou várias vezes de nome, mas é a herdeira da velha direita gaullista) e os partidos apoiantes de Macron, em especial a sua LREM (fundada em 2016, com o objetivo de apoiar a sua candidatura no ano seguinte). Assim, enquanto a primeira tem uma forte e bem oleada organização em praticamente todo o país, a da segunda ainda é algo incipiente, valendo-se mais da popularidade de algumas figuras nacionais.

Por outro lado, embora o RN tenha sofrido um importante revés, a verdade é que, segundo sondagens à boca das urnas, foi o partido mais penalizado pela fortíssima abstenção. Mesmo assim, as suas listas totalizaram, a nível nacional, mais de 18% dos votos, o que mantém as esperanças de Marine Le Pen em passar à 2ª volta.

Apesar de tudo, os resultados são encorajadores para o LR, que, após uma sucessão de desaires eleitorais, parece estar em recuperação, o que lhe permite acalentar esperanças de conseguir levar o respetivo candidato presidencial à 2ª volta.

À esquerda, a EELV é a única força que pode “cantar vitória”, já que melhorou a sua votação na maioria das regiões, tendo ficado em segundo lugar em muitas delas, à frente das listas socialistas e da esquerda. Curiosamente, quando concorreu coligada com o PS, os seus resultados foram menos bons, embora isso tenha ocorrido em regiões com forte implantação da extrema-direita, o que terá levado a algum voto “útil” na direita clássica.

O PS apesar de estar em perda, conseguiu manter o controlo da maioria das regiões, mas ele apenas é garantido pela aliança com outras forças de esquerda, em especial o PCF e, em menor grau, a EELV e, aqui e ali, a LFI. Mas a lista socialista que se apresentou sem o apoio de nenhuma outra força importante da esquerda ou ecologista na região de Paris obteve um resultado bastante fraco, tendo sofrido enormes perdas.

O PCF defendeu-se, concorrendo, na França continental, sempre coligado, ou com o PS ou com a LFI, em alguns casos com a aliança estendida à EELV.

Por seu turno, a LFI, apesar de alguns avanços, acabou por não obter grandes resultados, em especial quando concorreu isolada das outras maiores forças da esquerda. Curiosamente, quando concorreu aliada à EELV e ao PCF, os seus desempenhos foram, em geral, melhores, como sucedeu na região de Paris, onde se apresentou numa lista conjunta com os comunistas.

De salientar, ainda, o relativamente bom desempenho da formação da extrema-esquerda LO, que duplicou a sua votação em algumas regiões, à exceção de Paris. Provavelmente, esse fenómeno estará relacionado com o descontentamento de eleitores da esquerda mais radical com as alianças entre PCF e/ou LFI com PS, EELV e pequenos partidos da esquerda moderada e do centro-esquerda. Na região metropolitana da capital, onde LFI e PCF concorreram em conjunto, a LO estagnou, apesar de a lista ser encabeçada pela sua líder, Nathalie Arthaud.

Resta, agora, saber se a esquerda consegue apostar num candidato comum nas próximas presidenciais, capaz de passar à 2ª volta, evitando que esta se dispute entre o macronismo e a extrema-direita ou entre aquele e a direita clássica. Mas, vendo o que se passou em algumas regiões, onde não houve acordo para a fusão das listas da esquerda, o panorama não parece muito animador.

Artigo de Jorge Martins

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