Está aqui

Dois terços das terras agrícolas mundiais sob risco de poluição por pesticidas

Um mapa global de terras agrícolas em 168 países revelou que 64% das terras usadas para agricultura e cultura de alimentos corre o risco de poluição por pesticidas. Quase um terço dessas áreas são consideradas de alto risco. Artigo de Henrique Cortez.
Sinal de Perigo de Pesticidas. Foto de Austin Valley/Flickr.
Sinal de Perigo de Pesticidas. Foto de Austin Valley/Flickr.

Um estudo publicado na Nature Geoscience produziu um modelo global que mapeia o risco de poluição causado por 92 produtos químicos comummente usados em pesticidas agrícolas em 168 países. Este estudo examinou o risco para o solo, a atmosfera e as águas superficiais e subterrâneas.

O mapa também revelou que a Ásia abriga as maiores áreas de terra com alto risco de poluição, com a China, o Japão, a Malásia e as Filipinas em maior risco. Algumas dessas áreas são consideradas nações “tigela de comida”, alimentando uma grande parte da população mundial.

Fiona Tang, investigadora da Universidade de Sidney e principal autora do estudo, defende que o uso generalizado de pesticidas na agricultura – apesar de aumentar a produtividade – pode ter implicações potenciais para o meio ambiente, saúde humana e animal.

“O nosso estudo revelou que 64% das terras aráveis do mundo estão sob risco de poluição por pesticidas. Isso é importante porque a literatura científica mais ampla descobriu que a poluição por pesticidas pode ter impactos adversos na saúde humana e no meio ambiente ”, disse Tang.

Os agrotóxicos podem ser transportados para as águas superficiais e subterrâneas por escoamento e infiltração, poluindo os cursos de água e reduzindo o uso dos recursos hídricos.

“Embora as terras agrícolas na Oceânia mostrem menor risco de poluição por pesticidas, a bacia de Murray-Darling da Austrália é considerada uma região de grande preocupação devido aos problemas de escassez de água e sua alta biodiversidade”, disse o co-autor Federico Maggi da Escola de Engenharia Civil e do Instituto de Agricultura de Sydney.

Segundo Tang, “globalmente, o nosso trabalho mostra que 34% das áreas de alto risco estão em regiões de alta biodiversidade, 19% em nações de rendimento baixo e média-baixo e 5% em áreas com escassez de água”.

Há a preocupação de que o uso excessivo de pesticidas desequilibre a balança, desestabilize os ecossistemas e degrade a qualidade das fontes de água das quais humanos e animais dependem para sobreviver.

As perspetivas futuras

Prevê-se que o uso global de pesticidas aumente à medida que a população global se aproxima de 8,5 bilhões até 2030. “Num clima mais quente, à medida que a população global cresce, o uso de pesticidas deve aumentar para combater o possível aumento de invasões de pragas e alimentar mais pessoas”, disse o professor associado Maggi.

Fiona Tang salienta que “embora proteger a produção de alimentos seja essencial para o desenvolvimento humano, reduzir a poluição por pesticidas é igualmente crucial para proteger a biodiversidade que mantém a saúde e as funções do solo, contribuindo para a segurança alimentar.”

Por sua vez, outro dos co-autores do estudo, Alex McBratney, diretor do Instituto de Agricultura da Universidade de Sydney, adianta que “este estudo mostra que será importante monitorizar cuidadosamente os resíduos anualmente para detetar tendências a fim de gerir e mitigar os riscos dos pesticidas usar.”

Os autores do estudo recomendam “uma estratégia global de transição para um modelo agrícola global sustentável que reduza o desperdício de alimentos e, ao mesmo tempo, reduza o uso de pesticidas”.


Editado por Henrique Cortez para o EcoDebate a partir de Tang, F.H.M., Lenzen, M., McBratney, A. et al. Risk of pesticide pollution at the global scale. Nat. Geosci. (2021). Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net.

Termos relacionados Ambiente
(...)