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Annie Ernaux: “escrevo para vingar a minha raça e para vingar o meu sexo”

Ao receber o Nobel, a escritora ecoou o grito de Rimbaud: “sou de uma raça inferior desde toda a eternidade” e defendeu que “na atualização do indizível social, esta interiorização das relações de dominação de classe e/ou de raça, de sexo, há possibilidade de uma emancipação individual mas também coletiva”. Lê o discurso completo.
Annie Ernaux durante o seu discurso de aceitação do prémio Nobel. Foto Fredrik Persson/EPA/SWEDEN OUT
Annie Ernaux durante o seu discurso de aceitação do prémio Nobel. Foto Fredrik Persson/EPA/SWEDEN OUT

A 6 de outubro de 2022, a escritora Annie Ernaux ganhou o prémio Nobel da literatura. A 7 de dezembro pronunciou o seu discurso de aceitação do prémio em Estocolmo. Irá recebê-lo oficialmente no próximo dia 10. Publicamos aqui a totalidade do seu discurso.


Por onde começar? Coloquei-me esta questão dezenas de vezes em frente da página branca. Como se me fosse preciso encontrar a frase, a única, que me permitiria entrar na escrita do livro e dissipar de um golpe todas as dúvidas. Uma espécie de chave. Hoje, para enfrentar uma situação que, passado o estupor do acontecimento – “é mesmo a mim que isto está a acontecer?” – a minha imaginação me apresenta com um pavor crescente, é a mesma necessidade que me invade. Encontrar a frase que me dará a liberdade e a firmeza de falar sem tremer neste lugar para onde me convidaram esta noite.

Esta frase, não tenho necessidade de a encontrar longe. Ela surge. Em toda a sua clareza, a sua violência. Lapidar. Irrefutável. Ela foi escrita há 60 anos no meu diário. Escreverei para vingar a minha raça. Fazia eco do grito de Rimbaud: “Eu sou de uma raça inferior desde toda a eternidade” (1) Tinha 22 anos. Era estudante de Letras numa faculdade de província, entre raparigas e rapazes vindos na sua maioria da burguesia local. Pensava orgulhosa e ingenuamente que escrever livros, tornar-me escritora, no desembocar de uma linhagem de camponeses sem terra, de operários e pequenos comerciantes, gente desprezada pelas suas maneiras, pelo seu sotaque, pela sua incultura, bastaria para reparar a injustiça social do nascimento. Que uma vitória individual apagaria séculos de dominação e pobreza numa ilusão que a escola já tinha alimentado em mim com o meu sucesso académico. Como poderia a minha realização pessoal redimir alguma coisa das humilhações e ofensas sofridas? Eu não me fazia esta pergunta. Tinha algumas desculpas.

Desde que soube ler, os livros eram os meus companheiros, a leitura a minha ocupação natural fora da escola. Este gosto era cultivado por uma mãe, ela mesmo grande leitora de romances entre dois clientes da sua loja, que preferia que lesse do que cosesse ou tricotasse. O custo dos livros, a suspeita de que eram alvo na minha escola religiosa, tornavam-nos ainda mais desejáveis. Dom Quixote, Viagens de Gulliver, Jane Eyre, os contos de Grimm e Andersen, David Copperfield, Tudo o vento levou, mais tarde Os Miseráveis, As Vinhas da Ira, A Náusea, o Estrangeiro: é o acaso mais do que as prescrições vindas da escola que determinam as minhas leituras.

A escolha de estudar Letras tinha sido a de permanecer na literatura, tornada o valor superior a todos os outros, até mesmo um modo de vida que fazia projetar-me num romance de Flaubert ou de Virginia Woolf e vivê-los literalmente. Uma espécie de continente que opunha inconscientemente ao meu meio social. E só concebia a escrita como a possibilidade de transfigurar o real.

