Desalojados enfrentam militares israelitas

13 de agosto 2010 - 15:54

Nas últimas semanas, mais de mil soldados e polícias antimotim de Israel fortemente armados, às vezes acompanhados por helicópteros e tractores, enfrentaram palestinos sem tecto e pessoas solidárias com eles, quando tentavam reconstruir as aldeias arrasadas pelos israelitas. Por Mel Frykberg, da IPS

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Os protestos contra a destruição da aldeia beduína de Al Araqib chegaram às ruas de Telavive. Foto ygurvitz/Flickr

Al Araqib, aldeia beduína no deserto israelita de Neguev, foi destruída em uma operação realizada de madrugada no final de julho, para dar lugar a um parque do Fundo Nacional Judeu, encarregado de programas de colonização. O povoado foi derrubado apesar de um recurso tramitar no tribunal distrital de Beer Sheva, apresentado pelos moradores.



Centenas de palestinos, entre eles 200 crianças, ficaram sem ter onde morar. Pelo menos 45 casas, várias cooperativas agrícolas, currais e hortas foram arrasados, enquanto 800 oliveiras foram arrancadas. Entre os feridos havia um membro árabe-israelita do Knesset, o parlamento unicameral de Israel.



A destruição da aldeia ocorreu dois dias depois de o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, ter falado em uma reunião do governo sobre a “ameaça” de perder a maioria judia na região do Neguev. Os beduínos são 25% da população no norte desse deserto, mas ocupam menos de 2% da terra.



“Israel demoliu milhares de casas beduínas no Neguev desde os anos 70 e mais de 200 desde 2009”, informou a organização Human Rights Watch (HRW). “A Administração de Terras também começou a jogar herbicidas nos cultivos dos aldeões, em 2002, para provocar uma evacuação, prática considerada ilegal pelo Supremo Tribunal israelita em 2007”, acrescentou o grupo.



A HRW informou que milhares de beduínos foram deslocados após a criação do Estado israelita, em 1948. Nos anos 50 e 60, Israel aprovou leis que permitiam ao governo reclamar grandes áreas do Neguev, onde os beduínos já usavam as terras. As autoridades de planejamento ignoraram a existência das aldeias quando criaram seu primeiro plano-mestre para a região, no final da década de 60.



O Fórum para a Coexistência no Neguev, grupo pelos direitos dos beduínos, disse em uma declaração que Al Araquib existia antes da criação de Israel e que os residentes voltaram ao lugar após terem sido desalojados pelo Estado em 1951. Dezenas de milhares de beduínos vivem em aldeias “não reconhecidas” no sul. Israel as considera “ilegais” e nega-se a oferecer serviços básicos e infraestrutura.



Por outro lado, as autoridades concedem grandes porções de terra e fundos públicos a israelitas judeus para que instalem fazendas na área, ligadas a redes nacionais de electricidade e água, apesar da falta de adequadas autorizações de planejamento, segundo o grupo de direitos humanos Adalah. As fazendas foram legalizadas há cerca de um mês.



“Está claro para nós que esta ação do governo israelita tem motivos políticos e é parte de uma discriminação sistemática. Aqui temos um grande número de árabes israelitas que querem ser parte de Israel e assim são tratados. Parece que o governo está dando tiros no próprio pé, porque as consequências serão ruins”, disse à IPS Noga Malkin, da HRW.



Há cerca de dez dias, os choques aconteceram novamente quando as forças de segurança israelitas dispersaram os habitantes de Al Araqib e colaboradores que tentavam reconstruir a aldeia. Enquanto isso, ao longo da Linha Verde, a fronteira internacionalmente reconhecida entre Israel e Cisjordânia, muitos palestinos ficaram sem casa nas últimas semanas. As autoridades de Israel declararam a antiga localidade de Farasiya, no norte da Cisjordânia, como zona militar fechada, e a arrasaram.



Em meados de julho, a Administração Civil de Israel, que controla grandes áreas da Cisjordânia, demoliu 55 estruturas, incluindo abrigos para animais e instalações agrícolas. No dia 7, os moradores de Farasiya, junto com simpatizantes israelitas e estrangeiros, tentaram pela terceira vez reconstruir a aldeia. Farasiya fica dentro da Área C da Cisjordânia, sob completo controle israelita. Segundo os Acordos de Oslo de 1933, esta área, que inclui aproximadamente 60% do território cisjordano, deveria ser paulatinamente entregue à Autoridade Nacional Palestina.



No entanto, Israel foi estendendo e estabelecendo novas colónias, bem como explorando terra palestina para benefício de assentamentos judeus na área, violando o direito internacional e resoluções da Organização das Nações Unidas. Farasiya fica perto de cinco colónias ilegais judias.



O Escritório para a Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (Ocha) informou que mais de cem estruturas foram demolidas no Vale do Jordão no último mês. “A série de demolições traz preocupação de que as autoridades israelitas as aumentem na Área C. Mais de três mil ordens de demolição aprovadas por funcionários israelitas estão pendentes”, disse o Ocha.



Moradores das duas aldeias destruídas e gente solidária prometeram regressar para reconstruí-las, enquanto as autoridades israelitas alertaram para novas acções. “Os últimos planos do governo e o nível de força usado sugerem que acontecerão combates mais longos e mais intensos”, advertiu Noga à IPS.


Artigo Envolverde/IPS