No texto escrito a pedido da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) e intitulado “Como quem chora e ri com a própria sombra”, o director do Bando refere que “a arte de contar histórias, na mistura do discuro direto com o indireto, introduziu a habilidade de construir outras vozes, outras pessoas a que poderiam corresponder outras sombras”.
“Há mais de cinquenta mil anos ter-se-á colocado o problema da representação das coisas, e consequentemente o da memória e o da representação”, sublinha João Brites, acrescentando que "ainda hoje é este mesmo problema que todos os dias tentamos resolver quando nos confrontamos com os públicos, e é ao procuramos desenvolver essas competências estruturantes que nos apercebemos da sua importância na coesão das identidades individuais e colectivas.”
Noutro passo, João Brites faz referência à Cornucópia, afirmando: “Durante dezenas de anos a continuidade de projetos como o da Cornucópia cativou um lugar na memória de cada um” e prossegue: “ Aquela sala de teatro que, como uma caverna, persistentemente escavaram, - e onde partilhámos tantas sombras que nos ajudaram a crescer como pessoas e como artistas,- passou agora para as mãos de quem sinta a necessidade de a usar preservando o seu espírito”.
N sua mensagem o dramaturgo não esquece aqueles que nunca vão ao teatro dizendo que “se um dia tiveres esse desejo, tem a certeza de que te receberemos de braços abertos” e chama a atenção que “nessa altura vamos chamar a tua atenção para o facto de não existir propriamente um Teatro, mas muitas maneiras diferentes de fazer Teatro e que, a pouco e pouco, precisarás de te confrontar com essa multiplicidade de estilos para seres capaz de fazer a tuas escolhas”.

João Brites deixa ainda uma advertência ao escrever que “não conseguimos deixar de pensar que, se queremos combater as ditaduras, os fascismos e outros fudamentalismos, é também ao Teatro que precisamos de dar apoio, porque é a única maneira de a maior parte das pessoas a ele terem acesso, ampliando o seu espírito crítico, emancipando-se na prática de uma cidadania mais ativa”.
“Se cada criança do meu país tivesse a possibilidade de assistir pelo menos a um espetáculo de teatro por ano, se se conseguisse rentabilizar o investimento que o Estado fez nos últimos anos ao promover escolas, professores, programas, construção ou recuperação de teatros […] poderíamos verificar que não somos suficientes e que nada vale sermos menos a pensar que assim cada um teria mais recursos”.
Iniciativas em todo o país
Para assinalar o dia, o Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, tem um conjunto de atividades que decorrerão ao longo de todo o dia e têm entrada livre.
Entre estas, cabe destacar uma visita guiada à exposição Teatro em Cartaz: A coleção de D.Maria II, às 14.00h, com curadoria de Lizá Ramalho e Artur Rebelo. Às 16:00 e às 19:00, haverá a apresentação da "ação teatral" de curta duração Ethica. Natura e origine della mente, do encenador e artista plástico italiano Romeo Castellucci.
Depois da última apresentação desta ação, os espetadores poderão participar numa conversa com Romeo Castellucci que terá a moderação do poeta José Tolentino de Mendonça.
Às 21.30h, será apresentado uma criação da encenadora e atriz, Mónica Calle intitulada “Ensaio para uma cartografia".
Ainda em Lisboa, o Chapitô propõe-se celebrar as artes cénicas com a magia do circo com "O Teatro e o Circo". Este espetáculo conta com os alunos daquela companhia e também com os artistas italianos residentes artísticos do Chapitô, Katharina Gruener e Luca Sartor.
Por seu turno, na cidade do Porto, o Teatro Nacional São João (TNSJ) e o Mosteiro de São Bento da Vitória (MSBV) promovem três visitas guiadas, de entrada gratuita, à exposição "Noites Brancas", que classifica como "uma travessia por territórios cénicos que fazem a memória do teatro".
Além desta iniciativa, no foyer do São João e no átrio do mosteiro, é inaugurada a Feira do Livro de Teatro, que decorre até sexta-feira, 31 de março, e onde estarão disponíveis títulos editados e coeditados pelo TNSJ.
No âmbito da 19ª Semana Cultural da Universidade de Coimbra e do Festival Encontros Novas Dramaturgias (END-2017) o Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), leva à cena, às 22.00 horas o espetáculo, A Constituição, do dramaturgo Mickael de Oliveira.
A Companhia de Teatro de Almada comemora a data com iniciativas, de entrada livre, a partir das 17.00h. Durante o dia, no Teatro Municipal Joaquim Benite, haverá a leitura da peça Migrantes, de Matéi Visniec, o lançamento do terceiro volume da coleção "O sentidos dos mestres", dedicado ao encenador Ricardo Pais, e dois espetáculos com a peça A noite da iguana, de Tennessee Williams, encenada por Jorge Silva Melo, e Bonecos de Luz, de Romeu Correia, com encenação de Rodrigo Francisco.
Antes do espetáculo A noite da Iguana, Jorge Silva Melo irá ler a mensagem do Dia Mundial do Teatro deste ano, da autoria da atriz francesa Isabelle Huppert.
Em Tondela, as comemorações tiveram início na passada sexta-feira, com uma produção de teatro radiofónico, criação artística conjunta da companhia Trigo Limpo Teatro ACERT com a Fundação Lapa do Lobo (FLL).
A Ilha Desconhecida, adaptação do conto de José Saramago, será apresentada em Tondela pode ainda ser vista no dia 27 de março, numa coprodução da Fundação José Saramago.