Urgência secreta e absoluta

Não foi a recusa de um primeiro romance por dois ou três editores – romance cujo único mérito era a procura de uma forma nova – que fez diminuir o meu desejo e o meu orgulho. Foram situações da vida nas quais ser mulher fazia toda a diferença numa sociedade onde os papéis estavam definidos segundo os sexos, a contraceção interdita e a interrupção da gravidez que era um crime. Em casal com duas crianças, um trabalho de professora e a cargo da gestão da família, afastava-me cada vez mais, dia após dia, da escrita e da minha promessa de vingar minha raça. Não podia ler “A parábola da lei” no Processo de Kafka sem ver nela a figuração do meu destino: morrer sem ter alcançado a porta que só tinha sido feita para mim, o livro que apenas eu podia escrever.

Mas isto acontecia sem contar com o acaso privado e histórico. A morte do meu pai, três dias depois de eu chegar a sua casa para fazer férias, uma colocação de professora com turmas cujos alunos eram provenientes de meios populares semelhantes ao meu, os movimentos mundiais de contestação: todos estes elementos traziam-me de volta, através de canais imprevistos e sensíveis, ao mundo das minhas origens, à minha “raça”, e davam ao meu desejo de escrever um carácter de urgência secreta e absoluta. Desta vez, não se tratava de me entregar a essa ilusória “escrita sobre nada” dos meus vinte anos, mas de mergulhar no indizível de uma memória reprimida e de trazer à luz a forma de existir dos meus. Escrever a fim de compreender as razões dentro e fora de mim que me distanciaram das minhas origens.

Nenhuma escolha de escrita é evidente. Mas aqueles que, imigrados, já não falam a língua dos seus pais, e aqueles, trânsfugas da classe social, já não têm mais a mesma língua, pensam e expressam-se com outras palavras, deparam-se com obstáculos suplementares. Um dilema. Sentem, de facto, a dificuldade, até mesmo a impossibilidade da escrita na língua adquirida, dominante, que aprenderam a dominar e que admiram nas suas obras literárias, de tudo o que remonta ao seu mundo de origem, este mundo primeiro feito de sensações, de palavras que dizem a vida quotidiana, o trabalho, o lugar ocupado na sociedade. Há de um lado a língua na qual aprenderam a nomear as coisas, com a sua brutalidade, com os seus silêncios, por exemplo o da mãe face a um filho, no muito belo texto de Albert Camus, Entre sim e não. Do outro lado, os modelos das obras admiradas, interiorizadas, as que abriram o universo primeiro e às quais se sentem devedores da sua elevação, que muitas vezes até consideram a sua verdadeira pátria. Na minha figuravam Flaubert, Proust, Virginia Woolf: quando retomei a escrita, não me ajudaram em nada. Era-me preciso romper com a “bela escrita”, a bela frase, essa que eu ensinava aos meus alunos, para extirpar, exibir e compreender a dilaceração que me atravessava. Espontaneamente, foi o alarido de uma linguagem carregada de raiva e escárnio, até de grosseria, que me veio, uma linguagem de excesso, insurgente, muitas vezes usada pelos humilhados e ofendidos, como única forma de responder à lembrança do desprezo, da vergonha e da vergonha da vergonha.

Muito rapidamente pareceu-me evidente – ao ponto de não poder encarar outro ponto de partida – ancorar a narrativa da minha dilaceração social na situação que tinha sido a minha quando fui estudante, aquela, revoltante, à qual o Estado francês condenava sempre as mulheres, o recurso ao aborto clandestino às mãos de uma fazedora de anjos. E quis descrever tudo o que aconteceu ao meu corpo de rapariga, a descoberta do prazer, o período. Assim, nesse primeiro livro, publicado em 1974, sem que estivesse disso consciente, ficava definida a área em que eu situaria a minha escrita, uma área que era simultaneamente social e feminista. A vingança da minha raça e a vingança do meu género seriam uma só.

