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Bolívia: observadores internacionais denunciam pressões do governo golpista

Os dias que antecederam as eleições deste domingo foram de tentativa de intimidação denunciam observadores internacionais. O presidente argentino protestou pela prisão de um deputado do seu país.
Um homem passa em frente a um cartaz do candidato de direita às eleições bolivianas. Foto de Joedson Alves/EPA/Lusa.
Um homem passa em frente a um cartaz do candidato de direita às eleições bolivianas. Foto de Joedson Alves/EPA/Lusa.

Com eleições presidenciais marcadas para este domingo, o governo golpista da Bolívia pressiona os observadores internacionais enviados por vários países. A delegação espanhola é uma das que denuncia este tipo de atitude. Quatro observadores internacionais espanhóis, Gerardo Pisarello e Lucía Muñoz Dalda, do Podemos, e Fran Pérez Esteban e Maite Mola da Izquierda Unida, queixam-se que foram alvo de atos de intimidação.

Entre este tipo de atos estão um tweet do ministro Arturo Murillo em que, falando de observadores, avisava “agitadores e gente que busca gerar violência” que “não são bem-vindos” e que seriam postos “num avião ou atrás das grades”. Terminava dizendo: “comportem-se, sabemos quem são e onde estão”.

Os deputados espanhóis insurgem-se ainda contra a imprensa do regime. Primeiro, o jornal Okdiario publicou uma notícia em que se mostravam as suas caras e se afirmava falsamente que tinham entrado no país como turistas. Depois, vários outros jornais e televisões replicaram a mentira acrescentando outros pontos: passaram a ser descritos como “perigosos” e “capazes de gerar violência”.

Gerardo Pisarello diz ao La Ultima Hora que “estão a tentar criar um clima de intimidação em que desprestigiam o nosso papel de observadores: seríamos apenas agitadores favoráveis ao MAS que estaríamos aqui para incitar à violência e o perigoso é que estão a passar essa mensagem em chats de moradores de La Paz”.

O deputado espanhol crê que se está a preparar “um cenário em que, se o resultado de domingo não for o que eles querem, vão gerar conflitos nas ruas e denunciar os observadores internacionais, que segundo eles seríamos os responsáveis pela situação fraudulenta”.

Pisarello está preocupado igualmente pelas irregularidades que podem estar já a suceder, citando a presença da polícia e do exército nas mesas eleitorais e no próprio transporte dos votos ou as “depurações arbitrárias” nos cadernos eleitorais do exterior como por exemplo em Espanha.

Deputado argentino preso

A delegação da Argentina, convidada da Assembleia Legislativa Plurinacional da Bolívia, também foi alvo de intimidação que começou logo na tentativa de impedir que chegasse a entrar no país. O chefe da delegação, Frederico Fagioli, da Frente de Todos, foi preso esta sexta-feira.

O incidente produziu protestos ao mais alto nível. O presidente argentino, Alberto Fernández, condenou a situação e responsabilizou o governo de Jeanine Áñez pelo sucedido. “Os legisladores argentinos foram maltratados quando chegaram a La Paz para cumprir as suas funções como observadores das eleições de domingo. É responsabilidade direta do Governo de Jeanine Añez preservar a integridade da delegação argentina”, escreveu no Twitter.

Outros observadores também alvo de intimidação

Também vários membros do The Grayzone, um jornal de investigação independente online, que integram uma delegação de observadores independentes, convidados pelo Tribunal Supremo Eleitoral através do grupo de luta pelos direitos humanos Codepink, denunciaram uma campanha de ódio dirigida a si. As suas fotos e informações pessoais circularam na internet com ameaças. “Terroristas” ligados ao tráfico de droga e outras expressões menos agradáveis foram utilizadas para os estigmatizar. À chegada ao aeroporto tinham à espera vários elementos não identificados que os fotografaram e perseguiram. Sobre o que se passa em geral no país referem uma “atmosfera de intimidação”.

Um “mapa interativo das violações dos direitos humanos”

Esse mesmo clima pretende ilustrar o Comité de Solidariedade com os Povos Latino-americanos ao criar um mapa interativo das violações dos direitos humanos que apresentou na passada quinta-feira.

O projeto global tem o nome “Golpe de Estado na Bolívia: uma cartografia da repressão” e procura documentar as violações contra direitos humanos cometidas desde o golpe de Estado que destituiu Evo Morales. Os seus autores falam em casos de raptos, tortura, violência em massa, denegação de justiça, perseguição política, racismo, violência sexual entre outros. E acusam não apenas grupos parapoliciais da extrema-direita como a próprias forças de autoridade, polícias e militares.

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