Armamento

Arsenais nucleares estão a reforçar-se, alerta SIPRI

17 de junho 2024 - 13:28

O instituto sediado em Estocolmo divulga esta segunda-feira o seu relatório anual sobre armamento e segurança internacional, com destaque para as ações dos nove estados com capacidades nucleares.

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Míssil Nuclear SM-78 Jupiter
Míssil Nuclear SM-78 Jupiter. Foto Kelly Michals/Flickr

O número e o tipo de armas nucleares em desenvolvimento aumentaram no último ano, indica o Instituto de Investigação para a Paz de Estocolmo (SIPRI), que todos os anos faz o retrato do armamento e desarmamento à escala mundial.

Este ano o destaque no relatório divulgado esta segunda-feira vai para os arsenais nucleares. Segundo o SIPRI, os nove países com armas nucleares - EUA, Rússia, Reino Unido, França, China, Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel - “continuaram a modernizar os seus arsenais nucleares e vários implantaram novos sistemas de armas com armas nucleares ou com capacidade nuclear em 2023”.

EUA e Rússia continuam a deter quase 90% de todas as armas nucleares e os seus arsenais mantiveram-se relativamente estáveis no ano passado, embora a Rússia tenha ativado cerca de 36 ogivas nucleares ao longo do ano. No entanto, a invasão da Ucrânia veio diminuir bastante a transparência nas duas maiores potências nucleares quanto ao estado dos seus arsenais. O SIPRI refere as alegações de que a Rússia teria colocado armas nucleares no território bielorrusso, embora acrescente não ter encontrado provas visuais conclusivas de que isso tenha acontecido de facto.

Das 12.121 ogivas nucleares que o SIPRI estimava existirem em todo o mundo no início deste ano, cerca de 9.585 encontravam-se em reservas militares para utilização potencial, com 3.904 dessas ogivas colocadas em mísseis e aeronaves - mais 60 do que no início de 2023 - e as restantes armazenadas pelos exércitos. Destas quase quatro mil ogivas colocadas, cerca de 2.100 estavam em estado de alerta operacional elevado em mísseis balísticos, com a esmagadora maioria a pertencer aos EUA e Rússia, embora a China apareça pela primeira vez nesta lista de países com ogivas nucleares em elevado estado de alerta operacional.

“Embora o total global de ogivas nucleares continue a diminuir à medida que as armas da era da guerra fria são gradualmente desmanteladas, lamentavelmente continuamos a assistir a um aumento anual do número de ogivas nucleares operacionais”, afirmou Dan Smith, Diretor do SIPRI, acrescentando que “esta tendência parece estar para durar e é provável que acelere nos próximos anos, o que é extremamente preocupante”.

Por outro lado, o número de ogivas colocadas em mísseis poderá aumentar bastante caso a Coreia do Norte, Índia e Paquistão tenham êxito nas suas tentativas de concretizar o objetivo de colocar várias ogivas em mísseis balísticos. O SIPRI prevê que a China possa ultrapassar o número de mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) dos EUA e Rússia até ao fim da década, embora o número total de ogivas permaneça bem abaixo do das duas maiores potências nucleares.

Como seria de esperar, a guerra na Ucrânia veio dificultar a diplomacia do desarmamento e controlo de armas nucleares, com a saída da Rússia do tratado assinado em 2010 e que era o único instrumento para limitar o arsenal nuclear estratégico das duas potências. Em retaliação, os EUA pararam de submeter dados e partilhar informações previstas nesse tratado. Mais tarde a Rússia abandonou também o tratado sobre proibição de testes nucleares, alegando que os EUA ainda não o tinham ratificado desde que teve início em 1996. E mais recentemente Vladimir Putin tem ameaçado com o recurso a armas nucleares para responder ao apoio dos países na Nato à Ucrânia, tendo efetuado treinos militares com material nuclear no mês passado junto à fronteira ucraniana.

“Desde a Guerra Fria que não se via as armas nucleares desempenharem um papel tão importante nas relações internacionais”, afirmou Wilfred Wan, Diretor do Programa de Armas de Destruição Maciça do SIPRI. Este responsável diz ser difícil acreditar “que só se passaram dois anos desde que os líderes dos cinco maiores Estados com armas nucleares reafirmaram conjuntamente que “uma guerra nuclear não pode ser ganha e nunca deve ser travada””.

Também a guerra de Israel em Gaza veio complicar as relações entre os EUA e o Irão, depois de em junho do ano passado ter existido um acordo informal para reduzir a tensão entre os dois países. O impacto desta guerra e da Ucrânia foi determinante na avaliação do SIPRI sobre os temas ligados ao armamento e desarmamento, embora destaque ainda os conflitos armados que estão ativos noutros 50 países do mundo, com destaque para o Sudão, República Democrática do Congo e Myanmar.

Por estas razões, a conclusão do diretor do SIPRI é que “estamos agora num dos períodos mais perigosos da história da humanidade”, devido às “inúmeras fontes de instabilidade - rivalidades políticas, desigualdades económicas, perturbações ecológicas, uma corrida ao armamento cada vez mais rápida”. Dan Smith alerta que “o abismo está à espreita e é tempo de as grandes potências recuarem e refletirem. E de preferência, em conjunto”.