"Doentes com cancro estão a ser punidos"

24 de julho 2012 - 0:15

O presidente do núcleo do Norte da Liga Portuguesa contra o Cancro acusa o Governo de deixar 400 mil sobreviventes de cancro sem qualquer apoio. "O que se está a passar nesta área é perverso e perigoso", afirmou Vítor Veloso en entrevista ao jornal Público. Para o deputado João Semedo, "esta política é particularmente desumana quando falamos de cancro".

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Doentes já não têm dinheiro para o transporte e sobreviventes ainda pagam taxas moderadoras para consultas e exames indispensáveis. Foto Paulete Matos.

A promessa do ministro da Saúde de dar isenção de taxas moderadoras nos exames e consultas aos sobreviventes de cancro após cinco anos livres da doença não está a ser cumprida, afirmou nesta entrevista o presidente do núcleo do Norte da Liga Portuguesa contra o Cancro, que revela ainda receber o quádruplo dos pedidos de ajuda do que há cinco anos atrás.  



"É preciso que haja uma portaria, diretriz, circular, qualquer coisa

oficial que diga que estes doentes estão efectivamente isentos", reclama Vítor Veloso, lembrando que Paulo Macedo prometeu isso mesmo há mais de dois meses, sem que nada tenha mudado entretanto. Atualmente, "os doentes reclamam que estão isentos e a parte administrativa diz que não sabe de nada e, por isso, acabam por pagar", relata o dirigente da LPCC.



Mas mesmo os doentes que ainda não viram tréguas na luta contra o cancro estão a passar por grandes dificuldades, por causa dos cortes na Saúde e do fim das isenções das taxas moderadoras. "Houve muitos doentes que faltaram a consultas e tratamentos de radioterapia e quimioterapia e que continuam a faltar. Repare que isso faz a diferença entre uma cura ou a sobrevivência com qualidade e uma morte desnecessária", alerta Vítor Veloso.

Para o deputado bloquista João Semedo, "só o governo não reconhece esta realidade e conduz-se exclusivamente pela redução da despesa em saúde, indiferente às consequências dessa política na evolução do estado dos doentes". Comentando as declarações do responsável pela LPCC no norte do país, Semedo considera que Vítor Veloso é "um observador particularmente bem colocado para identificar os impactos da crise social e dos cortes verificados no SNS no acesso dos doentes oncológicos quer ao diagnóstico em tempo útil quer ao tratamento mais adequado, seja ou não cirúrgico, e aos medicamentos".

"As próprias estatísticas oficiais revelam que há doentes a faltar às consultas e que as listas de espera para cirurgia oncológica estão novamente a crescer. Muitas dessas cirurgias são realizadas fora do tempo clinicamente recomendado", reconhece o deputado do Bloco.

O dirigente da Liga apelou ainda aos doentes para que apresentem mais queixas e percam o medo de represálias nos serviços que acompanham o seu tratamento. "Aliás, quando um doente faz queixa, provavelmente, vai ser mais bem tratado", aconselha. Vítor Veloso não poupa críticas à irracionalidade dos cortes nem às formas como os hospitais tentam contorná-los, acabando por gastar ainda mais dinheiro do que seria necessário.



"Os médicos, muitas vezes, tentam contornar alguns problemas e, por exemplo, pedem exames muito mais caros, mas que não têm lista de espera para acelerar as coisas. E o hospital ainda não percebeu que vai gastar mais dinheiro do que se efectivamente respondesse atempadamente aos doentes", explica.



Vítor Veloso defende que o tratamento do cancro está subfinanciado e prevê que surjam em breve muitos casos fatais por causa do tratamento não ter sido feito a tempo. "Se continuarmos com este tipo de atitude, se não se fizer nada, pode

ter a certeza que as mortes por cancro vão aumentar também por falta de tratamento atempado ou adequado", defendeu.