Chile: Estado vai finalmente procurar crianças raptadas pela ditadura

04 de março 2024 - 10:17

Passados 50 anos do início da ditadura de Pinochet, um governo chileno vai assumir a responsabilidade de procurar as mais de 20.000 crianças que foram raptadas.

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Foto Hijos y Madres del Silencio.
Foto Hijos y Madres del Silencio.

A ditadura de Augusto Pinochet durou desde 1973 até 1990. Durante esta, como em vários outros regimes de extrema-direita, como o franquismo ou a ditadura argentina, milhares de crianças foram raptadas das suas famílias e entregues a adoções ilegais. A justiça do país estima que terão sido mais de 20.000.

Esta sexta-feira, o governo chileno, por intermédio de Luis Cordero, ministro da Justiça, afirmou que o Estado assumirá, pela primeira vez, um papel ativo na busca das pessoas raptadas e na reunificação das famílias então despedaçadas. Durante o quarto Congresso Internacional de Adoções Ilegais e Tráfico de Crianças no Chile, organizado pela organização não governamental Hijos y Madres del Silencio, o governante disse que “é tempo de que o Estado tome conta do assunto” e que sociedade assuma “a sua responsabilidade coletiva pelo que se passou”.

Nas suas declarações, citadas pela Associated Press, deixou mais detalhes do que está planeado para um anúncio a fazer nas próximas semanas mas adiantou que “o Estado do Chile vai empreender ações de multi-setorial e de coordenação com a sociedade civil em prol do direito de cada uma das suas pessoas a conhecer a sua origem e da imprescindível reunificação familiar”.

A situação é complicada não só por causa do tempo passado mas também pela dispersão dos raptados. As “adoções” foram feitas não só no interior do próprio Chile mas sobretudo para países como os Estados Unidos, França, Suécia e Itália.

Para além disso, como o próprio Cordero fez questão de assinalar, os raptos envolveram “instituições distintas, agentes do Estado, profissionais de saúde, um sistema institucional com legislação frouxa”. Ou seja, desde médicos, a assistentes sociais, juízes, responsáveis da Igreja Católica, funcionários dos registos a tantos outros, foram muitos os envolvidos ao longo de décadas o que causa uma verdadeira “fratura social”, assinalou o membro do governo.

Do lado da organização do evento, a notícia foi recebida com felicidade. A presidente dos Hijos y Madres del Silencio, Marisol Rodríguez, sublinha o facto de pela primeira vez um governo assumir esta responsabilidade. A sua associação tem desde há ano trabalhado para reunificar famílias o que conseguiu com sucesso mais de 300 vezes. Na justiça tudo corre mais lentamente. Há mais de 1.200 casos a serem investigados mas numa fase muito inicial dos procedimentos de averiguação.

A inteligência artificial ao serviço da descoberta da verdade

Os Hijos y Madres del Silencio continuarão entretanto a sua demanda seja como for. Marisol Rodríguez diz que “famílias na sua maioria pobres” enfrentaram “o horror dos horrores” e não se conformam.

Nessa mesma conferência, anunciaram o lançamento de uma campanha internacional denominada Hijos de la Dictadura durante a qual se recorrerá a técnicas de “genética digital” e de inteligência artificial de forma a tentar reconstruir a aparência atual das crianças sequestradas. Como foram raptados na sua grande maioria quando eram recém-nascidos, não há sequer fotografias delas que permitissem identificá-las. As novas tecnologias vão tentar colmatar essas falhas.

A primeira destas imagens já foi feita e em breve se criarão vídeos que se pretendem tornar virais sobretudo nos países de destino deste crime de forma a possibilitar mais reencontros familiares.