Está aqui

Conheça os "lesados do Chega"

Em 2015, o mandatário nacional do Chega, Pedro Arroja, criticou a “passividade do Governo” face ao caso BES e aos seus lesados. Mas a sua empresa de investimentos financeiros causou perdas de centenas de milhares de euros a, pelo menos, 20 pessoas.
Foto de Miguel A. Lopes, Lusa.

A partir de 2016, na sequência dos comentários de Pedro Arroja sobre as deputadas do Bloco de Esquerda no Parlamento, surgiu a página de Facebook “O Pedro Roja já enoja”, que conta com cerca de 400 seguidores. Foi a partir desta plataforma que o Setenta e Quatro conseguiu reunir alguns contactos de pessoas que, "de alguma forma", eram lesadas em comentários, políticas ou situações financeiras.

Foram quatro as queixas encaminhadas à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários - CMVM sobre perdas de milhares de euros em depósitos, ativos e comissões indevidas que os lesados nunca reaveram por parte da Pedro Arroja - Gestão de Património S.A. Mas o Setenta e Quatro reuniu, ao todo, testemunhos de 20 pessoas em situação idêntica. João Pedro Fernandes, Joana Cunhal e Ricardo Burestien figuram dessa lista. Em causa estão perdas que variam entre os 50 mil e os 150 mil euros na totalidade.

“Investimos e o pouco que pudemos reaver, foi-nos vedado”, explicou Joana Cunhal ao projeto de informação digital.

Tudo terá começado com a compra de um produto de mercado financeiro. Pedro Arroja lançou um produto financeiro similar a uma aposta, o Satellite, criado pela empresa Pedro Arroja - Gestão de Património S.A. O Setenta e Quatro explica que “a maioria dos investidores particulares limitava-se a assinar e a depositar o seu dinheiro para que o gestor de carteira o fizesse render”. Este produto deveria revolucionar o mercado e ter alta rentabilidade. Certo é que, dois anos após a sua apresentação, a empresa registava uma queda de 350 mil euros anuais (de capital e montante passivo) entre os anos 2007 e 2008.

João Pedro Fernandes e outros clientes de Arroja viram a sua carteira, entregue para gestão, desvalorizar exponencialmente e, entre janeiro e fevereiro de 2008, os seus contratos foram cessados sem qualquer tipo de aviso prévio ou motivo.

“Omitindo factos contratuais relevantes à minha relação com a empresa cessaram o meu contrato de gestão de carteira unilateralmente sem qualquer explicação”, apontou João Pedro Fernandes.

Mais tarde, a empresa onde os lesados de Arroja investiram as suas poupanças desapareceu, dando lugar à AMP Gestão de Ativos - Sociedade Gestora de Fundos de Investimento Mobiliário S.A., também de Pedro Arroja, que nunca foi responsabilizado.

Esfumaram-se as poupanças dos lesados e esfumaram-se as empresas de Arroja

Conforme lembra o Setenta e Quatro, em 2015, Pedro Arroja criticou no canal Porto Canal a “passividade do Governo” face ao desaparecimento do BES e às centenas de lesados que resultaram da sua resolução: “milhares e milhares de pessoas viram traída a confiança (que o Estado deveria ter garantido) na mais antiga instituição bancária do país e, de um momento para o outro, as poupanças de uma vida esfumaram-se”.

Mas é exatamente isso que terá acontecido com as poupanças e investimentos dos lesados de Arroja: esfumaram-se.

O projeto de investigação digital sublinha que a Gestão de Patrimónios foi o “bilhete de entrada” que o professor universitário e economista precisava, mas avança que “as empresas de Consultoria Financeira e Gestão de Fundos de Investimento permitiram que o seu nome deixasse de ser desconhecido nas diversas frentes de mercado”. O mandatário nacional do CHEGA nas eleições legislativas de 2022, é, de acordo com o Setenta & Quatro, o acionista principal da Pedro Arroja - Sociedade Gestora de Participações Sociais (SGPS S.A.) ao deter 81%. Esta empresa é, por sua vez, detentora de 57% de todas as outras empresas do universo Arroja, que “se começaram a distinguir no mercado financeiro a partir do final dos anos 1990”.

O Setenta e Quatro tentou apurar a atual situação de cada uma destas empresas junto da CMVM e do Banco de Portugal, concluindo que, das cinco, apenas a Pedro Arroja - SGPS, S.A. está em atividade. A Pedro Arroja - Gestão de Património S.A foi cancelada, a pedido da própria entidade em 2018, e a AMP Gestão de Ativos - Sociedade Gestora de Fundos de Investimento Mobiliário S.A. foi vendida em 2014, e viu ainda o seu registo cancelado pelas entidades supervisoras em 2018, na sequência da revogação da autorização do Banco de Portugal. No que respeita às restantes empresas, as mesmas entraram em liquidação total nos últimos três anos.

Já a Pedro Arroja - SGPS, S.A. aparenta não ter sede, quaisquer contactos: “Esfumou-se”, escreve o Setenta e Quatro.

A par de ser conhecido pela sua atividade no mercado financeiro, Pedro Arroja tem-nos brindado com o seu apoio fervoroso à privatização da polícia, dos tribunais, ao fim da legislação que impede o trabalho infantil. São conhecidos ainda os seus ataques ao Estado Social. Arroja chegou a defender a mercantilização do voto. Propôs que quem não quisesse votar numas eleições poderia vender o seu voto e afirmou ainda que o direito ao voto deveria ser apenas permitido a maiores de 35 anos. Também lhe são conhecidas as críticas à presença de mulheres nas direções partidárias, vista como “um sinal de degenerescência”, e elogio rasgado ao "milagre económico” de António de Oliveira Salazar.

Termos relacionados Sociedade
Comentários (1)