O que se tem passado nas negociações com a Grécia é vergonhoso. Um discurso político que tem estado assente em mitos. Os mitos gregos.
Mas mitos sobre a Grécia que não são verdade.
O 1.º mito é que houve uma injeção de dinheiro europeu para salvar a Grécia. E o Financial Times, que como se sabe é tudo menos um jornal de esquerda, publicou ontem para onde é que foi o o dinheiro dos tais biliões que era suposto terem salvo os gregos. E dos 254 biliões foram para o o estado grego 27 biliões. Quarenta e cinco foram perdidos, desperdiçados pelas medidas de redução de défice desenhadas pela troika que falharam, que erraram, que só serviram para afundar o país. E mais de 180, praticamente 190 biliões foram inteirinhos para o sistema financeiro.
Ou seja: em cada dez euros que foram postos na Grécia, um euro serviu para o povo grego. E os outros nove serviram para salvar o sistema financeiro, principalmente a banca francesa e a banca alemã.
E agora dizem aos gregos que têm de pagar esses dez euros inteiros, que não foram para eles, que foram para o sistema financeiro francês e alemão.
Isto é um assalto, e é um assalto em larga escala ao país.
O 2.º mito é que a culpa é do Syriza. Antes do Syriza, antes da esquerda, estava tudo bem na Grécia! Parece que se esquecem que foram os amigos do Partido Socialista, do PSD e do CDS gregos, que criaram um sistema em que os armadores das maiores empresas – veja lá – nem sequer pagam impostos. Está na Constituição. Eu bem sei que o primeiro-ministro português talvez gostasse de ter uma Constituição assim, em que os armadores não pagam impostos – mas, veja lá, isso não foi criado pela esquerda, foi pelos vossos amigos, e vocês estiveram calados enquanto a Europa estava a ser assaltada desta forma. Como estiveram calados quando 3 milhões de pessoas perderam o acesso à saúde, ou as pessoas ficaram sem luz, ou água, ou o desemprego jovem subiu até aos 60%.
Calados, sempre.
E agora, dizem que a culpa é do Syriza que chegou ao governo há poucos meses e está a tentar informatizar sistemas fiscais da Segurança Social para não haver fuga. Para que quem deva pagar impostos pague impostos – e, claro, responder à crise humanitária e aos direitos humanos.
O 3.º mito é que os gregos querem uma exceção, e não pode haver exceções para a Grécia.
Vamos lá ver isto: é que não tem havido outra coisa senão exceções para a Grécia. Porque a Grécia não pode estar nos mercados porque não tem acesso ao Quantitative Easing, ou seja, à liquidez do BCE a que todos os outros países têm acesso e a Grécia não tem. Como a Grécia também não tem a dívida assegurada em mercado secundário, como têm todos os outros países e o BCE nega à Grécia.
Mais: o BCE tem 1.900 milhões de euros gregos retidos ilegalmente.
Exceções para a Grécia todas – para a afundar.
E isso é vergonhoso.
O 4.º mito é que há uma intransigência do Syriza. E vamos lá a essa mito, porque também não é verdade.
Têm sido feitas negociações, e do outro lado é que está a intransigência.
De tal forma é, que neste momento o que divide a Grécia dos outros países é 0,5% do PIB grego, que corresponde – vejam bem, para ver se conseguem ver o número de tão pequeno que é – 0,01% do PIB europeu. E os senhores, mesmo assim, não cedem.
Sabem porque não cedem? Porque os gregos não querem cortar mais pensões que já foram cortadas em 60% – vejam lá que loucura, que irresponsabilidade! Um governo que já viu as pensões cortadas 60% quer proteger os pensionistas, e em vez de cortar mais nos pensionistas quer cortar nos contratos militares! E os senhores não deixam, sabem porquê? Porque estão a proteger as grandes empresas alemãs que querem continuar a sangrar a Grécia e a impor contratos militares que são escandalosos, e aí é que está o problema.
Há depois um outro mito que é muito perigoso e tem a ver com a Grécia, e tem a ver com toda a Europa.
Dizem-nos que, aconteça o que acontecer, estaremos bem.
Não é verdade.
Nós lembramo-nos quando nos disseram que a crise financeira era só nos Estados Unidos; depois chegou à Europa e quatro biliões e meio de dinheiro europeu foram para o sistema financeiro, e estamos na crise em que estamos.
Lembramo-nos quando nos disseram que Portugal não era a Grécia e, um ano depois, Portugal tinha a troika, como a Grécia também tinha. Lembramo-nos também de ouvir Cavaco Silva dizer que Portugal é sólido, exatamente com a mesma convicção com que dizia que o BES era sólido. Os senhores são irresponsáveis que estão a atear fogo sobre a Europa. E, neste momento, o que é preciso é a sensatez de defender as pessoas de defender as pessoas de um sistema financeiro que afunda a Europa.
E termino com isto: é preciso também a sensatez de dizer que quando morre gente no Mediterrâneo não chegam lágrimas de crocodilo, é mesmo preciso olhar para o problema dos refugiados, abrir a porta e ter uma política, essa sim, decente e de direitos humanos.