Discriminação

Anticiganismo piorou: “já não é só o Chega”

04 de agosto 2025 - 11:35

A coordenadora de um novo estudo sobre a discriminação de que sofrem os ciganos considera que o fenómeno está a aumentar e critica a “inação” do governo. Há “receio” dos resultados das próximas autárquicas, denuncia.

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Ciganos. Foto de Sérgio Aires.
Ciganos. Foto de Sérgio Aires.

Elementos de associações ciganas começaram este mês de julho a aplicar um inquérito junto das suas comunidades. Um trabalho que é uma etapa de um estudo nacional que visa estudar como vivem os ciganos e como estão a lidar com o aumento do anticiganismo. Este está a ser coordenado por Inês Barbosa, do Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e por Manuela Mendes, do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa.

Com ele, pretende-se “aprofundar” o conhecimento sobre as comunidades ciganas sobretudo em “quatro eixos fundamentais”: habitação, saúde, educação e emprego, investigando-se ainda questões ligadas a desigualdades de género, discriminação e racismo. Vão-se ainda utilizar outros instrumentos como um inquérito às instituições, quatro estudos etnográficos em quatro regiões diferentes e 20 retratos sociológicos.

O Público, que noticia esta segunda-feira esta investigação, falou com as suas coordenadoras. Inês Barbosa, que tinha liderado a equipa que investigou a Estratégia Nacional de Integração das Comunidades Ciganas 2013-2023, um documento que não foi divulgado pelo governo, explica que

“há dois anos, quando terminámos a avaliação externa, os dados eram bastante preocupantes no acesso a habitação e emprego e no anticiganismo” e que “o que nos dizem agora é que a situação está pior.”

Para além dos problemas estruturais, a socióloga denuncia uma atmosfera de medo com as próximas eleições: “em todo o lado notamos preocupação com as eleições autárquicas. As pessoas têm receio que os projetos sejam cancelados, que os processos de realojamento sejam paralisados ou revertidos, que aumente a perseguição.”

Até porque “já não é só o Chega” que agita o anticiganismo para colher frutos eleitorais: “há outras forças que podem fazer com que se dê passos atrás” e, ao mesmo tempo, “há inação por parte do Governo” já que se anunciou uma nova estratégia nacional para combater o anticiganismo, que deveria ter sido entregue a Bruxelas até setembro de 2021, mas que nunca avançou, comprometendo o Programa de Apoio ao Associativismo Cigano e o Fundo de Apoio à Estratégia.

Inês Barbosa indica ainda que o anticiganismo é vivido há muito pelas comunidades ciganas mas “agora afcta a sociedade como um todo. Há acampamentos que existem há 20, 30, 40 anos. Há nomadismo forçado. Há pessoas que vivem em condições absolutamente indignas.”

Sobre as condições de vida dos ciganos, acrescenta que, apesar dos níveis de escolaridade terem melhorado, continua a discriminação no acesso ao emprego: “as pessoas não são muitas vezes contratadas porque são ciganas. Isto pode gerar na geração futura um efeito de retrocesso. Para quê estudar se não vou conseguir emprego?”