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Apenas um de 150 apartamentos comprados numa rua de Alfama foi para habitação própria

Estudo revela que, entre 2015 e 2017, foram comprados 150 apartamentos na área à volta da Rua dos Remédios, mas apenas um para efeitos de habitação própria. A maioria foi convertida em alojamento turístico. Vinte e sete famílias foram forçadas a abandonar as suas casas.
Foto de Benjamín Mejías Valencia from Santiago, Chile, Wikimedia Commons.

O estudo, focado na análise à micro-escala da evolução da habitação no centro de Lisboa, , onde se registam 945 alojamentos clássicos e com uma população que, em 2011, não chegava aos 900 habitantes.

O estudo de Ana Gago e Agustin Cocola-Gant incidiu sobre a área à volta da Rua dos Remédios, que conta com 945 alojamentos clássicos registados e uma população que, em 2011, não atingia os 900 habitantes. Os dois investigadores do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa acompanharam o processo de gentrificação e transformação do tecido social em Alfama.

No período entre 2015 e 2017, foram comprados 150 apartamentos na área em análise, mas apenas um para efeitos de habitação própria". A maioria dos apartamentos foi convertida em alojamento turístico, sendo que os restantes "permaneceram vazios, tendo sido objeto de sucessivas vendas".

De acordo com os investigadores, em 2016, 25% das habitações existentes, 235 das 945, estavam afetas ao alojamento turístico, o que traduz um aumento de 60% no espaço de somente um ano.

Desses 235 alojamentos turísticos, somente dois dos apartamentos eram partilhados por residentes. Catorze prédios estavam totalmente destinados a alojamento turístico.

O estudo revela ainda que, no período em análise, entre 2015 e 2017, 27 famílias, num total de 36 pessoas, foram forçadas a abandonar as suas casas. Dezoito das casas de onde foram expulsas todas estas pessoas transformaram-se em alojamento local e as restantes "permanecem vazias".

"Para além disto, foram registados vários casos de desalojamento direto iminente, pelo que tudo indica que estes números irão aumentar num futuro próximo", advertem Ana Gago e Agustin Cocola-Gant, sinalizando que este processo de desalojamento, que teve lugar, na maioria dos casos, por via da não renovação do contrato ou da imposição de aumentos incomportáveis da renda, "afeta não só inquilinos com poucos recursos económicos, mas também residentes de classe média que já pagavam rendas altas e estariam dispostos a pagar mais".

Os investigadores referem ainda que tornou-se "uma prática corrente" ver "agentes imobiliários e gestores de propriedades a calcorrear as ruas" e a interrogar os residentes sobre a possibilidade de venderem as suas casas.

"Não se verificou uma única situação de investimento para arrendamento de longa duração", assinalam, avançando ainda que verificaram também que há vários investidores que compram prédios, "não para lucrar com as respetivas rendas, mas para os deixar vazios".

"Tudo indica que o uso de habitação como depósito de capital também está a acontecer em Lisboa, à semelhança do que acontece noutras cidades globais e que é estimulado pela subida dos preços da propriedade", frisam Ana Gago e Agustin Cocola-Gant.

O estudo está integrado no projeto "FINHABIT - Viver em Tempos Financeiros: Habitação e Produção de Espaço no Portugal Democrático", coordenado pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Os resultados desta investigação estão presentes no livro "A Nova Questão da Habitação em Portugal", lançado esta quinta-feira.

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