Os antropólogos da Equipa Argentina de Antropologia Forense encontraram o lugar onde estão enterradas vítimas do massacre de San Antonio de Obligado ocorrido em 1887. Trata-se da primeira vala comum de um massacre perpetrado pelo Estado argentino que é descoberta e analisada.
O Página 12 dá conta que, desde março, a equipa do antropólogo Juan Nobile tinha vindo a trabalhar nesta área e que o resultado foi finalmente alcançado a 27 de setembro. O seu colega Fernando Pepe, coordenador da Área de Identificação e Restituição de Restos Humanos Indígenas e Proteção de Sítios Sagrados do Instituto Nacional de Assuntos Indígenas realçou a dimensão “histórica” e pioneira do achado. Contudo, ressalva-se, há uma vala comum ainda mais antiga identificada no país, em Mendonza, mas esta resultante dos massacres cometidos pelos espanhóis.
Para além disso, continua o processo de pesquisa do local das valas comuns do massacre de Napalpí. Este vitimou perto de 400 pessoas dos povos originários moqoit (ou mocovi) e qom (ou toba), em 1924, que caíram às mãos de polícias, militares e latifundiários da região depois de um grupo de trabalhadores terem feito greve para exigir salários justos ou a possibilidade de sair do território onde estavam confinados para procurar outros empregos. O governador de Chaco, Fernando Centeno, mandou as suas tropas contra os indígenas desarmados.
De momento, segundo o El Diário argentino, a equipa de investigação espera uma ordem judicial que permita a exumação dos restos humanos encontrados. O processo está enquadrado nos chamados julgamentos pela verdade histórica que procuram provas de crimes contra a humanidade pela parte das autoridades argentinas e o mandato da investigação era descobrir a vala comum e parar depois as escavações para esperar por um plano de recuperação dos restos mortais.
O massacre de San Antonio de Obligado
Em 1884, cinco comunidades indígenas moqoit e qom aceitaram fixar-se numa colónia religiosa em San Antonio de Padua de Obligado, tendo acordado com o governo que ficariam com estas terras no futuro. O objetivo oficial era convertê-los ao cristianismo e usá-los como mão de obra barata. Os indígenas passavam a ter de trabalhar no engenhos de açúcar da região ou para os militares.
Seguiram-se anos de abusos, castigos, fome e epidemias sem que a propriedade passasse para seu nome. E, no verão de 1887, o exército raptou uma criança indígena a mando do governador para que esta servisse como sua criada. A revolta estalou e Marcos Piedra, o comandante militar da zona, e outro militar foram mortos por um grupo de indígenas que a seguir fugiu para os montes.
O exército decidiu retaliar assassinando pessoas inocentes que não tinham participado na revolta, começou por um grupo de 16, 14 homens, uma mulher e uma criança. Mas nos dez dias seguintes os crimes continuaram, não se sabendo quantas vítimas causaram.