Como não se questionar sobre a vida sem o fazer também na escrita? Sem se perguntar se esta conforta ou perturba as representações admitidas, interiorizadas sobre os seres e as coisas? Será que a escrita insurgente, pela sua violência e pelo seu escárnio, não reflete uma atitude de dominado? Quando o leitor era um privilegiado cultural, conservava a mesma posição de saliência e de condescendência relativamente à personagem do livro que tinha na vida real. Foi portanto, originalmente, para contrariar esse olhar que, lançado sobre o meu pai cuja vida queria contar, teria sido insuportável e, senti-o, uma traição, que adotei, a partir do meu quarto livro, uma escrita neutra, objetiva, “plana” no sentido de que não continha nem metáforas nem sinais de emoção. A violência já não era exibida, vinha dos próprios factos e não da escrita. Encontrar as palavras que continham ao mesmo tempo a realidade e a sensação procurada pela realidade iria tornar-se, até hoje, a minha preocupação constante ao escrever, qualquer que fosse o tema.

Continuar a dizer “eu” era-me necessário. A primeira pessoa – aquela pela qual, na maior parte das línguas, existimos desde que sabemos falar até à morte – é muitas vezes considerada, no seu uso literário, como narcísica quando se refira ao autor, quando não se trate de um “eu” apresentado como ficcional. É bom lembrar que o “eu”, até então privilégio dos nobres quando contavam grandes feitos de armas nas suas Memórias, é em França uma conquista democrática do século XVIII, a afirmação da igualdade dos indivíduos e do direito a ser sujeito da sua própria história, como o reivindica Jean-Jacques Rousseau no primeiro preâmbulo das Confissões: “E que não se contraponha que sendo apenas um homem do povo, não tenho nada a dizer que mereça a atenção dos leitores. […] Apesar de ter vivido em alguma obscuridade, se pensei mais e melhor do que os Reis, a história da minha alma é mais interessante do que a deles”. (2)

Não era este orgulho plebeu que me motivava (se bem que…) mas o desejo de me servir do “eu” – esta forma tanto masculina quanto feminina – como um utensílio de exploração que capta as sensações, aquelas enterradas pela memória, aquelas que mundo à nossa volta não para de nos dar, por todo o lado e todo o tempo. Este pré-requisito de sensação tornou-se para mim tanto o guia como a garantia da autenticidade da minha investigação. Mas com que finalidades?

Não se trata de contar a história da minha vida nem de confessar os meus segredos mas de decifrar uma situação vivida, um acontecimento, uma relação amorosa, e desvelar desta forma algo que apenas a escrita pode fazer existir e passar, talvez, para outras consciências, outras memórias. Quem poderia dizer que o amor, a dor e o luto, a vergonha, não são universais? Victor Hugo escreveu: “Nenhum de nós tem a honra de ter uma vida sua” (3). Mas como todas as coisas são vividas inexoravelmente sob o modo individual – “é a mim que isto acontece” – elas só podem ser lidas da mesma maneira se o “eu” do livro se tornar, de certa forma, transparente, e se o “eu” do leitor vier a ocupá-lo. Se este “eu” for, em suma, transpessoal.

Foi assim que concebi o meu compromisso com a escrita, que não consiste em escrever “para” uma categoria de leitores, mas “a partir” da minha experiência de mulher e imigrante do interior, da minha memória doravante cada vez mais longa dos anos que fui atravessando, a partir do presente, incessantemente fonte de imagens e palavras dos outros. Este compromisso como penhor de mim própria na escrita é sustentado pela crença, que se tornou certeza, de que um livro pode contribuir para mudar a vida pessoal, para quebrar a solidão das coisas sofridas e enterradas, para pensar diferente. Quando o indizível vem à tona, é político.

Vê-se isto hoje com a revolta destas mulheres que encontraram palavras para perturbar o poder masculino e se ergueram, como no Irão, contra a sua forma mais arcaica. Escrevendo num país democrático, continuo a interrogar-me, contudo, acerca do lugar ocupado pelas mulheres no campo literário. A sua legitimidade para produzir obras ainda não é um dado adquirido. Há no mundo, até nas esferas intelectuais ocidentais, homens para os quais os livros escritos pelas mulheres simplesmente não existem, não os citam nunca. O reconhecimento do meu trabalho pela Academia Sueca constitui um sinal de esperança para todas as escritoras.

