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Alex Jones, o famoso conspiracionista de extrema-direita declarou falência

Depois de uma carreira dedicada às teorias da conspiração e ao discurso de ódio, Jones foi condenado pesadamente por mentir dizendo que um massacre numa escola era uma invenção do governo. Mas o pedido de falência é um esquema para fugir à responsabilização diz um advogado das vítimas.
Alex Jones em 2014. Foto de Sean P. Anderson/Flickr.
Alex Jones em 2014. Foto de Sean P. Anderson/Flickr.

Alex Jones, figura de proa da extrema-direita conspiracionista norte-americana, declarou falência esta sexta-feira na sequência de ter sido condenado em tribunal a pagar perto de 1,5 mil milhões de dólares por ter espalhado teorias da conspiração sobre o massacre na escola de Sandy Hook em 2012.

O apresentador tinha lançado o boato de que o tiroteio que vitimou 20 crianças e seis adultos seria “completamente falso”, encenado por atores, num “esquema gigantesco” montado por quem se opõe ao “direito de porte de armas”, nomeadamente o governo da altura. Depois de defender esta tese por anos, acabou por reconhecer a sua total falsidade no passado mês de agosto em tribunal.

Num caso que foi a tribunal no Connecticut, foi condenado pela primeira vez em outubro de 2019 por isto mas só em outubro deste ano lhe foi exigido o pagamento de 965 milhões às famílias, valor que foi acrescido no mês passado de 473 milhões. A sua empresa, a Free Speech Systems, já tinha pedido falência em julho pelo mesmo motivo. Em agosto, num caso separado de outra família, neste caso uma criança de seis anos, julgado no Texas, tinha sido também condenado a pagar perto de 50 milhões de dólares. Há ainda um terceiro caso por concluir.

Os advogados das famílias reagiram criticando o pedido de falência como um esquema. Chris Mattei, um deles, declarou que “como todas as outras jogadas cobardes de Alex Jones, este pedido de bancarrota não vai funcionar. O sistema de falência não protege quem se tenha empenhado em ataques intencionais e escandalosos contra outros.”

Várias das famílias das famílias relatam terem sido vítimas de ameaças e terem sido assediadas durante anos pelos apoiantes de Jones. Por exemplo, um dos apoiantes desta teoria da conspiração urinou na campa de uma criança de sete anos e ameaçou desenterrar o caixão. E a filha do diretor da escola onde o massacre ocorreu e que também faleceu nesta ocasião, Erica Lafferty, recebeu ameaças de violação por correios.

Já Jones, reagiu rindo-se no seu programa, dizendo que tem menos de dois milhões em seu nome.

Isto apesar de economista forense, Bernard Pettingill Jr, ter testemunhado no seu julgamento que ele e a sua empresa terão um valor combinado de entre 135 e 270 milhões e de, só no ano passado, ter retirado da sua empresa 62 milhões.

Antes disso, em meados de outubro, tinha dito que o julgamento se devia às forças “globalistas” e da “Nova Ordem Mundial” o estarem a tentar calar.

Até agora, o conspiracionista tinha conseguido escapar-se a vários dos processos judiciais. James Alefantis, dono da pizzaria Comet Ping Pong, que Jones tinha ajudado a colocar no centro da bizarra teoria da conspiração do Pizzagate, ameaçou processá-lo mas Jones pediu desculpas e retratou-se das alegações. O mesmo fez quando a empresa de fabrico de iogurtes Chobani apresentou queixa contra ele por a ter ligado a um caso de abuso sexual de menores e ao aumento da tuberculose, isto porque uma das unidades da empresa, em Idaho, emprega refugiados. Também voltou atrás nas acusações feitas a Brennan Gilmore que tinha divulgado um vídeo de um carro que tinha atropelado manifestantes contra um evento da extrema-direita. Tinha-o acusado de estar ao serviço do “estado profundo” e de fazer uma tentativa de golpe de Estado contra Trump.

Quem é Alex Jones?

Alex Jones é fundador de um site conspiracionista de extrema-direita, o Infowars, que tornou num caso sério de sucesso a nível nacional nos EUA, que se expandiu para outros negócios como venda de suplementos nutricionais e material de “sobrevivência” dedicado ao nicho extremista chamado “sobrevivencionalista” e que se prepara para viver em isolamento após alguma catástrofe social ou o “Armagedão”. Vendeu também falsos remédios contra a Covid-19, incluindo uma pasta de dentes, até ser intimado por ordem judicial. Continuou depois a vendê-los acrescentando uma nota que não eram eficazes no tratamento do novo coronavírus.

Começou, porém, num pequeno programa de televisão em Austin, no Texas. Este programa e a sua carreira conspiracionista começaram influenciados pelo cerco policial e incêndio em Waco da seita de David Koresh, chamada Ramo Davidiano, em 1993, e pelo ataque bombista de Oklahoma em abril de 1995 por Timothy McVeigh.

Hoje, apesar de bloqueado nas redes sociais mais conhecidas, por violações das suas políticas como desinformação, promoção de discurso de ódio e glorificação de violência, o The Alex Jones Show continua a ser visto e ouvido por milhões a cada emissão nas quais para além das conspirações, se vendem a cada momento produtos e se pedem donativos.

Para além de negar o massacre de Sandy Hook, também promove mentiras sobre os ataques do 11 de setembro, entre outros eventos, é pró-armas, anti-vacinas e negacionista das alterações climáticas. Dá destaque a promotores de teses supremacistas brancas e é abertamente homofóbico. O centro de todo o discurso e o que une os vários casos é a teoria da conspiração da “Nova Ordem Mundial”. Aliás, defende que a homossexualidade se deve a uma “guerra química” empreendida pelo governo norte-americano.

Politicamente, chegou a candidatar-se pelos republicanos a um lugar na Assembleia Legislativa local, no início dos anos 2000, mas desistiu. É apoiante de Trump, tendo também sido um dos promotores da teoria de que houve fraude eleitoral na sua derrota na corrida à Casa Branca e poderá ainda enfrentar uma investigação sobre o papel que ele e a sua organização desempenhou no ataque ao Capitólio. Foi um dos oradores no comício que o precedeu e financiou o evento. Já foi ouvido pela Comissão do Congresso dos EUA que investiga o caso que requereu acesso às suas mensagens.

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