Massacre no Mediterrâneo

BBC mostra como guarda costeira grega mandou migrantes borda fora para morrer

17 de junho 2024 - 15:13

Reportagem traz relatos chocantes de como as autoridades gregas “caçam” migrantes que chegam ao seu território e os abandonam para lá das águas territoriais. Muitos são deliberadamente atirados ao mar para morrerem.

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Barcos da guarda costeira grega
Barcos da guarda costeira grega

Uma reportagem da BBC e um documentário intitulado Dead Calm: Killing in the Med? mostram como, ao longo de três anos, a guarda costeira grega causou a morte de “dezenas de migrantes” no Mediterrâneo. A maior parte morreu quando foi forçada a abandonar as águas territoriais do país depois de as ter alcançado, outros tinham mesmo chegado a terra mas foram obrigados a voltar ao mar. Nove deles foram “deliberadamente atirados à água”.

O canal público britânico recolheu testemunhos daquilo que já tem vindo a ser denunciado nos últimos anos por muitas das organizações não governamentais no terreno. Os relatos destas, de meios de comunicação locais, de migrantes e da guarda costeira turca são convergentes. Mas também teve acesso a imagens que provam o sucedido. Numa delas, veem-se 12 pessoas a serem colocadas num barco da guarda costeira grega e depois a serem abandonadas num bote. Um “crime internacional”, reconhece Dimitris Baltakos, ex-dirigente de operações especiais da guarda costeira grega, num desabafo filmado por acaso à margem de uma entrevista quando lhe foi mostrado o que se passou. Durante a entrevista tinha negado que tal pudesse acontecer.

É a primeira vez que se detalha um conjunto de incidentes, 15 entre maio de 2020 e o mesmo mês de 2023, dos quais resultaram 43 mortes. Em cinco dos casos, há migrantes a contar que houve pessoas que foram “atirados diretamente no mar”. Em quatro dizem que chegaram às ilhas gregas mas foram apanhados e devolvidos ao mar. Noutros que “foram colocados em jangadas insufláveis sem motores, que depois esvaziaram ou pareciam ter sido perfuradas”.

Um migrante camaronês disse que conseguiu chegar a Samos em setembro de 2021, fui apanhado por vários polícias mascarados, colocado num barco. Dois dos seus companheiros foram atirados ao mar e aí morreram, os seus corpos deram à costa na Turquia. Já ele foi espancado “como um animal” e também lançado ao mar sem sequer ter um colete salva-vidas, mas conseguiu sobreviver.

Outro, da Somália, conta que em março daquele mesmo ano foi capturado quando chegou a Chios, amarrado e lançado à água. Só sobreviveu porque conseguiu libertar uma das mãos. Do seu grupo, três pessoas morreram.

Um migrante da Síria avança que, em setembro de 2022, o seu barco com 85 pessoas a bordo ficou sem motor perto de Rhodes, acabaram por ser recolhidos pela guarda grega que os mandou para águas turcas em botes. Aquele em que foi colocado não tinha a válvula devidamente fechada e começou imediatamente a afundar. Os guardas costeiros não agiram e acabaram por morrer várias crianças: “os meus filhos só morreram de manhã… pouco antes da guarda costeira turca chegar”.

Os grupos de defesa dos direitos humanos alegam que serão milhares os que são impedidos de chegar aos centros onde poderiam pedir o estatuto de refugiado. São caçados por membros das autoridades mas que “estão aparentemente a agir na clandestinidade – sem uniformes e muitas vezes mascarados”.