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Brasil: Homenagem a Marielle Franco vence Carnaval do Rio

Presidente Jair Bolsonaro sofre nova e inusitada derrota política e os seus posts desarvorados no Twitter criam a mais recente crise do governo. O responsável foi, quem diria, o Carnaval. Por Luis Leiria.
Marielle Franco nas cores da Mangueira: verde e rosa
Marielle Franco nas cores da Mangueira: verde e rosa

A Mangueira venceu o desfile das escolas de samba do Carnaval do Rio de Janeiro. A escola verde e rosa – as suas cores – levou à avenida um enredo dedicado a contar “A história que a história não conta", tirando da fotografia os personagens que ainda hoje enchem os livros de história e substituindo-os por outras figuras importantes mas ignoradas: índios, negros e pobres.

O samba tem ainda uma homenagem especial à vereadora Marielle Franco, do PSOL, que foi assassinada há quase um ano sem que até agora se saiba quem foram os mandantes e o autor do crime que a vitimou e ao motorista Anderson. Na última ala da escola, marcada por bandeiras com a imagem de Marielle, desfilaram a arquiteta Mônica Benício, viúva de Marielle, o deputado federal Marcelo Freixo e o vereador Tarcísio Motta, ambos do PSOL.

A vitória da Estação Primeira de Mangueira, decidida pelo júri que tradicionalmente reúne na quarta-feira de cinzas, veio culminar um dos mais politizados carnavais de sempre no Brasil. Exemplo disso foram as homenagens a Marielle Franco: para além da Mangueira, também a Vila Isabel do Rio, e a Vai-Vai, de S. Paulo, recordaram a vereadora do PSOL. Também a Pérola Negra, escola campeã do Grupo de Acesso (uma espécie de 2ª divisão) de São Paulo, cantou o enredo “Da Majestosa África, tu és negra mulher guerreira a verdadeira Pérola Negra” e exibiu uma enorme imagem de Marielle num carro alegórico.

Mas a outra marca forte deste Carnaval foram as críticas e os insultos ao ultradireitista presidente Jair Bolsonaro que se espalharam como um rastilho de pólvora pelos blocos de rua que desfilaram de norte a sul do país. Em comum, o mesmo grito: “Ei Bolsonaro, vai tomar no c.” O grito, aliás, que soou também na quadra da Mangueira, na noite desta quarta-feira, nas comemorações do 20º título de campeã da escola.

Direita não rima com Carnaval

A direita não gosta de Carnaval. Houve pífias tentativas de organizar blocos a favor de Bolsonaro que fracassaram devido à pouca adesão. Mas o mais comum é a direita mais conservadora, ligada às igrejas evangélicas, combater o Carnaval.

O prefeito (presidente da câmara) do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, que é também pastor evangélico, cortou pela metade as subvenções dadas pelo poder público às escolas de samba, e não esconde que o seu objetivo é acabar totalmente com qualquer apoio. A guerra entre as escolas de samba e Crivella levaram até a Acadêmicos do Sossego a exibir uma faixa onde se lia: “Respeitamos a religião do prefeito Marcelo Crivella e queremos respeito com o Carnaval. O Rio pede paz”.

Paz, porém, não é uma prática do presidente da República que prefere responder taco a taco às críticas e ataques que recebe. E fá-lo de forma muitas vezes descontrolada.

A reação de Bolsonaro começou com uma resposta à marchinha gravada por Caetano Veloso e Daniela Mercury “Proibido Carnaval”. Na terça-feira, o presidente divulgou um vídeo de uma outra marchinha em que um cantor não identificado rebate as críticas. Sem fazer referência direta a Caetano e Daniela, Bolsonaro escreveu: “Dois 'famosos' acusam o Governo Jair Bolsonaro de querer acabar com o Carnaval. A verdade é outra: esse tipo de 'artista' não mais se locupletará da Lei Rouanet”.

Daniela Mercury respondeu polidamente, explicando que o valor recebido por ela através da lei Rouanet corresponde a 10% do custo geral que teve no período e oferecendo-se para explicar a legislação ao presidente. Este respondeu que a possibilidade de receber “renomados” que já se beneficiaram da lei “não passa de piada”.

