Apesar da guerra, 658 empresas nacionais fizeram negócios com a Rússia

24 de fevereiro 2023 - 14:54

Desde o início da guerra, houve sanções, os sistemas de pagamento e os transportes foram dificultados. Ainda assim, muitas empresas nacionais continuam a vender ou a comprar bens e serviços à Rússia.

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Barco com contentores num porto russo. Foto de Alexxx Malev/Flickr.
Barco com contentores num porto russo. Foto de Alexxx Malev/Flickr.

Num ano, o número de empresas portuguesas com negócios com a Rússia caiu para cerca de metade, com alguns pesos pesados a abandonarem os negócios com este país. Ainda assim, e apesar de sanções, dificuldades nos sistemas de pagamento ou problemas de transporte, foram 658 as empresas que, em 2022, compraram ou venderam produtos e serviços aos russos.

As contas são do Instituto Nacional de Estatística, não incluem dados sobre empresários em nome individual ou trabalhadores independentes e foram compiladas pelo Eco.

De acordo com este jornal online, o valor das exportações em termos homólogos baixou 50.5% para 88,2 milhões de euros, o setor alimentar lidera, tendo aumentado as vendas relativamente ao ano anterior, tomando o lugar do setor da cortiça que baixou 62%.

Em termos de empresas, o primeiro lugar passou a ser ocupado pela Bosch Termotecnologia, uma fábrica de Aveiro que é filial do grupo alemão e que produz esquentadores, caldeiras e bombas de calor de várias marcas, incluindo Vulcano e Junkers. A seguir fica a Sedacor, do JPS Cork, que vende rolhas de cortiça. Em sétimo lugar deste ranking surgirá outra empresa do setor, a Unicor. O terceiro lugar é da Stonimpar, que vende pedras naturais, seguido pela Louritex que exporta alfaias agrícolas, a Ballamor que vende bebidas e a Proadec que fabrica orlas termoplásticas para a indústria do mobiliário e pertence ao grupo alemão Surteco. A lista dos 15 maiores exportadores conta ainda com a Adega Cooperativa da Ponte da Barca e Arcos de Valdevez e a Casa Santos Lima, ambas no setor das bebidas, a Italagro, do grupo HIT, pertencente à japonesa Kagome e que transforma de tomate e vende ketchup para o McDonald’s, a Nestlé Portugal, a Fibromade, de folhas de madeira, a Cabopol Polymer Compounds, de compostos termoplásticos, pertencente à Mekkin, a Oli, de sistemas sanitários e que tem mesmo uma fábrica na Rússia com 42 trabalhadores, e a metalúrgica Arsopi.

No campo das empresas nacionais que abandonaram este mercado temos a Sogrape (que produz vinhos), a Logoplaste (que faz embalagens), a Simoldes Aços (que fabrica moldes para injeção de termoplásticos) e a Bondalti, empresa de química industrial, tratamento de águas e produção de hidrogénio e lítio.

Em sentido contrário, empresas portuguesas fizeram compras à Rússia no valor de 649 milhões de euros, o que representou uma queda de 39,2% relativamente ao ano imediatamente antes da guerra. Por tipo de produtos, os combustíveis, apesar de terem caído para metade, continuam a liderar, com produtos químicos e agrícolas a seguir. Estes subiram mesmo.

Assim, duas empresas do setor energético estão em primeiro lugar da lista de importadores. A Petrogal, apesar da Galp ter chegado a anunciar a suspensão de “novas aquisições de produtos petrolíferos provenientes quer da Rússia, quer de empresas russas”, garantindo agora a empresa que o peso destas importações tem vindo a descer e que “de abril de 2022 até hoje, esse peso está nos 0%”, e a espanhola Naturgy que continua a importa gás russo.

A SGL Composites, empresa de fibras técnicas do Barreiro, que faz parte da alemã SGLCarbon, ocupa o terceiro lugar. A Riberalves vem a seguir e é acompanhada na lista dos 15 maiores importadores por outras empresas dedicadas à transformação do bacalhau, a Lugrade (8º), o Grupo Rui Costa e Sousa & Irmão (9º) e a CNCB – Companhia Nacional Comércio Bacalhau (13º) e a Pascoal (15º).

Destaca-se ainda a fabricante de pneus Continental Mabor em sexto lugar. E várias empresas do setor químico. Em sétimo e décimo primeiro estão duas empresas do mesmo grupo, o RNM: a Blue Chem e a RNM Produtos Químicos. E a Indorama, empresa tailandesa, que ocupa o décimo lugar. Outro setor com presença importante é o dos plásticos: a Polivouga (12º) e a Oben Portugal, filial de um grupo económico peruano (14º).

O Eco consultou igualmente dados do Banco de Portugal sobre o setor dos serviços, concluindo que as exportações de portuguesas de serviços para a Rússia tiveram com a guerra uma queda muito ligeira, 1,1% em termos homólogos, o que corresponde a 101 milhões de euros. Já nas importações de serviços o panorama contrasta com este porque a queda foi mais acentuada 43%, totalizando 48 milhões.

No computo geral, bens e serviços russos ocupam valores baixos. O mercado russo é apenas 0,15% do total das exportações portuguesas e 0,52% no total das importações.