A primeira fotografia de Gageiro a ser reconhecida é a “Viúva da Nazaré”. Uma mulher de negro ajuda a puxar as redes sob um céu dramático. Foi capa do “Século Ilustrado” em 1963, ganhou inúmeros prémios. A mulher de negro era, então, o estereotipo de Portugal, o céu dramático (seria uma impressão de António Paixão), uma das marcas do pictorialismo tardio que ainda marcava a fotografia portuguesa. Com esta imagem de Gageiro entendemos as suas raízes na tradição da fotografia portuguesa do salonismo e pictorialismo, a maior referência seria Augusto Cabrita.
Os caminhos levaram-no, felizmente, mais para a fotografia social e objetiva que Paul Strand, continuando por Brassai, Cartier Bresson, Walker Evans ou W. Eugene Smith faziam então. Algumas das suas fotografias de Lisboa nos anos 60 fazem lembrar “The Family” do citado Paul Strand na disposição dos grupos e na ambiguidade entre a pose e a espontaneidade.
Gageiro é um fotógrafo da vida, a vida das pessoas é o que lhe interessa. É essa vida que, enquanto fotojornalista (e muitas vezes em fotografias tiradas à margem das reportagens) tenta captar. Glorias do regime, mas sobretudo as vidas das pessoas comuns, muitas vezes de miséria, passaram pela sua objetiva, e nas imagens percebe-se que são estas que o interessam.
Trabalhar durante o Estado Novo, significava confrontar-se com a censura, com uma censura que muitas vezes não deixava nem chegar perto. O principal acontecimento dos anos 60, a Guerra Colonial era disso um exemplo. “Os anos finais da ditadura foram marcados pela guerra colonial. Ao contrário do que acontecia ao mesmo tempo no Vietname e, graças à censura sobre a imprensa, a fotografia não teve um papel importante no seu resultado (…) Apesar de a censura não favorecer a proximidade em relação ao teatro de guerra, cujo conhecimento se queria evitar, o trabalho de alguns foto-jornalistas, entre os quais Eduardo Gageiro, outro colaborador das publicações de O Século, permitia um conhecimento maior de alguns aspetos da vida colonial.”1 A fotografia de um menino vestido de soldado a pagar uma promessa em Fátima, presente na exposição, é um dos melhores retratos desta guerra.
Da repressão, mostrada não só pelas fotografias de cargas policiais, como por um impressionante desfile de policias armados e com os respetivos cães, passa-se à revolução. Nada mais simbólico que o soldado a retirar o retrato do velho ditador que depois de caído da cadeira (não) via o seu regime cair. É simbólica porque estava presente em todas as repartições e salas de aula. Memorável é, também, o Pide apanhado e em cuecas, tal como o regime foi apanhado desprevenido. Foi o tempo do regresso dos exilados e vemos Soares em St.ª Apolónia, tal como Lenine na Gare da Finlândia, mas Soares seria mais um Kerensky vitorioso que um Lenine.
A revolução também são as tropas na rua, a pequena sequência da prisão do Major Pato (mais um sinal de que o poder tinha mudado), a multidão no Largo do Carmo. Nos protagonistas dos tempos seguintes, impressiona Sá Carneiro, a fotografia mostra-o poucos dias antes da morte.
O notoriedade que conseguiu afastou-o um pouco das “hard news” e levou-o para trabalhos de fundo ou de maior prestígio, como o retrato de figuras relevantes da sociedade portuguesa. São interessantes, mas nem sempre os mais marcantes. Valem a pena quando mostram facetas menos conhecidas das personalidades. Sampaio maestro, ou Ramalho Eanes com os seus relógios.
Gageiro para a minha geração foi, como dizia Tó P (António Pedro Ferreira) no programa Fotobox dedicado à exposição, quem nos fez querer ser fotógrafos. Uma referência incontornável.
A exposição são 60 anos da história de Portugal, figuras maiores, momentos decisivos. O antes da revolução, o país cinzento e miserável que contrasta com o brilho e o glamour. O durante, os momentos tensos, a queda do antigo, sobretudo a festa, a festa. O depois, às vezes morno, mas sem querer voltar ao antes.
Vieira da Silva, Amália, Torga, Cardoso Pires, Sampaio, Cunhal, Otelo, Lobo Antunes, Maria Lamas, não encontrei Saramago, lá estão. Como está Fátima, o Largo do Carmo, a Ponte (25 de abril) em construção. Emigrar, trabalhar, comer, rezar, é a vida que aqui está.
Até maio, na Cordoaria, ocasião para ver as fotografias de Eduardo Gageiro. Muitas são apenas a rever, fazem parte da nossa memória coletiva. Outras serão novas, mas sempre magníficas.
Nota:
1 Pinheiro, Nuno, “Uma Breve História da Fotografia no Tempo D’O Século”, in Serrão, José Vicente, ed. Os Séculos d’O Século, 2002, IAN-TT, Lisboa, pp. 39-44, p. 43