Precisa de intervenção psíquica

O bate-boca com a cantora baiana, de 35 anos de carreira, já deveria ter alertado Bolsonaro de que o terreno do Carnaval não lhe era favorável. Mas o presidente que se elegeu pelas redes sociais não ia querer deixar de responder às provocações lançadas pelos blocos carnavalescos. Fê-lo da forma mais inacreditável: divulgando um vídeo pornográfico, em que um folião mete um dedo no ânus e depois se baixa para outro urinar sobre ele. No texto que acompanhou o vídeo, Bolsonaro disse não se sentir “confortável em mostrar”, mas argumentou que tem “que expor a verdade para a população ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades. É isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro. Comentem e tirem suas conslusões [conclusões]”.

As primeiras reações foram de incredulidade: “Este post é mesmo do Presidente da República do Brasil?”, questionaram várias pessoas.

Opositores de Bolsonaro defenderam a necessidade de “intervenção psíquica” e anunciaram a intenção de processar o presidente por “crime de divulgação, sem o consentimento da vítima, de cena de sexo, nudez ou pornografia”. O deputado Marcelo Freixo afirmou: “Estamos diante de um quadro psiquiátrico grave e, politicamente, desastroso”, afirmou.

Mesmo um aliado de Bolsonaro, como o deputado Kim Kataguiri, do MBL, considerou a publicação como “incompatível com a postura de um presidente, ainda mais de direita”, e classificou-a como “bola fora”.

"Há muitas boas razões para criticar o Carnaval”, escreveu, mas isso “não justifica mostrar uma obscenidade para milhões de famílias por meio de uma rede social sob o pretexto de criticar a festa.

Bolsonaro ainda voltaria ao Twitter com uma questão: “O que é golden shower?”

Chuva Dourada

Trata-se do fetiche de urinar na frente de um parceiro ou sobre ele, mas as respostas que recebeu foram implacáveis: “É isto aqui sr presidente (sic)", escrevia um post de resposta, mostrando a imagem de um homem a dar banho a um cão da raça golden retriever. Outro escreveu: “"Golden shower é um termo em inglês para se referir a cheques depositados na conta da primeira-dama, referentes ao pagamento de um suposto empréstimo de R$ 40 mil para quem movimentou R$ 7 milhões em três anos, presidente. Chove ouro”, referindo-se ao escândalo ainda não esclarecido que envolve o filo do presidente, Flávio Bolsonaro, o seu motorista, Fabrício Queiroz e uma conta bancária milionária de onde saiu um cheque destinado à primeira-dama.

Razão para impeachment

O jurista Miguel Reale Júnior, um dos autores do pedido de impeachment a Dilma Rousseff, afirmou que a divulgação do vídeo configura quebra de decoro e pode justificar o impeachment de Bolsonaro.

“O que eu destaco”, disse ao Estado de S. Paulo, “é a absoluta desnecessidade de enviar este vídeo abjeto ao povo brasileiro para denunciar algo que tinha sido visto, previamente, por algumas centenas de pessoas. (…) Com a divulgação, ele deu exposição a um fato restrito, sem nenhuma necessidade: ou seja, ampliou o ato”, explicou o advogado, lembrando que o crime de praticar ato obsceno em lugar público é considerado, no Código Penal, menos grave do que o da sua divulgação.

Repercussão internacional

A imagem de um presidente desarvorado, incapaz de se conter diante de uma provocação, repercutiu negativamente pela imprensa internacional: “Bolsonaro ridicularizado após twitar vídeo carnavalesco explícito”, titulou o The Guardian. Para o The New York Times, “tornou-se evidente que o sr. Bolsonaro não está menos impulsivo nas suas redes sociais do que quando candidato. Assessores têm expressado descontentamento com o fato de que, como presidente, ele continue a conduzir os assuntos pelo WhatsApp. Talvez mais significativo, o post sinaliza que o sr. Bolsonaro acha válido estimular os debates sobre orientação sexual e moralidade na sociedade que turbinaram a sua chegada ao poder”.

Para o El País, os posts de Bolsonaro deixaram os seus compatriotas “envergonhados, indignados e atónitos”. E o jornal italiano Corriere Della Sera mostrou como a publicação do vídeo obsceno pelo presidente, que se pretendia uma denúncia, acabou tendo um efeito boomerang.

No final desta quarta-feira tão agitada, Bolsonaro, diante da repercussão tão negativa aos seus posts, mais uma vez recuou, dizendo em nota oficial: “Não houve intenção de criticar o carnaval de forma genérica, mas sim caracterizar uma distorção clara do espírito momesco, que simboliza a descontração, a ironia, a crítica saudável e a criatividade da nossa maior e mais democrática festa popular”.

Não parece ter sido minimamente convincente. A imagem de Bolsonaro degrada-se dia a dia. Era melhor que tivesse ficado calado, como fez durante praticamente toda a sua campanha.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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