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Capa da Vogue Portugal gera vaga de críticas pela sua representação da doença mental

A revista de moda dedicou um número à “loucura” e uma das capas foi acusada de insensibilidade, de preconceito e de romantizar a doença mental e os tratamentos asilares desumanos.
Pormenor da capa polémica da revista Vogue Portugal.
Pormenor da capa polémica da revista Vogue Portugal.

Uma capa da Vogue Portugal tornou-se esta semana assunto internacional. E não por ter entrado na moda ou pelas melhores razões. O número de julho/agosto desta revista, dedicado à “loucura”, tinha quatro capas diferentes. Uma delas despoletou críticas nas redes sociais e atenção de vários meios de comunicação social internacionais.

Nessa fotografia de Branislav Simoncik, a modelo Simona Kirchnerova surge, num cenário antigo, deitada numa banheira com duas enfermeiras a seu lado, uma das quais lhe lança água na cabeça.

Os comentários críticos começaram imediatamente a surgiu no Instagram. Chegaram já aos vários milhares. A modelo portuguesa Sara Sampaio foi uma das que reagiu dizendo que “é de muito mau gosto”.

Há quem diga que se está a glamourizar e a romantizar a doença mental, através da imagem “vintage”. Há quem diga que com ela se limpa a imagem de tratamentos desatualizados e que eram desumanos pelo sofrimento que causavam nos pacientes. Há quem critique o uso do termo loucura e do sofrimento para vender revistas de moda. Há quem fale em preconceito e insensibilidade e quem se sinta ofendido pela sua história de sofrimento.

A psicóloga clínica Katerina Alexandraki foi também outra das pessoas que reagiu escrevendo “promover a estética da doença mental é muito problemático. Nunca é uma moda.” E acrescentou: “já para não mencionar a história das mulheres e da doença mental. Há centenas de histórias de abusos nas quais as mulheres estavam no melhor casos vulneráveis.”

Ao jornal The Independent, Jo Loughran, diretora da campanha contra os estigmas para com a doença mental, Time To Change, declarou que “hoje, num tempo em que há provavelmente mais consciência a propósito dos problemas da saúde mental do que nunca antes houvera, é uma desilusão ver esta representação datada de um hospital psiquiátrico”. Para ela, “em última análise, representações erróneas como esta podem tornar ainda mais difícil a vida das pessoas que experienciam um problema de saúde de saúde mental para que falem e procurem ajuda”. A ativista considerou ainda que a capa “não é aceitável”.

 
 
 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

THE MADNESS ISSUE. COVER 1/4 It’s about love. It’s about life. It’s about us. It’s about you. It’s about now. It’s about health. It’s about mental health. #themadnessissue It’s about time. . Edição julho/agosto disponível em vogue.pt/shop Nas bancas disponível a partir de 10 de julho. ___
 July/August issue available at vogue.pt/shop Newsstands available from July 10th. . Photography @branislavsimoncik Styling @ninaford_ @nemamconaseba Hair @janmolnarofficial Make up @lukaskimlicka Models @simonakirchnerova Assistants Branislav Waclav / @PatrikHopjak / @fosia.rvs @exitmodelmanagement . #vogueportugal @lighthouse.publishing #editorinchief @sofia.slucas #creativedirection @jsantanagq

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Depois da polémica, a revista veio defender-se. Numa declaração que tornou pública escreve que “a nossa intenção é abrir o tópico da saúde mental e trazer à discussão as instituições, a ciência e as pessoas que estão envolvidas com saúde mental hoje.” A justificação para esta capa em particular era que “explora o contexto histórico da saúde mental e está desenhada para refletir a vida real e histórias autênticas, inspirada pela investigação profunda de centenas de fotógrafos de reportagem e de alguns dos mais relevantes e famosos documentaristas que trabalharam sobre hospitais de saúde mental.” Explica-se ainda que “dentro deste número, há entrevistas e contribuições de psiquiatras, sociólogos, psicólogos e outros peritos no campo”.

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