No dia 6 de setembro, o Financial Times revela que o primeiro-ministro tenciona revogar secções do acordo de saída da União Europeia respeitantes a controlos alfandegários, aduaneiros e de circulação entre fronteiras.
A 8 de setembro, Brandon Lewis, membro do governo britânico com a pasta da Irlanda do Norte, assume publicamente que a proposta “viola o direito internacional”, apesar de o fazer apenas de “forma específica e limitada”. E, no dia seguinte, Boris Johnson confirma e apresenta-a no parlamento.
Os estilhaços desta bomba política provocaram, no imediato, os estragos e reações previsíveis. A União Europeia endureceu o discurso e colocou em cima da mesa um conjunto de sanções económicas e financeiras que serão aplicadas num prazo de três semanas, caso Boris Johnson não recue. Simultaneamente, a Irlanda acusa publicamente o governo britânico de tentativa de sabotagem do processo de paz na Irlanda do Norte, críticas a que se juntou o Congresso dos Estados Unidos da América com exigências públicas para que Boris Johnson recue.
O projeto apresentado por Boris Johnson garante ao governo britânico o poder de revogar o protocolo estabelecido apenas há um ano com a Irlanda do Norte, que define o funcionamento e regras de circulação, adaptando os acordos de paz à nova realidade pós-Brexit.
Em declarações à BBC, o Ministro de Assuntos Europeus do governo irlandês, Thomas Byrne, declarou que “a premissa do acordo de sexta-feira é, na realidade, um acordo entre os povos do norte, mas também entre o norte e o sul e entre o Reino Unido e a Irlanda”. Por isso, diz, “não é possível aceitar que uma das partes, seja em que detalhe for da complicada relação entre as duas ilhas, decida alterar as coisas unilateralmente”.
O governo alemão, através do seu embaixador em Londres, decidiu deixar clara a sua posição, com Andreas Michaelis a declarar na sua conta de twitter que em “30 anos como diplomata nunca vi uma deterioração tão rápida, intencional e profunda de uma negociação”.
Os estragos parecem ter atingindo o próprio Partido Conservador, com maioria parlamentar e inequivocamente pró-Brexit desde as eleições extraordinárias convocadas por Boris Johnson no final de 2019. Um grupo de pelo menos 30 deputados, incluindo a ex-primeira-ministra Theresa May, estará a organizar emendas de alteração à proposta de lei do governo, que serão discutidas na próxima semana.