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Alterações climáticas provocaram queda do PIB mundial, mas ainda há quem ganhe

Estudo do Climate Change Hub da Universidade norte-americana do Delaware avaliou o impacto das alterações climáticas na economia mundial em 2022 e conclui que os países mais pobres foram os que mais sofreram as consequências.
lago Mead, Nevada
Foto James Marvin Phelps/Flickr

Um dos temas no centro dos debates na COP28, que arranca esta semana no Dubai, é o do fundo de perdas e danos para compensar os países mais afetados pelas alterações climáticas e financiar a sua adaptação. A sua criação foi anunciada na cimeira anterior no Egito, mas ainda não há acordo para a sua operacionalização. Por outro lado, a promessa de financiamento de 100 mil milhões de dólares anuais para um fundo climático destinado a compensar os países menos desenvolvidos nunca foi cumprida.

Num estudo que examinou a literatura científica disponível sobre PIB e clima, combinando-a com o uso de aprendizagem de máquina e modelos dos efeitos indiretos do clima na economia, o economista James Rising concluiu que as alterações climáticas tiveram impacto económico evidente no planeta, que variam de região para região e que dependem da estrutura económica de cada país, bem como a sua vulnerabilidade climática.

Em 2023, a perda do PIB ajustado à população foi de 6,3%, mas essa queda no PIB global limitou-se a 1,8%, cerca de 1,5 biliões de dólares. A diferença explica-se pelo menor impacto, ou até algum benefício, nas economias dos países mais ricos. No gráfico com o mapa-mundo da evolução dos impactos das alterações climáticas pode ver-se que as maiores perdas aconteceram sobretudo no hemisfério Sul, com o Sudoeste Asiático em destaque.

impacto das alterações climáticas em 2022 por país em % do PIB Impacto das alterações climáticas em 2022 por país em % do PIB.

Em sentido contrário, na Europa e no norte da Ásia, as alterações climáticas beneficiaram a economia, com um crescimento do PIB ajustado à população de 4,7% quando comparado com um cenário de inexistência de alterações climáticas. O inverno menos rigoroso é um dos fatores a considerar e explica o menor consumo de energia e a menor mortalidade. No mapa pode ver-se que o benefício já não abrange todo o território, com a Península Ibérica a ficar do lado dos perdedores, neste caso 2%. E à medida que o planeta continua a aquecer, em breve os efeitos negativos dos verões mais quentes anularão os benefícios dos invernos mais amenos. Os EUA e a China já estão no ponto em que os efeitos negativos anulam os positivos.

O resultado deste estudo sublinha como as alterações climáticas estão a exacerbar as desigualdades económicas mundiais, com um fardo desproporcional para os países menos desenvolvidos. E as repercussões não se traduzem apenas na queda do PIB, mas também na redução de capacidade para investir em capital produtivo, com essa perda de capital a refletir-se a longo prazo na  sustentabilidade das suas economias. Somando as perdas do PIB desde 1993 ao ano passado, cobrindo as três décadas desde a Conferência do Rio, quando o mundo reconheceu o risco climático, às perdas de capital em 2022, resulta que os países de baixo e médio rendimento tiveram uma perda total de 21 biliões de dólares, cerca de metade do PIB deste ano dos países em desenvolvimento, enquanto os países da OCDE ficaram 1,6 biliões de dólares mais ricos no mesmo período graças ao impacto das alterações climáticas até ao momento.

Ao colocar em evidência a desigualdade dos impactos das alterações climáticas, as conclusões deste estudo dão mais argumentos à "necessidade urgente dos países em desenvolvimento receberem apoio e assistência das nações mais ricas na atenuação dos impactos adversos das alterações climáticas" refere o autor.

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