Na atualização do indizível social, esta interiorização das relações de dominação de classe e/ou de raça, de sexo também, que é sentida apenas por quem é objeto delas, há a possibilidade de uma emancipação individual mas também coletiva. Decifrar o mundo real despojando-o das visões e valores que a língua, qualquer língua, carrega, é perturbar a ordem instituída, sacudir as hierarquias.

Mas não confundo esta ação política da escrita literária, submetida à sua receção pelo leitor ou leitora com as tomadas de posição que me senti compelida a assumir face a acontecimentos, conflitos e ideias. Cresci na geração do pós-Guerra Mundial para a qual era evidente que escritores e intelectuais se posicionassem em relação à política da França e se implicassem nas lutas sócias. Ninguém pode dizer hoje se as coisas teriam sido diferentes sem a sua palavra e o seu compromisso. No mundo atual, em que a multiplicidade de fontes de informação, a rapidez de substituição das imagens umas pelas outras, acostumam a uma forma de indiferenças, concentrar-se na sua arte é uma tentação. Mas, ao mesmo tempo, há na Europa – mascarada ainda pela violência de uma guerra imperialista despoletada pelo ditador que manda na Rússia – a ascensão de uma ideologia de retirada e de fechamento, que se espalha e ganha continuamente terreno nos países até agora democráticos. Fundada na exclusão dos estrangeiros e dos imigrantes, no abandono dos economicamente fracos, na vigilância do corpo das mulheres, impõe-me, a mim e a todas aqueles para os quais o valor de um ser humano é o mesmo, sempre e em todo o lado, um dever de vigilância extrema.

Ao conceder-me a máxima distinção literária, é um trabalho de escrita e uma investigação pessoal realizada em solidão e na dúvida que passam a estar sobre o foco de uma grande luz. Ela não me deslumbra. Não olho para a atribuição do prémio Nobel como uma vitória individual. Não é orgulho nem modéstia pensar que se trata, de alguma forma, de uma vitória coletiva. Partilho o meu orgulho com todos aqueles e aquelas que, de uma forma ou de outra, querem mais liberdade, igualdade e dignidade para todos os seres humanos, independentemente do seu sexo e género, da sua pele e da sua cultura. Aqueles e aquelas que pensam nas gerações futuras, na salvaguarda de uma Terra que a ânsia de lucro de um pequeno número continua a tornar cada vez menos habitável para o conjunto das populações.

Se regresso à promessa feita há vinte anos de vingar a minha raça, não sei dizer se a realizei. Foi dela, dos meus antepassados, homens e mulheres duro com tarefas que os fizeram morrer cedo, que recebi a força e a raiva necessárias para ter o desejo e a ambição de lhes dar um lugar na literatura, neste conjunto de múltiplas vozes que, desde muito cedo, me acompanharam dando-me acesso a outros mundos e outros pensamentos, incluindo o de me revoltar contra ela e querer modificá-la. Para inscrever a minha voz como mulher e trânsfuga social no que se apresenta sempre como um lugar de emancipação, a literatura.

Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.


Notas

(1) Arthur Rimbaud, Une saison en enfer. Édition critique. Introduction et notes par H. de Bouillane de Lacoste. Paris : Mercure de France, 1941.

(2) Jean-Jacques Rousseau,Œuvres complètes I. Les confessions ; Autres textes autobiographiques. Édition publiée sous la direction de Bernard Gagnebin et Marcel Raymond. Paris : Gallimard, 1959

(3) Victor Hugo, Œuvres complètes. Poésie V, Les Contemplations. (Préface des Contemplations). Paris : Hetzel-Quantin, 1882.

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